Arquivo para 7 de novembro de 2011

07
nov
11

A crônica de Rônei Rocha: Alma de artista

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Alma de artista, por Rônei Rocha

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Esses dias o meu amigo Benhur esteve de aniversário. Nós temos uma amizade bastante diferente da média, já que ele me conhece muito bem, e eu quase nada sei a respeito dele. Além disso, é, em grande parte, uma amizade por interesse. Já me explico.

As únicas pessoas de quem eu sempre tive, como dizem os nossos irmãos argentinos, uma envidia sana, é dos artistas (às vezes nem tão sana assim). Fico me perguntando como conseguem criar onde só existe o nada, o vazio; enxergar com outros olhos; sentir o que nós, os comuns, não sentimos.

Quando eu vejo um pianista conversar alegremente com alguém e ao mesmo tempo conseguir tocar aquela música maravilhosa, que facilmente me faz chorar, e que pra conseguir tirar — comendo milho — eu levaria dez anos ou mais, dá vontade de, a la Tom e Jerry, descer a tampa do piano nos dedos dele. Nem um pouco sana. Compor então, pra uma pessoa como eu, que desafina até quando toca a campainha, é algo que sempre foi inatingível e incompreensível.

O Benhur foi o primeiro artista com quem eu pude travar um conhecimento, quando, inicialmente, me mostrou umas poesias suas. Lindas! Na hora eu detectei que se tratava de material fino, porque eu não entendi nada. Mas naquela época eu já havia aprendido que poesia boa eu não entendo, no máximo os parnasianos.

Aí está minha oportunidade, pensei eu, agora eu posso perguntar ao próprio artista o que antes tinha que perguntar ao pobre do professor, que, diga-se de passagem, às vezes também não entendia. Lembro que fiquei um pouco mais conformado quando perguntaram ao Chico Buarque o que ele quis dizer com O que será?, e ele respondeu que se soubesse não teria escrito “o que será?”. Bem, uma eu acho que entendi.

Mas, voltando ao tema, ele até me explica, com aquela má vontade típica de quem precisa explicar o óbvio, e aí então o texto fica ainda mais lindo. É quase como naquele filme no qual o mocinho decifra o enigma e as letras se desembaralham até formarem palavras claras.

As pessoas costumam perguntar se eu ando pela rua analisando qualquer um, distribuindo diagnósticos. Claro que sim! Depois de fazer isso num dia inteiro de trabalho não há nada melhor para relaxar um pouco.

Mas, em relação ao Benhur, eu não sinto vergonha de admitir ter utilizado todo o meu vasto arsenal de técnicas psicanalíticas na tentativa de decifrá-lo. Em vão, pois até hoje falhei fragorosamente.

Estou chegando à mesma conclusão que tantos outros chegaram antes de mim, inclusive Freud: a alma do artista é indecifrável (e eu não sou tão competente quanto fantasiava).

E aqui sigo eu imaginando como é que alguém escreve, como em O arcanjo inconfidente: “Era a maldição de Olga, que não podendo vir lhe puxar os pés, vinha desvendar nuanças sedutoras da paisagem, das pessoas e dos sentimentos, a gadanha da morte bolinada por uma bruxa num auto-de-fé”. Desgraçado! Vou já convidá-lo para uma feijoada.

Rônei Rocha é médico psiquiatra de Uruguaiana – RS.

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07
nov
11

Aconteceu na Palavraria, nesta sexta, 04/11: Sarau das oficinas Ronald Augusto

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04, sexta, Sarau poético A precisão do impreciso – Oficinas Ronald Augusto, com a participação de Denise Freitas, Deisi Beier, Liana Marques, João Pedro Wapler, Maria da Graça, Paulo Prates, Jackeline Barcellos, Juliana Ben e convidados. Fotos do evento.

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