Arquivo para 25 de outubro de 2011

25
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A prosa ligeira de Jaime Medeiros Júnior: das primícias

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Das primícias [Ishvarapranidhana], por Jaime Medeiros Júnior

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Certa feita fui a um ermo, que por então inda me desconhecia. O tempo para lá chegar fora o mesmo, por certo, do que tomei quando doutras vezes me fiz neste caminho. Contudo o arrastado da atenção sobre as coisas e um pouco daquelas ânsias de não saber quando havia de chegar lá mais tempo de sofrer me deram até o destino. E algo neste sofrer está contente com as primícias deste vasto incerto por acontecer. Inocência ali havia a se enganar nos desvãos do suposto. O sinal por abrir fazia tudo fulgir, sem precipícios. Abre, me vou com o fluxo-não-tormenta daquela espera que nada sabe do que virá.

 
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Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Mantém os blogs Tênues Considerações e O Arco da Lira.

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr. aparece neste blog quinzenalmente às quartas-feiras.

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Recado de Lisboa, por Reginaldo Pujol Filho: Brasileiro gosta de chope, afirmam pesquisas

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Brasileiro gosta de chope, afirmam pesquisas – por Reginaldo Pujol Filho

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Livro é caro no Brasil.

Peraí, guenta um pouquinho. Se acha que esse lugar comum aí em cima é o indício de um texto todo ele lugar comum, de novo reclamando do preço do livro, de novo dizendo que assim não dá, segura só mais um pouquinho, deixa eu terminar esse primeiro raciocínio. Assim ó: Livro é caro no Brasil, vírgula, tô começando a achar que isso é um mito.

Olha, talvez dê pra dizer, vá lá, que livro custe muito em língua portuguesa. Sei lá eu porque haveria esse fenômeno, quem sabe porque a gente gaste mais tinta e papel pra dizer em português as mesmas coisas que se diz por menos em inglês? Teoria furada, e aqueles palavrões em alemão que vão colando um substantivo no outro? Isso sim deve gastar papel.

Tá, mas não vamos gastar palavras aqui. O negócio é o seguinte: tô aqui em Portugal e, já que livro é caro no Brasil, como dizia o outro, fui pras livrarias daqui. E, epa: os livros tão emparelhando no preço. Quando não custando mais caro. Por exemplo, A máquina de fazer espanhóis do Valter Hugo Mãe sai aqui 15,30 a 17 euros, o que dá de 39 a 45 pilas brasileiros. Quanto custa no Brasil? Eu pesquisei: 39 mangos. Em algumas livrarias, até 36. E, detalhe, aqui o A máquina vem numa edição padrão da Alfaguara; no Brasil, em uma edição com o padrão da Cosac Naify, todo tranchã e bonitoso, que tinha tudo pra ser mais cara. Tem mais: fui atrás de um livro qualquer do Lobo Antunes (como se ele tivesse livro qualquer), o Conhecimento do inferno. Em terras portugas, dezessete com noventa. Euros. Converte e desembolsa 45,70 reais. Mas se quiser comprar aí no Brasil, já dei uma pesquisadinha pra ti: leva por 41,90. Tá vendo? Não? Então pega O ensaio sobre a cegueira, do Saramago. Na Livraria do Manuel aqui em Lisboa vai de 13,60 a 16,90 euros (R$ 36 a 43). Na livraria do Alemão aí no Brasil, te digo: vai de R$36 a 46. Dei uma olhada ainda em exemplos aleatórios, como lançamentos de jovens poetas e prosadores em editoras independentes. Sai uns 10, 11 euros. Uns 25, 30 reais. Meu livro, só pra constar (sou jovem, tenho 31 anos, e publico pela Não Editora), sai R$ 28,00. Pra resumir: se compra livro por aqui, no geral, tirando sebo e promoção de pai pra filho, de 10 a 25 euros. Ou seja, de 25,50 até mais de 60 reais.

Quanto saiu o último livro comprado aí no Brasil?

Pois é, essa pesquisa de preço, essa minha estatística de boteco e seu resultado, isso é preocupante. Não, não é preocupante só pra mim que vim pra cá com a ideia de derrubar o avião na volta com excesso de bagagem em livros.

É preocupante por causa do mito aquele do livro caro no Brasil. É que se cai esse mito do preço do livro, essa peça caindo, derruba a próxima do dominó: aquela que diz que brasileiro não lê, porque livro é muito caro no Brasil.

