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A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: Querendo voltar pra casa

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Querendo voltar pra casa, por Jaime Medeiros Júnior

Ele não gostava da escola. E aquele dia em especial não lhe fora nada agradável. Há tempo esperava pelo pai. Tumulto grande por dentro. Borrasca de aborrecimentos. E o transcorrer sempre espichado do tempo de criança parecia ainda mais espichado.

A mão foi ao bolso. Tinha uns trocados que davam a passagem. Ele só queria voltar pra casa. Por fim o impulso vence. Desceu do colégio até a avenidona que era caminho de casa, mui íngreme, feito da subida de onze ou doze quadras, inimaginavelmente extensas, para aquele par de pernas – que, de vida, tinha sete anos – pôr em passos.

Na avenida, depois de atravessar até o outro lado, se põe em direção à parada. Os corredores ainda não corriam a cidade. O ônibus [para todos] estava na parada. Um pouco antes, poucos, não muitos passos antes da parada o coletivo começa a se desprender do lugar.

Ele despensadamente corre e salta [num momento de pleno e natural arrivismo] e toma o primeiro degrau da porta de trás, por onde, naqueles dias, se embarcava em um ônibus. Ele, ainda se equilibrando naquele outro movimento do grande continente que o acolhia, se comprazia com a consecução daquele lance. O salto viera num esforço sem cálculos, e numa confiança absoluta no se por em movimento. Futuramente o Watts de O Budismo Zen ainda haveria de lhe ensinar: as artes zen procuram atingir um tipo de ação sem esforço, sem intenção. A qual o mesmo Watts acha de comparar àqueles momentos em que um atleta faz um lance, uma jogada perfeita. O que faz não é fruto de cálculo, mas sim do fazer. O atleta é a jogada.

Voltemos ao nosso pequenino. Ele está ali na parte de trás do ônibus. E já pode tomar assento entre as gentes, mas está afoito, quer cruzar logo a roleta e tomar assento ali na frente, o que certamente lhe facilitaria a descida. Entrega os trocados para o cobrador. E num segundo tudo muda.

O tempo aqui ainda era o anterior a unificação das tarifas. E, por descuido, tomara o ônibus errado e a passagem já não cabia naqueles poucos trocados que trazia. O Estatuto da Criança e do Adolescente [ECA] inda não vigia, portanto inda não era um pequeno cidadão, e sim, somente um moleque que ousava tomar um para todos e não podia pagar. O que lhe resta senão descer pela porta dos fundos, um tanto envergonhado? Desce. E ainda terá de percorrer mais da metade do caminho. E sabe-se lá porque ele resolve fazer todo o restante a pé.

Ele chega em casa. E depois de todo um necessário contorcionismo nas justificativas do injustificável, pois o pai fora à escola. E houve corações intranquilos. Mas com sorte e com o tempo a passar tudo teima em se resolver. O dia busca o fim. E ele, tomado novamente daquele arrivismo natural, dorme – aqui imaginando-se que o caminho dos sonhos também possa ser uma íngreme subidona.

Anos mais tarde, quando acorda, já sem pai ou mãe a quem se justificar, mas tendo de confirmar tintim por tintim se o ônibus que tomara desta vez ele podia pagar com os seus poucos trocados, toma outros para todos [o dicionário Houaiss eletrônico, 0 dicionário Webster inglês-português e o petit Robert]. Logo aprende, arrivista é um galicismo que se origina no verbo arriver, que comporta muitos sentidos, dentre eles o que primeiro se apresenta é o de chegar, o que se confirma com arrive em inglês. Mas, por fim, todos os veículos que tomamos nos mostram que isto parece advir de uma imagem, qual seja, estamos chegando ao fim de nossa travessia, que termina na outra margem do rio, porém não uma margem qualquer, e sim, a quem olha do rio, uma pequena elevação, uma ribanceira [do latim ripa], ou uma pequena descida para quem está a margem [Há de bastar consultares o étimo rib- no Houaiss eletrônico para constatares os inúmeros vocábulos que ele origina]. Dito isto, talvez pudéssemos depreender como um primeiro sentido de arrivista – liberto de todo o conteúdo negativo a ele arrojado pelo uso das gentes no decorrer do tempo – aquele que quer subir a margem do rio e se pôr em lugar seguro, longe do furor das águas.


Jaime Medeiros Jr
. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Mantém os blogs Tênues Considerações e O Arco da Lira.

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr. aparece neste blog quinzenalmente às quartas-feiras.

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2 Responses to “A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: Querendo voltar pra casa”


  1. 1 RONEI
    14 de julho de 2011 às 22:12

    FICO FELIZ QUANDO VEJO Q EXISTEM PESSOAS COMO VC. NO MUNDO OU POR AI COMO VC. MESMO DIRIA;
    UM GRANDE ABRAÇO
    ME MANTENHA INFORMADO AQUI FORA A OCIOSIDADE TOMA CONTA DA GENTE QUANDO NÃO É O TRABALHO EM DEMASIA
    EU SOU PREGUIÇOSO MESMO
    MAS NÃO DESISTA DE MIM TENHO SALVAÇÃO
    INTÉ MAIS….

  2. 2 Silvia
    14 de julho de 2011 às 09:39

    Essa definição de “arrivista” consola a mente… É sempre muito bom ler o que vcê escreve. Silvia.


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