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Fragmentos da eternidade, por Leila D. S. Teixeira

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Odisséia: a trajetória de Odisseu, por Leila D. S. Teixeira

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Se pesquisarmos o significado da palavra Odisséia, encontraremos muitas definições.

Na Wikipédia, encontramos que a Odisséia, em grego, Οδύσσεια, é um dos dois principais  poemas épicos da Grécia Antiga, atribuídos a Homero. Segundo a enciclopédia eletrônica, seria uma seqüência da Ilíada, e um poema fundamental ao cânone ocidental moderno. Historicamente, consistiria na segunda – a primeira sendo a própria Ilíada – obra existente da literatura ocidental, e teria sido escrita no fim do século VIII a.C., em algum lugar da Jônia, região da costa da Ásia Menor então controlada pelos gregos, e, atualmente, parte da Turquia.

No Novo Dicionário Aurélio de Língua Portuguesa, obtemos as definições a seguir expostas:

1. Poema do grego Homero (v. homérico), cujo assunto são as aventuras de Ulisses ao retornar à pátria, após a tomada de Tróia.

2. Fig. Viagem cheia de peripécias e aventuras.

3. Fig. Narração de aventuras extraordinárias.

4. Fig. Série de complicações, peripécias ou ocorrências singulares, variadas e inesperadas:
“uma odisséia romanesca de aventuras e de reveses” (Latino Coelho, Cervantes, p. 45); “contou-me toda a sua trabalhosa odisséia de prisões e de degredos” (Eça de Queirós, Prosas Bárbaras, p. 34)[1].

Tanto em uma, quanto em outra fonte, podemos observar o aspecto canônico da Odisséia. A trama da narrativa, surpreendentemente moderna na sua não-linearidade, apresenta a originalidade de só conservar elementos concretos, diretos, que se encadeiam no poema sem análises nem comentários. A influência homérica é clara em obras como Os Lusíadas ou o Ulysses, de James Joyce, mas não se limita aos clássicos. As aventuras de Ulisses, a superação desesperada dos perigos, nas ameaças que lhe surgem na luta pela sobrevivência, são a matriz de grande parte das narrativas modernas, desde a literatura ao cinema. Em português, bem como em diversos outros idiomas, a palavra “odisséia” passou a referir qualquer viagem longa.

Entretanto, nenhuma das definições acima fala, expressamente, o que entendemos o mais importante sobre a palavra. Odisséia significa a trajetória de Odisseu. É a história do “multifacetado, que muitos males padeceu, depois de arrasar Tróia, cidadela sacra. Viu cidades e conheceu costumes de muitos mortais. No mar, inúmeras dores ferilham-lhe o coração, empenhado em salvar a vida e garantir o regresso dos companheiros[2]”.

Como aparece na tradução de Donaldo Schüler, Odisseu é uma figura multifacetada. Para vencer as dificuldades que se apresentam no caminho para casa, usa da inteligência, da destreza, da coragem e da força. Sem o amparo de ninguém, Odisseu inventa soluções para todas as dificuldades. “Os deuses, que decretam o seu regresso à pátria, ofereceram recursos imprecisos para realizá-lo. Odisseu é vitorioso por ser quem é”[3].

Ao lado das características heróicas de Odisseu, de forma inovadora, o poeta apresenta aspectos inerentes a todos os seres humanos. À medida que a narrativa introduz novas aventuras, as reações de Odisseu aos obstáculos vão revelando as muitas faces do protagonista. Ganancioso, orgulhoso, prudente, perpsicaz, curioso, desbravador, inteligente, vaidoso, generoso, insensato, apaixonado, estrategista, sensível, esposo, amante, pai e filho. Ontem, hoje e sempre, Odisseu é “tantos que chega a se confundir com o homem enquanto espécie” [4].

Certamente ele arrasta seu público a um mítico mundo de sonho, mas esse mundo de sonho se torna simultaneamente a imagem espetacular do mundo real em que vivemos, no qual dominam necessidades e angústias, terror e dores, e no qual o homem se acha imerso sem escapatória. [5]

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[1] FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. “Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa”. 3ª ed. Curitiba: Positivo, 2004. p. 1427.

[2] HOMERO. “Odisséia I – Telemaquia”. Tradução: Donaldo Schüler. 1ª ed. Porto Alegre: L&PM, 2010. p. 13. versos 01 a 05.

[3]  SCHÜLER, Donaldo. “ODISSÉIA: a epopéia das Auroras”. In: HOMERO. “Odisséia III – Ítaca”. 1 ed. Porto Alegre: L&PM, 2010. p. 9.

[4] SCHÜLER, Donaldo. “ODISSÉIA: a epopéia das Auroras”. In: HOMERO. “Odisséia I – Telemaquia”. 1 ed. Porto Alegre: L&PM, 2010. p. 140.

[5] CALVINO, Ítalo. “Por que ler os clássicos”. Tradução: Nilson Moulin. 2ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. pp. 22 a 24.

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Leila D S Teixeira, nascida em Passo Fundo/RS em 1979, formada em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, participou dos livros “Outras Mulheres”, em 2010 e “Inventário das Delicadezas”, em 2007; venceu os concursos Osman Lins e Mário Quintana/SINTRAJUFE em 2006 e frequenta as oficinas Charles Kiefer desde 2005. Junto com Cristina Moreira e Daniela Langer, idealizou a Vereda Literária, programa de debates onde se enfocam temas literários, realizado na Palavraria.

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Leila publica neste blog na primeira sexta-feira do mês.


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1 Response to “Fragmentos da eternidade, por Leila D. S. Teixeira”


  1. 1 Tiago Cardoso
    8 de setembro de 2011 às 16:31

    Excelente texto, Leila! Essa imagem do mundo mítico grego, em que a figura humana (mortal ou não) é inapreensível, está em constantemente deslocamento, me parece muito rica. Um quadro de variadas cores, em cuja composição o caminho e a aventura do viajante, participam – ao lado do indivíduo – também como autoras.


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