Arquivo para 15 de junho de 2011

15
jun
11

A crônica de Cris Moreira

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Ação e reação, por Cris Moreira

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Estava em casa essa semana, e acompanhei as notícias na tevê, e li as revistas semanais, coisa que não fazia há muito. Mais por falta de disposição do que falta de tempo, porque tempo de leitura é algo que sempre encontro, seja numa fila, seja numa ida de ônibus.

O fato é que me surpreendeu a polêmica toda a respeito dos livros do MEC terem sido editados não só com erros graves de concordância, como também apresentando a defesa desses erros. Resumindo: se eu escrever errado e o meu professor for me corrigir, posso me considerar vítima de preconceito linguístico, coisa que eu nem sabia que existia.

É sério. Como alguns professores (aqueles que entendem a diferença entre realmente ensinar e apenas disfarçar as falhas) se insurgiram contra esse absurdo, surgiu o movimento contrário, os que se levantaram pela defesa do direito ao erro, e pela proteção, ou, na pior das hipóteses, no incentivo à escrita e à fala incorretas.
Não me entenda mal, sei que algumas pessoas não têm acesso à educação formal, e na minha modesta opinião reside aí o grande problema do país, mas acredito que, no momento do aprendizado, é preciso criar conceitos e formar cidadãos da forma mais correta possível. Se a pessoa vai depois falar errado, escrever errado, fazer o uso de gírias ou de “miguxês”, aí é uma escolha dela. E essa escolha deveria ser consciente.

No meio desses assuntos me veio a lembrança de um dia, numa das aulas da Oficina*, eu ter sugerido a uma colega a leitura de um livro específico, do Mario Vargas Llosa, que poderia ajudá-la numa melhor construção de narrador. Lembro também do meu espanto (que foi compartilhado por outros colegas) com a resposta dela, imagina se ela estava ali pra ficar lendo livros ou pra ter outras pessoas dizendo a ela que lesse este ou aquele livro. Absurdo? Não, tenho testemunhas. Depois desse dia nunca mais comentei nenhum dos textos dessa colega, porque sentia que não estávamos falando da mesma coisa, não estávamos na aula pela paixão ao mesmo objeto.

O que uma coisa tem a ver com a outra? Tudo. Não consigo compreender uma escrita sem que haja uma leitura como bagagem, como aprendizado, como treino de ritmo, de voz. Ao meu ver, leitura e escrita são coisas inseparáveis, que me ajudam a compreender o mundo, a me relacionar com o mundo, a pensar a respeito do mundo. E também de mim mesma, claro.

Prevejo que seremos, num futuro muito próximo, julgados e condenados por esse terrível hábito da leitura, por essa mania absurda de querer falar corretamente, pelo pensamento perigoso de relacionar a leitura com um raciocínio mais rápido, mais abrangente. Viveremos num gueto, carregando algum sinal que me diferencie do restante, que faça os outros se afastarem de nós, evitarem o olhar e o contato, por causa desse hábito tão incômodo e provocador como é a leitura.

Os livros do MEC que defendem a escrita e a fala erradas serão entregues nas escolas, e serão usados pelos professores, e construírão estudantes medíocres, limitados, crentes de que tanto faz, de que não existe certo e errado, de que a leitura é algo dispensável. O que não canso de me perguntar é que futuro eu e meus colegas de Oficina, nós, que estudamos e lemos e trabalhamos o texto como quem cinzela um bloco de mármore em busca da estátua, futuros escritores, encontraremos para nossos livros e publicações.

 

Cris Moreira teve contos publicados nas antologias: 102 que contam (2005), 30 Contos Imperdíveis (2006) e 103 que contam (2006). Em 2007 lançou, com colegas, a antologia Inventário das Delicadezas. Pode ser encontrada no aautora@gmail.com.

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15
jun
11

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: Harmonia

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Harmonia, por Jaime Medeiros Jr.

Às vezes nossas palavras soam falsas. Dizes, mas algo se interpõe entre tu e quem recebe tuas palavras ou interpreta teus atos, pois tudo acaba por passar por aquele último crivo que identifica [põe a etiqueta] no que se percebe do mundo: “presta” ou “não presta’. De outro lado é interessante que também posicionamos a todos os nossos  contemporâneos dentro de determinadas categorias de convivência,  aos quais acabamos por distribuir também dentro de determinado número de etiquetas: parceiros, amigos, conhecidos, aqueles de quem temos raras notícias e outras que tais.

