Arquivo para 2 de agosto de 2011

02
ago
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A crônica de Tiago Cardoso

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O Idiota, de Dostoievski, e o Anticristo nietzscheano: uma aproximação, por Tiago Cardoso

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Foto Tiago Cardoso


A exemplo do que propusemos em nosso último texto, tentaremos traçar, novamente, um breve paralelo entre Dostoievski e Nietzsche. Agora, no entanto, o ponto de inflexão será outro: a figura do príncipe Míchkin, personagem principal e herói do romance “O idiota”, de Dostoievski, e a visão oferecida por Nietzsche para a caracterização de Jesus Cristo na obra “O Anticristo”. Nesse livro, a figura bíblica de Jesus Cristo é definida como a de um “idiota” (NIETZSCHE, 2007, p. 36). Ao que tudo indica, essa caracterização tem íntimo parentesco com o título da mencionada obra de Dostoievski e com a conformação de seu herói.

Com o auxílio das correspondências de Dostoiévski, encontramos o testemunho do autor moscovita a respeito daquilo que pretendia desenhar em “O idiota”, a partir da personagem central do romance, publicado em 1868. Na missiva do dia 1º de janeiro daquele ano, dirigida à sobrinha Sofia Aleksandrova, o autor confidencia que a proposta básica do livro é a de representar “um homem verdadeiramente perfeito e nobre”, um exemplar difícil de encontrar, “particularmente em nossos dias”. Acrescenta o romancista que há no “mundo apenas uma figura de absoluta beleza: Cristo” (DOSTOIÉVSKI, 2011, p. 138). Em “O Anticristo”, cuja redação fora finalizada em 1888, não obstante tenha sido publicado somente em 1895, Nietzsche se ocupa justamente com o “tipo de homem” que devemos procurar cultivar, querer (NIETZSCHE, 2007, p. 11). Logo adiante, declara o filósofo alemão: “O que me importa é o tipo psicológico do Redentor” (NIETZSCHE, 2007, p. 35). Interpretar a figura de Jesus é, portanto, uma das questões fundamentais de “O Anticristo”. Até aqui, percebemos uma interessante identidade na base de análise dos dois autores, materializada na figura paradigmática de Jesus Cristo. Além disso, a proposta contida em ambos os livros pretende desenhar uma imagem ideal, rumo a qual o desenvolvimento da subjetividade humana deve estar direcionado, como forma de alcançar sua plenitude.

O outro tema fundamental de “O anticristo”, de Nietzsche, é o da inversão de valores promovida por aqueles que deram voz ao cristianismo após a crucificação de Jesus, cujo símbolo maior encontra reflexo no evangelho do apóstolo Paulo. A essência da tese do filósofo alemão – poderíamos afirmar com boa chance de acerto – tem reflexo nítido, para não dizer idêntico, em uma firme convicção do romancista russo relacionada ao papel do catolicismo perante a verdadeira fé cristã, exposta pela voz do príncipe Míchkin: o “Catolicismo é o mesmo que uma fé não cristã” (DOSTOIÉVSKI, 2008, p. 605), algo ainda pior que o ateísmo, porque o Catolicismo vai além da pregação ateísta do nada quando apresenta “um Cristo deformado, que ele mesmo [o Catolicismo] denegriu e profanou, um Cristo oposto! Ele [o Catolicismo] prega o anticristo” (DOSTOIÉVSKI, 2008, p. 606). A semelhança das teses é gritante, inclusive com a utilização do termo “anticristo” por Dostoiévski para designar o que a mensagem católica verdadeiramente representaria. Muito embora a profanação da figura de Jesus não esteja expressa com tanta clareza por Dostoievski, está simbolizada, conforme a visão de Nietzsche, pela interpretação equivocada que foi dada ao episódio da morte de Cristo, pois o elemento fundamental nessa inversão foi a sede de vingança, o ódio, a necessidade de retaliação, experimentada pelos sucessores de Jesus, especialmente na figura do apóstolo Paulo. Nisso consiste exatamente o ressentimento, tematizado por Nietzsche, que promove a mais insidiosa subversão da prática de Jesus para criar uma imagem em que o Reino de Deus vem para julgar pela espada, pela violência, os seus inimigos. Em contrapartida, durante a sua vida, Jesus havia trazido, segundo a perspectiva nietzscheana, tão-somente uma mensagem de felicidade e alegria, inscrita em uma prática – característica fundamental de toda a sua pregação –, em que essa vida (a vida terrena) é valorizada e não algo além dela. O “Reino de Deus”, na mensagem de Jesus não estava assentado, desta maneira, em algo posterior e acima dessa vida – como mais tarde a pregação dos apóstolos cristãos e a Igreja sustentarão – mas, justamente, no contrário: o Reino de Deus está nessa vida e na sua fruição plena pelo homem. Da mesma forma, o autor russo parece dirigir seu argumento, pelas considerações do príncipe Míchkin, quando afirma que o Catolicismo é uma continuação do Império Romano, pois o “Papa apoderou-se da Terra, do trono terrestre e pegou a espada”, admitiu a violência (DOSTOIÉVSKI, 2008, p. 606/607).

