Arquivo para 30 de agosto de 2011

30
ago
11

Um pouco mais do mesmo, a crônica de Roberto Medina

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Bauman e o soco no hoje, por Roberto Medina

 

“Para que a utopia renasça, é preciso a confiança no potencial humano à altura da tarefa de reformar o mundo”


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Viver o hoje é tentar entendê-lo de forma voraz. Preciso ter o mapeamento de onde estou ou penso estar – tarefa hercúlea para moscas tontas que nem sabem se asas possuem ou se o tempo passa indiferente a tudo e a todos. Vamos todos para onde?

Rejeitando o termo de “pós-modernidade”, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman adere ao de “modernidade líquida” para ler o presente. Algo que ele faz com monstruosa mestria. Disseca-nos com a precisão de bisturi.

Por meio de uma entrevista à revista Cult, podemos atingir alguns dos seus princípios de pensamento: “Bauman define modernidade líquida como um momento em que a sociabilidade humana experimenta uma transformação que pode ser sintetizada nos seguintes processos: a metamorfose do cidadão, sujeito de direitos, em indivíduo em busca de afirmação no espaço social; a passagem de estruturas de solidariedade coletiva para as de disputa e competição; o enfraquecimento dos sistemas de proteção estatal às intempéries da vida, gerando um permanente ambiente de incerteza; a colocação da responsabilidade por eventuais fracassos no plano individual; o fim da perspectiva do planejamento a longo prazo; e o divórcio e a iminente apartação total entre poder e política.”

Neste momento, concomitante, me defronto com mais dois textos do sociólogo: “Identidade” e “Vida Líquida”. Ambos me chocam pela lucidez.

Com amigos e amigas, discutia sobre partes  dos textos e, então, rumamos para a vida de forma a pensar o que estávamos pensando: a fragilidade humana e a solidão. Trazendo para o real: o medo que temos de ser descartáveis, a ilusão de ser úteis e insubstituíveis…

Anseios tolos para respostas pré-prontas. Basta deixar no microondas dois minutos e servir com fel.

O maior exemplo de querermos estar em contato com o mundo – doce “véu de Maya”… Mostrarmo-nos dinâmicos, bons de cama, sexies, intelectuais, artistas, um sucesso financeiro, bons pais e mães, a excelência da excelência, o comentário dos comentários, o espelho das virtudes, o voto de Minerva, o atleta mundial, o bom amante, o “bon vivant”…

Quem dá conta disso tudo?

Ó deuses de madeira ou de ouro, cadê a “joie de vivre”? Cadê o “me-deixa-ser-burro”?

Por favor, alguém tem um plano seguro, com dados estatísticos e gráficos garantidos, sobre o próximo segundo de vida?

Tantas aspirações para no depois passarmos ao grande lixão onde seremos depositados sem a menor cautela ao nos jogar – se houver mais uma fratura nos nossos ossos já tão fraturados, não haverá importância! Pois o consumo gritante não nos avaliou mais como objetos de desejo: eu não sou tão importante como gostaria.

Exemplo? As correrias para ser pessoa pública, nunca para ser “indivíduo” – ser diferente – tenho de gritar o grito dos outros. Mas onde se perdeu a minha voz?

Eu não me lembro dos meus risos. Lembro o choro. Ele, tão perto dos meus ouvidos. Tão motivador dos soluços. Tão forjador das minhas ansiedades.

Acho que andam brincando comigo!

Será que eu existo?

Não estaria eu no depósito de lixo aí perto de ti, abaixo e acima de tantos outros como eu?

Perdão, tu não tens tempo e desejo para ir averiguar algo que não te interessa!

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Roberto Medina leciona português, inglês e francês em escolas, cursos preparatórios para concursos nacionais e internacionais. Foi professor de projetos literários na UDC –Faculdade Dinâmica Cataratas –, em Foz do Iguaçu. É editor e consultor de textos para editoras e autores independentes e ministra oficinas, cursos e palestras sobre temas literários e culturais em universidades e outras instituições no Rio Grande e no Paraná. Tem contos publicados na antologia 101 que contam e Brevíssimos (org. de Charles Kiefer), e lançou recentemente  o livro de poemas Pedrarias. É autor dos textos dramáticos Você precisa saber (peça teatral escrita para a Cia. Amadeus), Silêncio (peça teatral para o Teatro da Adega, SP), Até que (monólogo para a atriz Cláudia Ribeiro) e  Fernando Palavra (para a Cia G3).

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30
ago
11

Vai rolar na Palavraria, nesta quarta, 31: lançamento do livro “trabalho e utopia na modernidade”

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31, quarta, 18h: Lançamento do livro Trabalho e utopia na modernidade, de Suzana Albornoz (Editora Movimento).

Na era da indústria, a vida, a ciência e a moral giraram em torno do trabalho. Ao mesmo tempo, foi constante a utopia de uma sociedade que pudesse viver mais do que trabalho. O desenvolvimento da técnica nos tempos modernos, embora feito com sofrimento e exploração, acompanhou-se de rica elaboração de projetos de um mundo melhor, mais organizado, mais feliz, e ao desenvolver-se o maquinismo e a automação, de fato cresceu a possibilidade de dispensar o esforço físico, de tal modo que hoje, com o nível tecnológico alcançado pela humanidade, a jornada de trabalho de seis horas situa-se na vizinhança do real.

No entanto, continua irrealizado o sonho do trabalho prazeroso, como o do artista apaixonado por sua arte; e continua vivo o sonho com aquela realidade onde o esforço pela sobrevivência se conserve dentro de limite digno, quando os homens encontram mais tempo para o repouso, a reflexão, o movimento, o lazer, a criação, o pensamento, a convivência, a descoberta, a liberdade, enfim, tudo o que é humano e transcende a produção material.

Sendo assim, importa não esquecer as sugestões contidas nas obras dos escritores de utopias, tão presentes nos tempos modernos.

Em direção dos sonhos de reforma social, a viagem deste livro começa pela Utopia de Thomas More, na Inglaterra do século XVI; passa pela Cidade do Sol de Tommaso Campanella, na Itália do século XVII; continua pela visita às sugestões encontradas nas Considerações sobre o governo da Polônia, de Jean-Jacques Rousseau, na Europa iluminista do século XVIII; detém-se, a seguir, em O novo mundo industrial e societário de Charles Fourier, e vai terminar com o manifesto O direito à preguiça, de Paul Lafargue – esses dois últimos, na França do século XIX. Escolhidos entre os clássicos das utopias modernas, More, Campanella, Rousseau, Fourier, Lafargue, cada um em seu contexto e com suas características especiais – estes, mais políticos, aqueles, mais filosóficos, todos alvos de controvérsia –, esses cinco autores são alguns poucos nomes escolhidos como exemplos, mas são autores exemplares, entre os melhores sonhadores de novas realidades. Espera-se que a leitura de suas páginas polêmicas reavive a capacidade de imaginação, necessária para a inovação e o aperfeiçoamento das sociedades concretas.

 

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