Aquele crivo final posto às coisas e atos que coletas durante o dia e que por fim determina o teu juízo destas mesmas coisas parece funcionar muito bem quando as etiquetas que puseste em teus contemporâneos estão bem consolidadas, mas não tão bem quando aquele com quem contracenas inda não foi conduzido definitivamente, ou ao menos temporariamente, ao universo de uma determinada etiqueta. Pois tu não sabes ainda bem onde colocá-lo, ou porque ele é realmente de difícil classificação, ou porque está se estabelecendo um processo de aproximação ou distanciamento entre vocês e tu já não sabes bem em que categoria hás de situá-lo.

Exemplo: tu vens caminhando em um domingo qualquer da tua existência, meio desprevenido de intenções, meio tomado de considerações a respeito de coisas das quais já não lembras mais, mas que naquele momento te pareciam importantes o suficiente para pô-las na ordem do dia. O sol bate em teu rosto, a luz te acorda, não de todo, para o mundo. Lá na frente está vindo alguém, e tu estás indo, vocês estão obrigatoriamente em rota de colisão. Em determinado ponto do percurso tu percebes que aquele alguém a se aproximar, o qual automaticamente tu já classificaras como um belo espécime feminino, também era teu conhecido. Segues adiante tentando lembrar donde tu a conheces. A colisão se estabelece. A moça está quase roxa de vergonha, o teu olhar a desconcertara. Tu também te desconcertas quando percebes que há alguém ao lado dela, em quem tu simplesmente não puseras atenção, pois que tinhas sido consumido pela necessidade de achar uma resposta àquela questão. Ela não está só, e sim acompanhada do amigo do teu amigo. A porcaria está feita. Como tu te explicas, tu que vinhas absorto naquela simples e singela questão: de onde conheço esta moça?  A questão muda de imediato, e agora passa a ser: o amigo do meu amigo é meu amigo? O problema é que nem sempre se tem uma resposta positiva para este tipo de questão e nem sempre sabes a qual categoria pertence o amigo do teu amigo. Deste modo, o diálogo trava. Mas tudo tem de passar pelo último crivo. E por certo, o amigo do teu amigo, ao menos por algum tempo, há de tecer considerações nada louváveis a teu respeito, dizendo: esse cara “não presta”.

Outro dia, algo de semelhante aconteceu. O amigo de um amigo, que inda não sei onde colocar dentro daquelas várias categorias de convivência, fala sobre como universos diferentes que parecem correr de modo paralelo [imagem e som, fotografia e música por exemplo] tem pontos de contato. Eu bato no ombro dele e digo rindo, gostei, paralelos que tem ponto de contato. Ele me olha de viés. Leio nos olhos dele: estás me tirando? As circunstâncias não permitem explicações. E nestes momentos quanto mais explicações, mais ruído. Menos comunicação. Aprendi nos últimos dias que harmonia e talvez seja exatamente esta a ideia a que ele [o amigo do amigo] está se referindo é o contato sincrônico e vertical entre duas ou mais linhas melódicas. Mas no momento eu ri [o que pode significar um riso?], não por um qualquer desapreço pelo comentário, mas pelo exato contrário. Aquela asserção me lembrara Nicolau de Cusa a nos ensinar:  dentro de parâmetros infinitos,  reta e curva são a  mesma coisa,  o que a mim sempre pareceu significar exatamente o que ele [o amigo do amigo] disse,  as paralelas têm pontos de contato entre si.  Mas sempre temos um crivo por que passar. Vai tentar te explicar pra ver o rolo que dá. O melhor é esperar um novo momento, e ver se o acorde se produz, mas quem há de saber?

Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Mantém os blogs Tênues Considerações e O Arco da Lira.

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr. aparece neste blog quinzenalmente às quartas-feiras.

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15
jun
11

Vai rolar na Palavraria, nesta quinta, 16

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16, quinta, 19h: Lançamento do livro Devaneios literários, crônicas de Mariana Collares (Editora Bookess)

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Gaúcha de nascimento, Mariana Collares nasceu em Pelotas, em 14 de outubro de 1972, por acaso – os pais estavam fugindo do DOPs (a temida polícia do
regime militar) e se exilaram na casa dos avós paternos, onde viveu até quase completar um ano de idade. Aos 19 anos iniciou o projeto que chamou Devaneios Literários – uma seleção de prosa e poesia publicada em 2005, no blog homônimo. Em 2010 lança este Devaneios literários (crônicas), pela editora Bookess. Atualmente divide-se entre os afazeres da escrita e a profissão de formação (o direito). Colabora com o blog Devaneios Literarios e o site Comunidade Literária Benfazeja, em ambos como cronista.

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