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jul
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Fragmentos da eternidade, por Leila D. S. Teixeira: auto-estrada do Sul

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Auto-estrada do Sul, por Leila D. S. Teixeira

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Foto de Leila D. S. Teixeira
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O conto “Auto-estrada do Sul”*, de Júlio Cortázar, é um excelente exemplo do uso do tempo e do espaço como elementos de construção do significado.

As personagens estão presas em um engarrafamento quilométrico, em uma estrada que leva a Paris. Na mesma velocidade em que se movem os carros, as relações interpessoais vão sendo construídas. Pessoas vão se conhecendo, grupos vão se formando, funções dentro dos grupos vão surgindo, vizinhos de carros vão se tornando íntimos. Durante trinta páginas, Cortázar estrutura um microcosmos delicado e complexo que vagarosamente passa a abarcar as personagens. É interessante notar que, as personagens vão se movendo lentamente e se tornando cada vez mais próximas, durante o percurso de um caminho com uma única direção, pois todas desejam chegar a Paris e não têm como voltar atrás. O tempo é tratado da mesma forma por Cortázar: em uma única direção. O escritor não utiliza flashbacks ou flashforwards na narrativa e, com isso, não diferencia de forma marcante o tempo da história e o tempo do discurso, coloca-os, ambos, movendo-se no mesmo sentido. Assim, a estrada sem volta, o tempo da história e o tempo da narrativa na mesma direção aparentam ser a linha da vida, na qual não se pode voltar atrás, tampouco adiantar acontecimentos.

O fim dessa estrada (e do conto) será o sinônimo da destruição do microcosmos paulatinamente construído. De maneira veloz e abrupta, em apenas um parágrafo, Cortázar desfaz totalmente a rede antes estruturada em trinta páginas: como acontece fora da ficção, o protagonista se vê sozinho em meio a estranhos, pois as pessoas com quem havia estabelecido intimidade e cumplicidade foram arrancadas de seu convívio, para sempre, sem que ele pudesse se despedir, pelo trânsito que voltou a correr a oitenta quilômetros por hora.

*O conto “Auto-estrada do Sul” está no livro “Todos os Fogos o Fogo”, de Júlio Cortázar, publicado pela Civilização Brasileira.

Leila D S Teixeira, nascida em Passo Fundo/RS em 1979, formada em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, participou dos livros “Outras Mulheres”, em 2010 e “Inventário das Delicadezas”, em 2007; venceu os concursos Osman Lins e Mário Quintana/SINTRAJUFE em 2006 e frequenta as oficinas Charles Kiefer desde 2005. Junto com Cristina Moreira e Daniela Langer, idealizou a Vereda Literária, programa de debates onde se enfocam temas literários, realizado na Palavraria.

Leila publica regularmente neste blog na primeira sexta-feira do mês.

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1 Response to “Fragmentos da eternidade, por Leila D. S. Teixeira: auto-estrada do Sul”


  1. 1 SUZANA TEIXEIRA
    25 de julho de 2011 às 18:05

    Ô BAIXINHA QUE CONFIA NO PRÓPRIO TACO .
    PUBLICAR COMENTÁRIO SOBRE CONTO DO CORTAZAR …
    E TÁ À ALTURA. PARABÉNS !


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