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A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: Harmonia

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Harmonia, por Jaime Medeiros Jr.

Às vezes nossas palavras soam falsas. Dizes, mas algo se interpõe entre tu e quem recebe tuas palavras ou interpreta teus atos, pois tudo acaba por passar por aquele último crivo que identifica [põe a etiqueta] no que se percebe do mundo: “presta” ou “não presta’. De outro lado é interessante que também posicionamos a todos os nossos  contemporâneos dentro de determinadas categorias de convivência,  aos quais acabamos por distribuir também dentro de determinado número de etiquetas: parceiros, amigos, conhecidos, aqueles de quem temos raras notícias e outras que tais.

Aquele crivo final posto às coisas e atos que coletas durante o dia e que por fim determina o teu juízo destas mesmas coisas parece funcionar muito bem quando as etiquetas que puseste em teus contemporâneos estão bem consolidadas, mas não tão bem quando aquele com quem contracenas inda não foi conduzido definitivamente, ou ao menos temporariamente, ao universo de uma determinada etiqueta. Pois tu não sabes ainda bem onde colocá-lo, ou porque ele é realmente de difícil classificação, ou porque está se estabelecendo um processo de aproximação ou distanciamento entre vocês e tu já não sabes bem em que categoria hás de situá-lo.

Exemplo: tu vens caminhando em um domingo qualquer da tua existência, meio desprevenido de intenções, meio tomado de considerações a respeito de coisas das quais já não lembras mais, mas que naquele momento te pareciam importantes o suficiente para pô-las na ordem do dia. O sol bate em teu rosto, a luz te acorda, não de todo, para o mundo. Lá na frente está vindo alguém, e tu estás indo, vocês estão obrigatoriamente em rota de colisão. Em determinado ponto do percurso tu percebes que aquele alguém a se aproximar, o qual automaticamente tu já classificaras como um belo espécime feminino, também era teu conhecido. Segues adiante tentando lembrar donde tu a conheces. A colisão se estabelece. A moça está quase roxa de vergonha, o teu olhar a desconcertara. Tu também te desconcertas quando percebes que há alguém ao lado dela, em quem tu simplesmente não puseras atenção, pois que tinhas sido consumido pela necessidade de achar uma resposta àquela questão. Ela não está só, e sim acompanhada do amigo do teu amigo. A porcaria está feita. Como tu te explicas, tu que vinhas absorto naquela simples e singela questão: de onde conheço esta moça?  A questão muda de imediato, e agora passa a ser: o amigo do meu amigo é meu amigo? O problema é que nem sempre se tem uma resposta positiva para este tipo de questão e nem sempre sabes a qual categoria pertence o amigo do teu amigo. Deste modo, o diálogo trava. Mas tudo tem de passar pelo último crivo. E por certo, o amigo do teu amigo, ao menos por algum tempo, há de tecer considerações nada louváveis a teu respeito, dizendo: esse cara “não presta”.

Outro dia, algo de semelhante aconteceu. O amigo de um amigo, que inda não sei onde colocar dentro daquelas várias categorias de convivência, fala sobre como universos diferentes que parecem correr de modo paralelo [imagem e som, fotografia e música por exemplo] tem pontos de contato. Eu bato no ombro dele e digo rindo, gostei, paralelos que tem ponto de contato. Ele me olha de viés. Leio nos olhos dele: estás me tirando? As circunstâncias não permitem explicações. E nestes momentos quanto mais explicações, mais ruído. Menos comunicação. Aprendi nos últimos dias que harmonia e talvez seja exatamente esta a ideia a que ele [o amigo do amigo] está se referindo é o contato sincrônico e vertical entre duas ou mais linhas melódicas. Mas no momento eu ri [o que pode significar um riso?], não por um qualquer desapreço pelo comentário, mas pelo exato contrário. Aquela asserção me lembrara Nicolau de Cusa a nos ensinar:  dentro de parâmetros infinitos,  reta e curva são a  mesma coisa,  o que a mim sempre pareceu significar exatamente o que ele [o amigo do amigo] disse,  as paralelas têm pontos de contato entre si.  Mas sempre temos um crivo por que passar. Vai tentar te explicar pra ver o rolo que dá. O melhor é esperar um novo momento, e ver se o acorde se produz, mas quem há de saber?

Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Mantém os blogs Tênues Considerações e O Arco da Lira.

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr. aparece neste blog quinzenalmente às quartas-feiras.

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1 Response to “A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: Harmonia”


  1. 1 Silvana
    1 de julho de 2011 às 21:34

    Jaime! adorei.


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