Ou a gente reforma a frase pra “livro custa caro no Brasil, em Portugal idem (e na Argentina também não é essa barbada)” ou vamos ter que dizer que brasileiro não gosta mesmo de ler. Sem frescura, sem sofrimento. Como especulou um dia o meu amigo Polydoro, a gente vive num país cuja cultura se formou através do rádio, depois na TV, e antes disso não existia nem noção de cultura nacional, nem população alfabetizada pra criar o gosto do brasileiro pelo livro. Quer dizer, quando a maioria dos brasileiros teve acesso a bens e cultura, já existia plimplim no país. Pro bem e pro mal somos um país eletrônico, onde o livro talvez não seja tão caro assim. O brasileiro é que não gosta de ler.

Gosta mesmo é de chope.

Que chope é bem mais caro aí no Brasil do que aqui em Portugal. Tomo chope e cerveja aqui por dois e cinquenta, três reais, fácil. Chope é caro no Brasil. E nem por isso sai matéria todo mês afirmando que o chope não emplaca no Brasil por causa do preço, que isso é um problema nacional, que precisamos cuidar pra essa indústria não quebrar. Emplaca sim. Brasileiro gosta de chope.

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Reginaldo Pujol Filho, escritor portoalegrense, é um dos primeiros autores da Não Editora. Tem dois livros de contos publicados, Azar do Personagem e Quero ser Reginaldo Pujol Filho e é o organizador da antologia Desacordo ortográfico. Publicou contos em antologias como 101 Que Contam e Histórias de Quinta (organizadas por Charles Kiefer), 24 Letras Por Segundo (org. Rodrigo Rosp), no Janelas (projeto de cartazes literários dele com o amigo e poeta Everton Behenck) e no youtube. Mantem o blog Por causa dos elefantes.

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25
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Vem aí, na Palavraria: O cavaleiro do templo nas Cruzadas I – curso com Sérgio Luiz Gallina

Cursos e Oficinas na Palavraria

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O cavaleiro do Templo nas Cruzadas I

Curso com Sérgio Luiz Gallina

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Após a queda de Roma, como foi possível haver dois impérios romanos na Idade Média?

Qual foi o legado de Constantinopla?

Por que o feudalismo triunfou no Ocidente medieval?

Quem foi o rei Arthur histórico?

Os cavaleiros da Távola Redonda realmente existiram?

Por que as Cruzadas?

O Graal foi mesmo o cálice de Jesus?

Qual foi a relação entre os cavaleiros templários e o Santo Graal?

Por que a Idade Média tornou-se a Idade das Trevas?

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Venha conhecer o misterioso mundo medieval em quatro noites no curso “O Cavaleiro do Templo e a Idade das Trevas“, a ser realizado na Palavraria nos dias 9, 16, 23 e 30 de novembro, sempre às 19h30.

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O Cavaleiro do Templo é um romance histórico ambientado nas Cruzadas (4 volumes), que permite aos leitores conhecer a realidade histórica da época através da fascinante literatura romanesca. Personagens reais, como Ricardo Coração de Leão, Alienor da Aquitânia, Henrique II, Thomas Becket, entre outros, se entrelaçam com personagens fictícios de modo a refletir as relações humanas, o pensamento e os valores da sociedade feudal dos séculos XII e XIII. A obra trata ainda dos mistérios que envolvem os cavaleiros templários junto aos mitos e lendas do Santo Graal, do rei Arthur e dos cavaleiros da Távola Redonda. Trata-se de uma completa viagem pela Terra Santa, Islã, Império Bizantino e Europa feudal através de eventos históricos fidedignos, com citações dos mais renomados historiadores e comentários do autor. (Prefácio do Prof Dr José Rivair Macedo (UFRGS), medievalista brasileiro)

Informações e inscrições na Palavraria: 51 3268 4260
Rua Vasco da Gama, 165 – Bom Fim – Porto Alegre
De segunda a sábado, das 11 às 21h

O QUÊ?
Curso sobre a Idade Média baseado na leitura do romance histórico “O Cavaleiro do Templo”. Neste módulo, serão tratados os conteúdos históricos do I volume da saga.

COMO?
aulas de 1,5 hora cada, sempre na quarta-feira.

QUANDO?
dias 9-16-23-30 de novembro, das 19h30 às 21 horas.

ONDE?
Livraria Palavraria

QUANTO?
R$ 200,00 (duzentos Reais).

 

Sérgio Luiz Gallina é escritor, pesquisador medieval, membro da Associação Brasileira de Estudos Medievais (ABREM) e membro do GT Estudos Medievais da Associação Nacional dos Professores Universitários de História (ANPUH/RS).

