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Conversas na biblioteca, com Carla Osório: Hercule Poirot: um repouso

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Hercule Poirot: um repouso, por Carla Osório

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Em dias de virose, alergia, ansiedade, sinusite, gripe  e enxaqueca, somente Hercule Poirot me faz ler. Preciso de conforto e ele está lá, a minha espera, com suas células cinzentas, seus sapatos de verniz, seu bigode indescritível (não consigo sequer imaginá-lo e nos filmes ou seriados eles sempre me parecem falsos: não são os bigodes dele).

Descobri Agatha Christie com um presente que me foi dado ao acaso, acaso porque eu não lia romances policiais na época. A Editora Record havia lançado em papel jornal a coleção completa de suas novelas policiais, se não me falha a memória nos anos oitenta, e era vendida em bancas de revista. Depois de ler o primeiro, passei a comparecer quinzenalmente  na minha banca de revistas preferida, na Venâncio Aires, na frente do HPS (ainda existe até hoje) e comprava aqueles livrinhos que me acompanham até hoje. Já pensei em substituí-los por edições mais bonitas,  já que os utilizo tanto, mas estes são meus companheiros de anos e gosto de olhar aquelas capas amareladas, marcadas até por papéis que deixava por descuido dentro dos livros. Enfim, as marcas do tempo e dos meus descuidos estão nesses livros como em tantos outros.

Releio todas aventuras de Hercule Poirot e tão somente as dele, os demais personagens, inclusive Miss Marple, não me são tão próximos.

Mas que tem Poirot de tão interessante e por que me acompanha há tanto tempo?

Sabem aqueles amigos chatos, que todos nós temos, mas de quem gostamos muito e cujas esquisitices  suportamos por simples afeto? Pois assim é Hercule Poirot para mim.

Para quem não o conhece, Poirot é um detetive belga um tanto excêntrico, afetado, orgulhoso de si próprio (e de suas células cinzentas), mas divertido. Ele foi criado em 1916 (quando Agatha Christie escreveu o primeiro romance O Misterioso caso Styles) e quando morreu (porque Agatha Christie o matou e esse livro JAMAIS vou reler) recebeu um obituário primeira página do The New York Times .

Ele gosta de coisas de uma forma ordenada (ou seja, livros arrumados em uma prateleira de acordo com a altura) e aprova de simetria em todos os lugares (Whitehaven Mansions, o edifício onde reside, foi escolhido devido à sua simetria). Para solucionar um crime utiliza somente as famosas células cinzentas, além da ordem e do método. Ele afirma que qualquer crime pode ser resolvido com a simples colocação das peças do quebra-cabeças corretamente.

As aventuras de Poirot iniciam-se em 1916  e sua morte se dá em 1975. Dessa forma toda a história dos costumes ingleses passa pelos seus livros. Esse é um fato pouco levado em consideração quando se lê a obra de Agatha Christie, porque mesmo não sendo essa a sua intenção, acredito, suas novelas descrevem muito bem a época em que foram escritas: desde a aristocracia falida, sem condições de manter as belas mansões que se transforam em hotéis, até o surgimento do movimento hippie (momento em as mulheres se enfeiam, segundo Poirot,  e os homens deixam o cabelo crescer).

O conservadorismo, a xenofobia, o anti-semitismo e o culto à aristocracia  são algumas das características s que deveriam me afastar das novelas de Agatha Christie.  Mas essas características parecem não se impregnar em Poirot. Ele fica imune à minha crítica, talvez porque as novelas sejam narradas na terceira pessoa, talvez por ele ser um estrangeiro consciente de viver em uma Inglaterra que não aceita a diferença, talvez por seus maneirismos e extravagâncias em um país onde a discrição é a tônica (salvo em relação aos chapéus) e talvez porque ele tenha orgulho dessa distinção.

Poirot paira por uma Inglaterra em decadência (a Inglaterra dos condes, dos nobres e das mansões em estilo georgiano ou vitoriano), assinalada pelas transformações do pós-guerra, pela ascensão do Partido Trabalhista, pelo desaparecimento dos serviçais leais (mordomos, governantas, jardineiros).

Mas é porque eu conheço muito bem Poirot é que posso falar dele (e de suas Inglaterras) dessa forma. Quem o conhece pouco somente verá o jogo estabelecido por Agatha Christie entre o detetive e o leitor para a solução do caso.

Quando voltar a época de resfriados, angústia, rinite… voltarei a conversar com Poirot, como sempre.

Carla Osório é sócia-proprietária da Palavraria.

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1 Response to “Conversas na biblioteca, com Carla Osório: Hercule Poirot: um repouso”


  1. 28 de janeiro de 2012 às 02:55

    Tenho lido todos os livros com Poirot em sequencia, em terminei agora “A terceira garota” e já comecei a ler “a noite das Bruxas”, logo vai chegar a hora de “Cai o Pano”, e sinto certa angustia à medida que o momento do “fechar de cortinas” se aproxima. Acho que sentirei falta dele, como sentiria de um amigo chato mas ainda sim único.


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