Arquivo para 3 de junho de 2011

03
jun
11

Fragmentos da eternidade, por Leila Teixeira

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A jornada do hedonista: a jornada do anarquista, por Leila D. S. Teixeira

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O materialismo e o hedonismo como formas de reavaliar o relacionamento do homem com o mundo? O fazer filosófico baseado nas experiências pessoais de cada indivíduo? Falar se Michel Onfray está certo ou errado, em relação ao que pensam aqueles que o criticam, é pegar o caminho fácil (e, sobretudo, pretensioso) de achar que se tem competência para dizer o que é “certo” e o que é “errado” neste mundo. Dentre todas as coisas que poderiam ser ditas, vou me limitar a dizer que Onfray apresenta, na minha opinião, uma proposta muito atraente.

Em “A Teoria da Viagem – poética da geografia”, traduzido por Paulo Neves e publicado pela L&PM, Michel Onfray aponta três razões não excludentes para o surgimento do desejo de viajar.

Sob uma perspectiva holística, universal, mais ampla, a ânsia por viajar tem sua origem na vontade de voltar à essência, de fazer parte do movimento do mundo outra vez, de retornar à dinâmica molecular que se tinha durante as horas dentro do ventre materno, arredondado como um globo, como um mapa-múndi. Dentro dessa perspectiva maior, a escolha da destinação atende a necessidade que cada corpo tem de reencontrar o elemento no qual se sente mais à vontade e que foi outrora, nas horas placentárias ou primeiras, o provedor de sensações e prazeres confusos, mas memoráveis. “Existe sempre uma geografia que corresponde a um temperamento”.

Do ponto de vista local, menos abrangente, da relação do indivíduo com a comunidade que o cerca, o querer viajar surge da recusa do tempo laborioso da civilização em proveito do lazer inventivo e alegre. “O viajante nega o tempo social, coletivo e coercitivo, em favor de um tempo singular feito de durações subjetivas e de instantes festivos buscados e desejados. Associal, insociável, irrecuperável, o viajante ignora o tempo convencionado”, não possui relógio de pulso, mas, sim, um olho que se orienta pelo sol e pelas estrelas.

Sob um prisma individual, a vontade de viajar nasce no desejo do autoconhecimento, da partida em busca própria com o propósito, muito hipotético, de se reencontrar ou, quem sabe, de se encontrar. “A viagem supõe uma experimentação em nós que tem a ver com exercícios costumeiros entre os filósofos antigos: o que posso saber de mim? O que posso aprender e descobrir a meu respeito se mudo de lugares habituais e modifico minhas experiências? O que resta da minha identidade quando são suprimidos vínculos sociais, comunitários, tribais, quando me vejo sozinho, num ambiente hostil ou pelo menos inquietante?”.

As duas primeiras motivações, global e local, aproximam o viajante do nômade. Ambos sabem-se mortais, mas sentem-se como fragmentos da eternidade destinados a se mover num planeta finito. Ambos, com suas atitudes incontroláveis, com seus modos errantes, questionam as instituições, o Estado, o Direito, a religião: não se submetem facilmente às imposições sociais e políticas.

A terceira motivação afasta o viajante do turista. Para o turista, a viagem não significa busca ou autoconhecimento. Para o turista, a viagem consiste em um ato mecanizado, um preencher o check list de lugares já visitados.

Um detalhe importante que não pode ser esquecido é que, para Onfray, não há Odisséia sem o reencontro com Ítaca. Em outras palavras, o viajante tem que voltar para casa, para organizar o que viu, repensar o que passou e maturar o que aprendeu. O nomadismo perpétuo sairia dos limites da viagem e entraria no da vagabundagem.

O viajante volta ao lar, mas logo já ansia pela próxima viagem. “Saber-se nômade uma vez é o que basta para nos convencer de que tornaremos a partir, de que a recente viagem não será a última. A menos que a morte aproveite para nos colher… Até à beira do túmulo, é preciso querer, ainda e sempre, a força, a vida, o movimento”.

Leila D S Teixeira, nascida em Passo Fundo/RS em 1979, formada em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, participou dos livros “Outras Mulheres”, em 2010 e “Inventário das Delicadezas”, em 2007; venceu os concursos Osman Lins e Mário Quintana/SINTRAJUFE em 2006 e frequenta as oficinas Charles Kiefer desde 2005. Junto com Cristina Moreira e Daniela Langer, idealizou a Vereda Literária, programa de debates onde se enfocam temas literários, realizado na Palavraria.

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A partir desta data, Leila Teixeira passa a publicar neste blog na primeira sexta-feira de cada mês.

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03
jun
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Vai rolar na Palavraria, neste sábado, 04: lançamento do livro A autogestão na perspectiva da análise do discurso, de Darlene Webler

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04, sábado, 17h: Lançamento do livro A Autogestão na Perspectiva da Análise do Discurso, de Darlene Webler

Na obra, a autora investiga as práticas discursivas de trabalhadores inseridos em empreendimentos autogestionários, especialmente, em organizações associativas implementadas a partir da massa falida empresarial, desdobrando reflexões e análises sobre o funcionamento desses discursos.

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