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jun
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A crônica de Cris Moreira

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Ação e reação, por Cris Moreira

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Estava em casa essa semana, e acompanhei as notícias na tevê, e li as revistas semanais, coisa que não fazia há muito. Mais por falta de disposição do que falta de tempo, porque tempo de leitura é algo que sempre encontro, seja numa fila, seja numa ida de ônibus.

O fato é que me surpreendeu a polêmica toda a respeito dos livros do MEC terem sido editados não só com erros graves de concordância, como também apresentando a defesa desses erros. Resumindo: se eu escrever errado e o meu professor for me corrigir, posso me considerar vítima de preconceito linguístico, coisa que eu nem sabia que existia.

É sério. Como alguns professores (aqueles que entendem a diferença entre realmente ensinar e apenas disfarçar as falhas) se insurgiram contra esse absurdo, surgiu o movimento contrário, os que se levantaram pela defesa do direito ao erro, e pela proteção, ou, na pior das hipóteses, no incentivo à escrita e à fala incorretas.
Não me entenda mal, sei que algumas pessoas não têm acesso à educação formal, e na minha modesta opinião reside aí o grande problema do país, mas acredito que, no momento do aprendizado, é preciso criar conceitos e formar cidadãos da forma mais correta possível. Se a pessoa vai depois falar errado, escrever errado, fazer o uso de gírias ou de “miguxês”, aí é uma escolha dela. E essa escolha deveria ser consciente.

No meio desses assuntos me veio a lembrança de um dia, numa das aulas da Oficina*, eu ter sugerido a uma colega a leitura de um livro específico, do Mario Vargas Llosa, que poderia ajudá-la numa melhor construção de narrador. Lembro também do meu espanto (que foi compartilhado por outros colegas) com a resposta dela, imagina se ela estava ali pra ficar lendo livros ou pra ter outras pessoas dizendo a ela que lesse este ou aquele livro. Absurdo? Não, tenho testemunhas. Depois desse dia nunca mais comentei nenhum dos textos dessa colega, porque sentia que não estávamos falando da mesma coisa, não estávamos na aula pela paixão ao mesmo objeto.

O que uma coisa tem a ver com a outra? Tudo. Não consigo compreender uma escrita sem que haja uma leitura como bagagem, como aprendizado, como treino de ritmo, de voz. Ao meu ver, leitura e escrita são coisas inseparáveis, que me ajudam a compreender o mundo, a me relacionar com o mundo, a pensar a respeito do mundo. E também de mim mesma, claro.

Prevejo que seremos, num futuro muito próximo, julgados e condenados por esse terrível hábito da leitura, por essa mania absurda de querer falar corretamente, pelo pensamento perigoso de relacionar a leitura com um raciocínio mais rápido, mais abrangente. Viveremos num gueto, carregando algum sinal que me diferencie do restante, que faça os outros se afastarem de nós, evitarem o olhar e o contato, por causa desse hábito tão incômodo e provocador como é a leitura.

Os livros do MEC que defendem a escrita e a fala erradas serão entregues nas escolas, e serão usados pelos professores, e construírão estudantes medíocres, limitados, crentes de que tanto faz, de que não existe certo e errado, de que a leitura é algo dispensável. O que não canso de me perguntar é que futuro eu e meus colegas de Oficina, nós, que estudamos e lemos e trabalhamos o texto como quem cinzela um bloco de mármore em busca da estátua, futuros escritores, encontraremos para nossos livros e publicações.

 

Cris Moreira teve contos publicados nas antologias: 102 que contam (2005), 30 Contos Imperdíveis (2006) e 103 que contam (2006). Em 2007 lançou, com colegas, a antologia Inventário das Delicadezas. Pode ser encontrada no aautora@gmail.com.

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