Arquivo para 19 de novembro de 2011

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A crônica de Rônei Rocha: Pancadão

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Pancadão, por Rônei Rocha

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Eu sou testemunha da forma criminosa como a carência artística está judiando da maioria dos mais jovens nestes tempos. A arte tem, entre muitas outras finalidades, a de nos encorajar, acalmar, enriquecer as nossas fantasias, mostrar um universo com o qual nunca havíamos sonhado, expressar ou ajudar a entender o que estamos sentindo. Nos meus delírios eu sou um grande compositor; os meus sentimentos simplesmente fluem como música e quase enxergo a cor e sinto o gosto das notas.

Como os meus dois professores de música tentaram o suicídio e tenho muitas outras coisas para estudar agora, sempre preenchi este espaço da minha alma escutando artistas que somente pelo fato de terem chegado antes de mim compuseram praticamente tudo o que eu precisava ouvir.

Para me ajudar a sonhar e relaxar tenho Villa-Lobos; pra botar a raiva pra fora, Deep Purple; pra entender um grande amor, Chico Buarque, e por aí vai. Quando eu penso que uma pessoa pode passar toda sua vida escutando funk e sertanejo (mesmo o com pós-graduação), dá vontade de oferecer eutanásia. E não é uma questão de gosto (já que, além de não discutir gostos, eu também aprecio algumas músicas desses gêneros), mas sim de pena mesmo pelo que eles estão perdendo.

Eu acredito que, em termos gerais, está cada dia mais difícil ser um adolescente, e uma parte disso se deve ao fato da maioria não ler nada, não saber escrever e encontrar muito pouco auxílio nas músicas ou nos filmes que curtem. Estão assim privados de grande alívio que está à disposição para quem puder ler Machado de Assis, Cervantes, García Márquez ou os Verissimo, e depois não surpreende vê-los se entupindo de álcool, maconha ou estimulantes.

Quem sabe, numa tentativa desesperada de salvamento, pudéssemos arriscar pôr música em alguns sonetos de Shakespeare:

— Chama-me de Tigrão, e serei assim rebatizado; nunca mais serei Romeu.

— Quem é esse muleke bolado que, envolto pela noite, tropeça em meu segredo?

— Meu nome, minha piriguete, é odioso a mim mesmo, porque é inimigo dus teu bródi.

— Como vieste parar aqui? Os muros do pomar são altos e para escalar tem que botar muita pressão.

— Com as asas leves do amor superei estes muros, pois mesmo barreiras pétreas não são empecilho à entrada do amor. Assim sendo, quero ver tu rebolar, minha cachorra, numa stronda até o chão.

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Rônei Rocha é médico psiquiatra de Uruguaiana – RS.

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