27
set
11

Um pouco mais do mesmo: a crônica de Roberto Medina

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Para ti, com afeto, por Roberto Medina

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Como nossas bocas jamais silenciam, e os ouvidos se dispersam em tantas coisas, preferi reunir em palavras o que não consigo dizer. Talvez seja um jeito de ser escutado, ou, para que, através da escrita, eu te diga melhor.

O mar em que naufragaram nossas vidas, nos últimos tempos, retirava o ar necessário para a existência do apaixonado amor que já acenava com um lenço negro. Vê-lo como realidade é duro; confesso que dói muito enxergar a felicidade agonizante, deixando amargor pulsante nas almas, desacomodando o bem-querer, a completude, os sorrisos.

Sabes que escrever é uma forma de entender. Entender o que o cérebro reúne e força a extração de significados – mesmo que sejam purulentos ou perfumados.

Agora percebo que antes de ter procurado minimamente teus defeitos, eu deveria ter escondido todos os meus, com fé santa. Ontem mesmo, sorri sozinho, pois recoloquei na estante, lado a lado, “A arte de amar” e “A arte da guerra”: a velha organização tão tua.

Às vezes penso que somos títeres ou fantasmas no sonho de alguém. Queríamos ter controle sobre tudo, mas não há. Brigas vazias, desentendimentos bobos: toalha molhada na cama, um segundo de atraso, recado não mencionado, chamada não atendida, beijo mal executado, os momentos solitários invadidos.

Tu sabes que eu descobria no teu corpo o rumo certo em que se empenharia o meu. Para depois, estranharmo-nos com nossa própria grandeza… Talvez fosse a pouca arte para amar.

É engraçado perceber que a morte possui mistérios e chega com autoridade nos corações. Falamos sobre o morto. Sim, agora atingiu a grande paz. É sabedor de tudo – assim o fosse. A morte traz consigo o saber que ignoramos em vida. Sentimos, por vaidade, o abandono acachapante… Vivemos tão próximos dos próprios umbigos. Esquecemos e maltratamos quem tão bem nos faz. Esquecemos a dança e o canto dos primeiros encontros.

Esquecemos o encanto.

Praticamos, então, o exercício da maldade. Enfim, revelamos a pequenez humana, como se um anjo negro se enroscasse no cotidiano, matando o que há de melhor.

Mas, neste momento, vislumbro que eras tu quem me dava a vontade da luta, da persistência. No teu silêncio, nós nos ligávamos.  Mesmo sem compreender, era isso que nos unia.

Que importância tem isso agora?

Deixo esta carta junto do teu corpo. Que vá contigo para o seio da terra, antes que os vermes cheguem.

P.S.: Eu ainda te amo tanto, tanto!

 

 

Roberto Medina leciona português, inglês e francês em escolas, cursos preparatórios para concursos nacionais e internacionais. Foi professor de projetos literários na UDC –Faculdade Dinâmica Cataratas –, em Foz do Iguaçu. É editor e consultor de textos para editoras e autores independentes e ministra oficinas, cursos e palestras sobre temas literários e culturais em universidades e outras instituições no Rio Grande e no Paraná. Tem contos publicados na antologia 101 que contam e Brevíssimos (org. de Charles Kiefer), e lançou recentemente  o livro de poemas Pedrarias. É autor dos textos dramáticos Você precisa saber (peça teatral escrita para a Cia. Amadeus), Silêncio (peça teatral para o Teatro da Adega, SP), Até que (monólogo para a atriz Cláudia Ribeiro) e  Fernando Palavra (para a Cia G3).

 

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1 Response to “Um pouco mais do mesmo: a crônica de Roberto Medina”


  1. 27 de setembro de 2011 às 19:29

    Achei poética sua cronica e fiquei feliz de encontrar algo que no primeiro olhar me chamou atenção.

    Quando o senhor escreve ; Sabe que escrever é uma forma de entender. Entender o que o cérebro reúne é força a………………………..

    Desejo-lhe sucêsso.


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