Arquivo para 27 de outubro de 2011

27
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A crônica de Ademir Furtado: A lei de Sócrates

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A lei de Sócrates, por Ademir Furtado

 

Desde os meus primeiros momentos de consciência crítica, me considero um sujeito desprovido de deuses. Nunca me empolguei com a possível existência de seres superiores e abstratos, habitantes de esferas celestiais. Mas mantenho essa postura como um valor subjetivo, sem tentar convencer os crentes a respeito das minhas descrenças. Por isso, fiquei meio surpreso, dias desses, numa mesa de bar, quando um inimigo público das religiões profetizava o advento de um dia dedicado ao ateísmo, algo do tipo “o dia do orgulho ateu”. A mania de querer contextualizar tudo me levou a uma reflexão sobre essa obsessão atual pela visibilidade. Minha quase formação de sociólogo suspeita que isso é conseqüência do tal multiculturalismo, em que cada seguimento da sociedade busca conquistar o seu espaço e registrar sua presença. Mais do que isso, escancarar que tem orgulho de ser o que é.

Talvez um psicólogo encontre explicações diferentes: uma ânsia de ser aceito e reconhecido para encontrar legitimidade. Certos filósofos asseguram que o indivíduo só encontra sua essência no olhar dos outros, ao ser visto pelos outros.

Algumas idéias costumam se conectar a outras, e assim, eu lembrei de outro fato da mesma natureza, que virou notícia meses atrás. Em algum lugar do Brasil, um parlamentar apresentou um projeto de lei para implantar o dia do orgulho heterossexual. De imediato, achei que fosse mais uma manchete do Sensacionalista, “o jornal isento de verdade”. Mas não era. Esse disparate tinha pretensões de seriedade. Para ser sincero, não me interessei mais pelo assunto e não sei qual foi o resultado de tamanha bizarrice. Mas não resisti à tentação de fantasiar possíveis desdobramentos dessa iniciativa. Uma delas seria o surgimento de dispositivos jurídicos para resguardar o método natural de conservação da humanidade. Se já existe a preocupação de preservar as florestas, os rios, os passarinhos, as moscas, os mosquitos, as pererecas, por que não se empenhar pela proteção mais específica da espécie humana? E já que as mulheres foram contempladas com o dia delas, seria justo, agora, atender aos interesses dos homens. Assim, não seria surpresa uma lei que proibisse as mulheres de se esquivarem às investidas masculinas. Imagine-se um defensor de causa tão nobre quanto a sobrevivência da humanidade argumentando que o maior entrave a uma orientação heterossexual consequente é essa mania que as mulheres têm de querer conversar várias vezes antes de atender as reivindicações masculinas. Esse arauto da proliferação humana passaria a enumerar casos em que homens, ou por falta de energia, ou por carência de habilidade, desistiram antes do almejado sucesso. E numa época de plena liberdade de expressão, onde qualquer desatino deve ser acolhido como legítima manifestação, ele enumeraria mais uma série de ponderações para provar que esse comportamento feminino é puro preconceito contra homens heterossexuais, e como tal, deveria ser combatido com uma legislação séria e fiscalização eficaz.

Mas, as divagações fantasiosas não sobrevivem aos ataques da razão, e concluí que um regulamento desses seria tão inútil quanto desnecessário, porque não resolveria o problema das convicções interiores. Creio que o maior orgulho que se pode ter é o da experiência da própria capacidade e das habilidades para conquistar um objetivo. Seja a paz interior de viver sem se agarrar a entidades imaginárias, seja o reconhecimento do poder para seduzir a mulher desejada. Se Sócrates recebeu alguma revelação após visitar o oráculo de Delfos, foi a certeza de que a lei mais poderosa que existe é o autoconhecimento.

Ademir Furtado escreve no blog http://prosaredo.blogspot.com

A crônica de Ademir Furtado é publicada neste blog na quarta quinta-feira do mês.

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Vai rolar na Palavraria, nesta sexta, 28/10: Lançamento do livro “Um reformismo quase sem reformas”, de Valério Arcary.

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28, sexta, 18h30: Lançamento do livro Um reformismo quase sem reformas. Uma crítica marxista do governo Lula em defesa da revolução brasileira, de Valério Arcary.

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Um reformismo quase sem reformas, de Valério Arcary, tem seu ponto de partida na constatação de que o Estado, como sempre na história, está a serviço das classes dominantes. Nenhuma ilusão, portanto, quanto às suas potencialidades emancipatórias ou quanto ao futuro que nos aguarda: mais miséria e mais repressão, antagonismos sociais mais evidentes e menor margem para reformas. A partir deste cenário, Arcary argumenta, com força poucas vezes encontrada, a necessidade da organização dos trabalhadores autônoma do Estado. Que não seja aprisionada pelas ilusões eleitoreiras nem pelos preconceitos contra uma estratégia revolucionária, socialista. Estratégia esta que, sem ser sectária, seja radical; que sem ser dogmática, seja consequente na articulação entre meios e fins. Sérgio Lessa, professor da Universidade Federal de Alagoas

Valério Arcary é um historiador marxista e dirigente do PSTU – Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado. Graduado em História pela PUC-SP e doutor em História Social pela USP. Ex-líder estudantil durante a Revolução Portuguesa, voltando ao Brasil tornou-se dirigente do Partido dos Trabalhadores e fundador do PSTU. É autor dos livros As esquinas perigosas da História – Situações revolucionárias em perspectiva marxista (Xamã, 2004) e O encontro da revolução com a História. Em sua obra, Arcary resgata o real significado do socialismo, maculado pela política stalinista na União Soviética. Atualmente leciona em graduação no curso de licenciatura em Geografia e no Curso de Turismo, ambos no antigo Centro Federal de Educação Tecnológica de São Paulo e atual Instituto Federal de São Paulo.

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