Arquivo para 5 de julho de 2011

05
jul
11

A crônica de Tiago Cardoso

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Dostoiévski e a arquitetura nietzscheana do moderno, por Tiago Cardoso

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Foto de Tiago Cardoso

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Assisti, tem pouco tempo, a uma palestra do professor Oswaldo Giacóia Júnior sobre Nietzsche e a crítica da modernidade. Eu, sempre que ouço menção ao filósofo alemão, lembro de Dostoiévski. Bem, eis então o que proponho. Façamos uma breve aproximação entre esses dois autores, Nietzsche e Dostoiévski, tendo como pano de fundo a aludida palestra e um delicioso texto chamado “Notas de inverno sobre impressões de verão” (Editora 34, tradução de Boris Schnaiderman). Há diversas indicações de que o filósofo alemão apreciava a literatura do nosso romancista de Moscou. Entre tantas outras coisas, há uma referência expressa, contida em “Crepúsculo dos Ídolos”, na qual Nietzsche afirma ter sido Dostoiévski o único psicólogo do qual tivera algo a aprender (Companhia das Letras, 2006, p. 95). Dizia o professor de Sils-Maria, nessa passagem, que em nossa sociedade dócil, castrada, um ser natural necessariamente degenera em criminoso, algo que o romancista russo teria percebido quando, em “Casa dos Mortos”, descreveu os tipos humanos com quem convivera durante a prisão, na Sibéria. Justamente, parece ser esse um tema nodal da fala do professor Giacóia, ao identificar no humanismo moderno uma tecnologia política construtora de subjetividades dualistas, dóceis, disciplinadas, desnaturalizadas, em cuja base está presente uma cisão entre razão e sentidos, entre vontade e desejo, e em cujo altar é adorada a figura do “homem universal”, que Dostoiévski designou como “homúnculo”.

Nesse interessantíssimo diário de impressões, chamado “Notas de inverno sobre impressões de verão”, feito depois de uma demorada estada do autor moscovita em solo europeu, notamos uma percepção crítica bastante semelhante a de Nietzsche. Aliás, o tom de sarcasmo de Dostoiévski, nessa obra, ganha arremates especialmente pontiagudos quando trata da ideia de progresso e das “criaturas de estufa” (p. 94), que se alegram em alimentá-la. Não é diferente quando se debruça sobre a imaculada vocação civilizatória do homem ocidental, que despreza e renega o solo, a nacionalidade, o povo. A verve do romancista russo, no curso de “Notas de inverno sobre impressões de verão”, se debatia com uma questão imediata, qual seja a depreciação de tudo quanto fosse autenticamente russo como algo bárbaro, impudico, selvagem. Dostoiévski parece polemizar com a mais candente missão expiatória existente então (ou será ainda) sobre a terra: a veneração incondicional da “civilization européenne” (p. 99), nutrida no seio de parte significativa da elite russa, tema com o qual, aliás, o autor moscovita esteve ocupado durante todo o curso da sua obra. Dostoiévski teve prazer em caricaturar esse tipo russo, venerador de altares, como fizemos menção ainda há pouco. Em um capítulo, intitulado “E inteiramente supérfluo”, a figura do turista é homenageada como a dessa “gente que busca na Europa um cantinho aprazível”. Em outro, “Ensaio sobre o burguês”, destila observações sobre a quintessência da modernidade: “la bourgeoisie”, como um tipo que se encolhe, como alguém que anseia por comerciar um pouco na “lojinha” – como também amanhã e depois –, “se Deus quiser”, pois o mais importante, afinal, é “a tranquilidade política e o direito de juntar dinheiro a fim de arrumar do modo mais sossegado o seu cantinho” (p. 159).

O professor Giacóia, a propósito de Nietzsche, abre sua fala lembrando as profecias de Zaratustra e traz uma referência que julgamos muitíssimo próxima dessa última, de Dostoiévski. Nietzsche identifica no ideal do homem moderno uma busca pelo torpor, pelo narcótico, pelo conforto, pelo não-ser, algo como uma arquitetura para casas pequenas, em cujo ambiente o homem deve permanecer curvo, apequenado, mortificado. É possível, no entanto, que eu me engane inteiramente, ainda mais porque parece que me estendo aqui, já em excesso. O convite, para encerrar, parece ser um pouco esse: para uma arquitetura que respeite o espaço, que o amplifique e, junto com ele, que ascenda também o nosso homem, rumo a um lugar mais parecido com a casa de Dionísio, onde o céu também se compraz quando encontra o solo.

Tiago Cardoso é frequentador da Palavraria, graduado em direito e mestre em filosofia pela UNISINOS.

A partir desta data Tiago passa a publicar neste blog na primeira terça-feira do mês.


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