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Um pouco mais do mesmo: a crônica de Roberto Medina

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A danação do escritor, por Roberto Medina

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“Nel mezzo del cammin di nostra vita

mi ritrovai per una selva oscura

chè la diritta via era smarrita” – Dante

              Desde o momento em que a palavra se transformou em arte, os seus artífices ficaram condenados à danação. Felizes os que sonham com uma escrita através da Musa, como seria maravilhoso… O escritor apenas sendo um médium! Aos que já trabalham na área da escrita, sabem que o conto da Carochinha não é bem assim: é necessário ler muito, insistir para digladir com deuses no escuro da criação literária. Ato, por excelência, solitário.

Cada vez que inicio um processo criativo, mantenho-me em estado de alerta. Procuro na cabeça leituras que já se distanciaram de mim ou que se mantêm em suspenso: uma frase, um diálogo,uma reminiscência, uma imagem, um sonho. Mas necessito pesquisar muito, para, depois, esquecer tudo e domar a história pretendida. Não raro, a história me põe para dormir e se assume incólume. As personagens falam pela própria boca, e eu fico com o trabalho da faxina do texto, cortando rabos, anulando parágrafos, acrescentando a melhor forma de dizer ou levando a papelada para a lixeira.

Por exemplo, tive um sonho com a atriz Vera Vieira num cenário pós–hecatombe ou explosão nuclear, com choros horrosos, urdidos numa solidão, angústia e desespero. Percebi claramente uma dor universal: um grito pungente a todos os homens. Ao acordar, havia gostado daquela cena.  Senti aquela mulher perdida em seu próprio inferno… quiçá dantesco, traduzindo a epígrafe deste texto: “ no meio do caminho da vida, nos recebeu uma floresta escura, e não se encontrava a saída”. Notei que ela dialogava com seus fantasmas. O lugar não tem um referencial maior: poderia ser em qualquer tempo. Entendo que há olhos para quem quiser ver. No próprio sonho, veio o título do espetáculo: Você precisa saber. Em nada, eu ficaria aborrecido se o texto viesse junto.

Em algum lugar da cabeça, eu havia um eco de algum texto ancestral. Foi na mosca… Medéia, de Eurípides. No entanto, as vozes da memória não cessavam… havia mais coisas, como Huis clos, de Sartre, entre outros textos: Ionesco, Beckett ou Harold Pinter. Com meus alunos e amigos, faço questão de lembrá-los que, depois dos gregos e latinos, pouco nos resta. Muitas luzes são emitidas do lado de lá: fábula e trama.

Para uma consciência do ato de escrever e criar literariamente, Aristóteles , em A arte poética, assinala que o objeto da poética não é a poesia entendida superficialmente como conjunto das composições em verso, mas sim uma série de propriedades por assim dizer mais sutis e profundas do que o simples revestimento da metrificação, isto é, são constituídos pelo caráter mimético, a verossimilhança, a universalidade e o potencial catártico. Para produzir literatura, não basta sermos alfabetizados. É fundamental leitura e busca e tentativa e desânimo e luta.

No eterno retorno, apóio-me no ombro de Flaubert para a arte literária: o ato de escrever é fruto de um trabalho insistente com a palavra para atingir a perfeição. Não é suficiente imaginação. Há um meio caminho do cérebro até a caneta, finalizando-se no papel.

Uma vez o escritor José Paulo Paes expôs o que o artífice literário sofre e espera como resultado de toda essa condenação infernal, ou seja, para que tudo isso? Ele sinteza assim: “sou o poeta mais importante da minha rua, mesmo porque minha rua é curta.”

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Roberto Medina leciona português, inglês e francês em escolas, cursos preparatórios para concursos nacionais e internacionais. Foi professor de projetos literários na UDC –Faculdade Dinâmica Cataratas –, em Foz do Iguaçu. É editor e consultor de textos para editoras e autores independentes e ministra oficinas, cursos e palestras sobre temas literários e culturais em universidades e outras instituições no Rio Grande e no Paraná. Tem contos publicados na antologia 101 que contam e Brevíssimos (org. de Charles Kiefer), e lançou recentemente  o livro de poemas Pedrarias. É autor dos textos dramáticos Você precisa saber (peça teatral escrita para a Cia. Amadeus), Silêncio (peça teatral para o Teatro da Adega, SP), Até que (monólogo para a atriz Cláudia Ribeiro) e  Fernando Palavra (para a Cia G3).

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