Arquivo para 3 de agosto de 2011

03
ago
11

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.:

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Um pouco de terapêutica, por Jaime Medeiros Júnior

Ao falarmos que um determinado medicamento é eficaz, queremos dizer que ele alcança o efeito desejado – trata o paciente. De outra parte, ao tratarmos da efetividade de uma medicação estamos a dizer que ele tem um bom desempenho no jogo perde-ganha, risco-benefício. Ou seja, aqui nos interessa é que a economia do nosso remédio comporte: acesso fácil e barato, modo de usar simples e prático [exemplificando, quanto mais vezes tivermos de usar durante o dia uma mesma medicação, menos efetiva ela será], quanto maior o risco de um efeito indesejado [adverso, efeito colateral] menor a efetividade.

Pensássemos agora a literatura e entendêssemos as peças literárias como medicamentos e teríamos de nos dispor a imaginar que a literatura também se propõe a alcançar um determinado efeito. E, portanto, poderíamos nos acercar novamente da parelha eficácia-efetividade distribuindo as peças literárias na seguinte tabela:

 

Maior eficácia

Menor eficácia

Maior efetividade Maior eficácia com maior efetividade Menor eficácia com maior efetividade
Menor efetividade Maior eficácia com menor efetividade Menor eficácia com menor efetividade

Imaginando que alguém nos lembre que a quem faz literatura cabe nada esperar do que faz, que a literatura deve compreender a sua vocação para o nada, que um poema ou um conto assim como um beijo nada mais querem do que ser um poema, um conto ou um beijo [apesar da discordância bíblica de Judas no Getsêmani]. Poderíamos lembrá-lo que tampouco qualquer substância das que nos acarretam algum efeito, a que venhamos denominar remédio, quer ser algo mais do que um sal, mas que por conta de encontrar quem dela se sirva, a assimile, é que acaba por vir a provocar um efeito qualquer.

Deveríamos portanto pensar que há consequências que advêm do fato de escrevermos – lembremos todos que, segundo parece, após terem lido Os sofrimentos do jovem Werther terminaram por se suicidar. Contudo, o que não fica bem claro é qual efeito podemos esperar destes signos que teimamos, há séculos, em pôr sobre os mais diversos suportes. Pois quando falamos de medicamentos, estamos na esfera do útil e temos instrumentos para mensurar o efeito obtido, aqui estamos na esfera subtil – não do inútil – e os efeitos são pouco mensuráveis, pouco quantificáveis, e extremamente variáveis, mas nem por isso inexistentes.

Tendo estabelecido que temos efeitos no âmbito da literatura, poderíamos admitir então, que a nossa parelha eficácia-efetividade tem, também aqui, algo a nos dizer. Luiz Brás nos fala de uma literatura acadêmica e de uma literatura de gênero. Que correm mais ou menos paralelamente em seus próprios nichos. Tanto a oposição a que ele se refere, quanto a tabela que propusemos acima, não se querem mais que esquemas didáticos.

O que ele nos propõe como literatura acadêmica, é o que outros vêm a chamar de literatura de invenção, que se quer inaugural, e que propõe rompimentos. Luiz Brás entende que no mais das vezes esta literatura obtém reconhecimento da crítica, e muito pouco do público leitor. A literatura de gênero assim se chama porque transita por um dos diferentes universos [policial, ficção científica, etc.] onde hão de se desenvolver as histórias deste nicho, no mais das vezes não se quer inaugural, não propõe rompimentos. Aqui segundo Luís Brás é mais comum que se tenha reconhecimento público, e bem provavelmente pouco ou nenhum reconhecimento da crítica.

Agora voltando os olhos sobre a nossa tabelinha, imaginando que temos nas altas literaturas justamente os representantes possíveis de uma alta eficácia com baixa efetividade, pelo menos no momento em que as obras vêm à luz – efetividade que no decorrer dos anos pode aumentar com o processo de pop-ização de alguns autores – bem como parece ter acontecido com Kafka [que produziu até mesmo o adjetivo kafkiano de amplo uso], Borges ou Calvino, que enchem as estantes de nossas livrarias. Processo, que no entanto, foi impossível de ocorrer com autores como Joyce, ou mesmo Proust que fazem ao leitor exigências maiores e mais intrínsecas a obra que nos ofertam.

Noutro quadrante de nossa tabelinha havemos de encontrar livros do tipo placebo, com baixa eficácia e muita efetividade. Se você toma um biotônico, ou um composto de ervas amargas para melhorar dos males do fígado você está tomando um não remédio para tratar uma indisposição, você está usando um placebo, que é uma substância com quase nenhuma eficácia, mas no mais das vezes com grande efetividade. Aqui a muito baixa eficácia da substância acaba por se beneficiar muito do aspecto cultural que vem embutido em sua efetividade, que leva o paciente a crer numa eficácia quase totalmente inexistente. Algo de semelhante parece ocorrer com grande parte dos livros que acabamos por classificar em autoajuda, por exemplo.