A figura do idiota conclui nossa análise, pois evidencia a discrepância entre a vida prática de Cristo e a doutrina contida nos evangelhos do Novo Testamento. Como nos auxilia Paulo César de Souza, ao redigir o posfácio de “O anticristo” (NIETZSCHE, 2007, p. 157), Jesus foi, segundo a interpretação nietzscheana, “um ‘idiota’ no sentido grego da palavra: não considerou realidades externas, apenas interiores; viu o reino de Deus como um ‘estado do coração’, não como algo transcendente e além-túmulo. As noções de culpa, castigo e recompensa lhe seriam estranhas, invenções da comunidade cristã inicial, liderada por Paulo”. Por uma análise tal é que Nietzsche pode ser apontado – pasmem! – como contribuinte para uma renovação na interpretação – em um sentido mais puro – dos ensinamentos e da vida de Jesus, como afirma Emílio Brito (2004, p. 329), ou seja, para uma leitura mais nítida do próprio cristianismo, muito embora não tenha concebido “O anticristo” com essa intenção. Do lado do romancista russo, a personagem Aglaia, em “O idiota”, confirma, ou melhor, antecipa, no caso, a elaboração nietzscheana, ao caracterizar a figura do príncipe Míchkin como a de um “cavaleiro pobre” – correspondência expressa à figura de Dom Quixote –, ou seja, como alguém que escolhe e acredita em uma beleza pura, em um ideal, e depois dedica toda a vida à consecução dessa imagem (DOSTOIÉVSKI, 2008, p. 285/286). O príncipe, não por acaso, causava sentimento de horror e piedade em seus interlocutores, com grande freqüência, haja vista a independência com que se colocava perante as expectativas sociais que o circundavam, ratificando a impressão de Nietzsche a respeito da figura de Jesus, como daquele que “não resiste, não defende seu direito” (NIETZSCHE, 2007, p. 42), daquele que sofre, ama com aqueles e naqueles que lhe fazem mal, como faz, durante todo o curso da narrativa, o herói de “O idiota”.

BIBLIOGRAFIA:

BRITO, E. 2004. Les motifs de la critique nietzschéenne du christianisme. In Ephemerides Theologicae Louvanienses. Louvain Journal of Theology and Cânon Law, n.80, v.4, p.275/338.

DOSTOIÉVSKI, Fiódor. 2008. O idiota. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: Ed. 34.

DOSTOIÉVSKI, Fiódor. 2011. Dostoievski: correspondências 1838-1880. Tradução de Rubem Frizero. Porto Alegre: 8Inverso.

NIETZSCHE, Friedrich. 2007. O anticristo. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras.


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Tiago Cardoso é frequentador da Palavraria, graduado em direito e mestre em filosofia pela UNISINOS.

Tiago publica neste blog na primeira terça-feira do mês.


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