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25
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Aconteceu na Palavraria, nesta segunda, 24/10, Lançamento do livro Que queres tu de mim?, de Lúcia Serrano Pereira

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Lançamento do livro Que queres tu de mim?, de Lúcia Serrano Pereira. Apresentação do livro pela autora com a participação de Carlos Alberto Gianotti e Diana Corso. Fotos do evento.

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Um pouco mais do mesmo: a crônica de Roberto Medina

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A danação do escritor, por Roberto Medina

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“Nel mezzo del cammin di nostra vita

mi ritrovai per una selva oscura

chè la diritta via era smarrita” – Dante

              Desde o momento em que a palavra se transformou em arte, os seus artífices ficaram condenados à danação. Felizes os que sonham com uma escrita através da Musa, como seria maravilhoso… O escritor apenas sendo um médium! Aos que já trabalham na área da escrita, sabem que o conto da Carochinha não é bem assim: é necessário ler muito, insistir para digladir com deuses no escuro da criação literária. Ato, por excelência, solitário.

Cada vez que inicio um processo criativo, mantenho-me em estado de alerta. Procuro na cabeça leituras que já se distanciaram de mim ou que se mantêm em suspenso: uma frase, um diálogo,uma reminiscência, uma imagem, um sonho. Mas necessito pesquisar muito, para, depois, esquecer tudo e domar a história pretendida. Não raro, a história me põe para dormir e se assume incólume. As personagens falam pela própria boca, e eu fico com o trabalho da faxina do texto, cortando rabos, anulando parágrafos, acrescentando a melhor forma de dizer ou levando a papelada para a lixeira.

Por exemplo, tive um sonho com a atriz Vera Vieira num cenário pós–hecatombe ou explosão nuclear, com choros horrosos, urdidos numa solidão, angústia e desespero. Percebi claramente uma dor universal: um grito pungente a todos os homens. Ao acordar, havia gostado daquela cena.  Senti aquela mulher perdida em seu próprio inferno… quiçá dantesco, traduzindo a epígrafe deste texto: “ no meio do caminho da vida, nos recebeu uma floresta escura, e não se encontrava a saída”. Notei que ela dialogava com seus fantasmas. O lugar não tem um referencial maior: poderia ser em qualquer tempo. Entendo que há olhos para quem quiser ver. No próprio sonho, veio o título do espetáculo: Você precisa saber. Em nada, eu ficaria aborrecido se o texto viesse junto.

Em algum lugar da cabeça, eu havia um eco de algum texto ancestral. Foi na mosca… Medéia, de Eurípides. No entanto, as vozes da memória não cessavam… havia mais coisas, como Huis clos, de Sartre, entre outros textos: Ionesco, Beckett ou Harold Pinter. Com meus alunos e amigos, faço questão de lembrá-los que, depois dos gregos e latinos, pouco nos resta. Muitas luzes são emitidas do lado de lá: fábula e trama.

Para uma consciência do ato de escrever e criar literariamente, Aristóteles , em A arte poética, assinala que o objeto da poética não é a poesia entendida superficialmente como conjunto das composições em verso, mas sim uma série de propriedades por assim dizer mais sutis e profundas do que o simples revestimento da metrificação, isto é, são constituídos pelo caráter mimético, a verossimilhança, a universalidade e o potencial catártico. Para produzir literatura, não basta sermos alfabetizados. É fundamental leitura e busca e tentativa e desânimo e luta.

No eterno retorno, apóio-me no ombro de Flaubert para a arte literária: o ato de escrever é fruto de um trabalho insistente com a palavra para atingir a perfeição. Não é suficiente imaginação. Há um meio caminho do cérebro até a caneta, finalizando-se no papel.

Uma vez o escritor José Paulo Paes expôs o que o artífice literário sofre e espera como resultado de toda essa condenação infernal, ou seja, para que tudo isso? Ele sinteza assim: “sou o poeta mais importante da minha rua, mesmo porque minha rua é curta.”

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Roberto Medina leciona português, inglês e francês em escolas, cursos preparatórios para concursos nacionais e internacionais. Foi professor de projetos literários na UDC –Faculdade Dinâmica Cataratas –, em Foz do Iguaçu. É editor e consultor de textos para editoras e autores independentes e ministra oficinas, cursos e palestras sobre temas literários e culturais em universidades e outras instituições no Rio Grande e no Paraná. Tem contos publicados na antologia 101 que contam e Brevíssimos (org. de Charles Kiefer), e lançou recentemente  o livro de poemas Pedrarias. É autor dos textos dramáticos Você precisa saber (peça teatral escrita para a Cia. Amadeus), Silêncio (peça teatral para o Teatro da Adega, SP), Até que (monólogo para a atriz Cláudia Ribeiro) e  Fernando Palavra (para a Cia G3).

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