No quadrante de baixa eficácia e baixa efetividade temos todos os possíveis textos que a crítica do autor não permitiu que viesse a público. Que queimou, que desistiu de acabar, que não achou o fio condutor. É a virtualidade das obras que não vieram a lume.

Mas o último quadrante, o de alta eficácia com alta efetividade parece ser onde poderíamos encontrar as obras mais interessantes, pois seriam aquelas que conseguiriam mostrar características dos dois nichos literários propostos por Brás. Pois na concepção de Brás a literatura de Gênero parece ter mais efetividade, enquanto a acadêmica menor efetividade com alta eficácia. Como vimos algumas daquelas obras de alta eficácia e baixa efetividade parecem aumentar a efetividade com o decorrer do tempo [de modo semelhante ao que aconteceu historicamente com as vacinas, que nos primórdios de seu uso no Brasil produziram até mesmo uma revolta]. Mas, quando em vez, vemos obras que conseguem ser desde o seu nascedouro tanto eficazes quanto efetivas, quem sabe pudéssemos colocar aqui O nome da Rosa, onde pode se acompanhar uma narrativa estilo policial, feita por um frade franciscano, e ver a discussão de problemas de filosofia medieval [o que certamente poderia diminuir a efetividade do texto, sem falar das longas interpolações de texto em latim e das imensas descrições das naves].

Falando agora sobre a efetividade de uma peça de literatura deveríamos considerar que duas espécies de fatores. Os intrínsecos ao texto: quanto ele exige do leitor [concentração, prévios conhecimentos de outras obras, o discurso é realista ou está querendo se referir de modo não explícito a outra ordem diferente de realidade, quer infringir normas da língua]. Os extrínsecos são todos aqueles da indústria cultural [editor, distribuidor, preço ao consumidor, visibilidade].

Quanto a eficácia acho que temos de ponderar algumas coisas. Estamos aqui no plano do subtil e não do útil, portanto:

1-      aqui o efeito que se espera pode, teoricamente, não ser desejado pelo autor, muitos autores entendem que nada esperam do que escrevem. Contudo parece ser intrínseco ao ato de tornar disponível a obra, que se não o autor, pelo menos o editor há de esperar que algo se suceda, algum efeito cause, algum interesse desperte para que se compre ou se venda livros.

2-     o autor que pode até pressupor um domínio completo da obra, contudo, com a maturidade, começa a perceber que não tem domínio algum sobre o efeito que há de se suceder no leitor. Portanto muito do não querer causar efeito sobre o leitor, vem da sua percepção do quão pouco é capaz de controlar este efeito [as uvas estão verdes].

3-     a escala de tempo aqui é bem maior do que aquela do tratamento dispensado a um paciente com uma afecção patológica, dá-se o remédio e logo se reavalia o paciente. Aqui escreve-se, e o leitor lê uma, duas ou três vezes o texto, tanto mais quanto mais a obra tenha conseguido ser eficaz, portanto aqui se mede o efeito em anos ou em vidas.

4-     certamente aqui estamos procurando nos fazer significativos, o leitor quer encontrar no texto um parceiro e talvez aqui esteja um dos aspectos mais terapêuticos de uma obra literária. O fazer crer a alguém que ele não está só no mundo, que está dialogando, que consegue entender as deixas, que percebe as intenções de quem fez a obra.

5-     agora mesmo que sem perceber, há de dar o próximo passo, que é o de sentir que está criando junto com o autor toda a história, ele cria, ele constrói as referências, ele faz a busca nos seus pertences para compor todo o quadro. Ele é o criador. E, por fim, a exclamação: poxa eu podia ter escrito isto!

Dito isto, que parece importar agora não promover maiores delongas por aqui, o autor parece poder intuir, mas não parece ser possível dominar a pleno as respostas, o destino que tomará sua obra na interface com o leitor. O que certamente ele tem como promover, são as escolhas que facilitem ou ponham mais ruído à mensagem, uma política de nublamento ou clareamento da paisagem. Mas não são somente estas escolhas do autor, mas também a capacidade do leitor de compreendê-las, e o campo de efetividade em que está imerso o terno autor-obra-leitor que por fim hão de determinar que destino há de tomar esta obra.

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Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Colabora no blog Filhos de Orfeu e mantém o blog de crônicas Tênues Considerações.

A prosa ligeira de de Jaime Medeiros Jr. aparece neste blog quinzenalmente às quartas-feiras.

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