Arquivo para 1 de novembro de 2011

01
nov
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A crônica de Tiago Cardoso

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John Gledson e o realismo enganoso de Machado de Assis, por Tiago Cardoso

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Machado de Assis, nosso reverenciado escritor, tem sua biografia e extensa obra literária revisitadas por uma ampla gama de publicações, nas quais sua vida e seus textos são objeto de atentos comentários e diferentes interpretações.

Com a indicação de meu amigo Carlos, tive acesso, muito recentemente, ao nome de John Gledson e ao título “Machado de Assis, Ficção e História”, Editora Paz e Terra (2ª ed.). O autor inglês, nos idos de 1983, já debutava como crítico da obra machadiana, com a publicação de dois textos que propõem: primeiro, uma contribuição à leitura de “Casa Velha”; segundo, uma abordagem geral sobre o tema da escravidão na obra de Machado. O crítico surpreendeu positivamente as minhas expectativas e, mais, renovou de cores e luzes todas as (re)entrâncias do texto do romancista brasileiro, oferecendo uma leitura reveladora e, para mim, inédita de livros que eu considerava como velhos (e bem) conhecidos.

O último romance machadiano com o qual me deparei, “Memorial de Aires”, me havia deixado uma impressão absolutamente favorável. No centro da trama, eu via pulsar uma verve essencialmente vitalista, no bojo da qual a ficção desfiava sua ode primaveril de elogio à renovação e à juventude. Não obstante eu tenha mantido essa impressão, depois de acessar a análise de Gledson, digo que ela decorre essencialmente de uma chave de leitura bastante explícita que a obra de Machado nos oferece e para a qual o crítico inglês nos chama a atenção: a perspectiva do narrador-personagem. No caso do Memorial, trata-se do olhar do conselheiro Aires. Pois é justamente a partir daí – da perspectiva do narrador-personagem, oferecida por Machado – que Gledson articula seu conceito de “realismo enganoso”, graças ao qual o crítico propõe uma cuidadosa análise do texto e, essencialmente, da trama. Em síntese, a idéia de realismo enganoso admite, como afirma Nicolau Sevcenko, que de um lado há o procedimento pelo qual o artista representa a realidade segundo as convenções doutrinárias da estética realista, então dominante, ao mesmo tempo em que, por outro viés, essas mesmas convenções são suspensas.

Essa inteligente retomada dos elementos, que compõem o romance machadiano, dá acesso a outras possibilidades de conformação do enredo, alternativas, aliás, que talvez nunca tenham escapado ao olhar do narrador-personagem, mas que revelam fundamentalmente o seguinte: primeiro, a parcialidade, o comprometimento e a limitação de sua fonte (o narrador-personagem); segundo, a facilidade com que o leitor se identifica e adere, quase cegamente, a essa perspectiva narrativa.

Da leitura, pareceu muito claro que estas outras possibilidades sempre estiveram lá, no texto e nas minúcias do enredo articulado por Machado, algumas vezes sugeridas até com alguma insistência pelo autor, mas que, de alguma forma, são postas de lado  por este personagem, que nos conta a história. Não antecipo a reviravolta que, tenho certeza, para muitos leitores, o acesso à análise dos textos machadianos pela lupa de John Gledson provocará. Nessa aventura, encontraremos um crítico que propõe a convergência entre história (especialmente do Brasil) e ficção, na qual as criações de Machado atuam como “instâncias de uma interlocução crítica [do romancista carioca] com seu tempo e seus concidadãos”.
Em minha opinião, fatos que em nada diminuem a beleza artística do legado machadiano, muito antes pelo contrário, revitalizam as cores de sua humanidade. Boa leitura!

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Tiago Cardoso é frequentador da Palavraria, graduado em direito e mestre em filosofia pela UNISINOS.

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