06
dez
11

A crônica de Tiago Cardoso: Scarlett Marton e o homem que fazia filosofia com o martelo

.

Scarlett Marton e o homem que fazia filosofia com o martelo, por Tiago Cardoso

.

 

“Nietzsche, filósofo da suspeita”, editado pela Casa da Palavra, de autoria da professora Scarlett Marton, traz um conteúdo conciso e de muito boa qualidade para quem tem curiosidade a respeito da obra do autor alemão. A opção de abordagem de Scarlett é muito dinâmica e desenvolta, organizando o texto em, basicamente, cinco partes. Nas três partes centrais, encontramos capítulos que debatem as principais objeções comumente articuladas ao legado nietzscheano, quais sejam: primeiro, a de que ele nunca teria feito filosofia; segundo, a de que Nietzsche seria um dos precursores do Nazismo; terceiro, de que o professor da Universidade da Basiléia teria celebrado o irracionalismo e o niilismo. É muito interessante acessar essas páginas em que, de uma forma bastante direta e clara, a professora da USP traz à tona as “crenças” que amparam cada uma dessas objeções a Nietzsche para, logo em seguida, pô-las “sob suspeita”. As outras duas partes, algo como um prólogo e um epílogo do livro, carregam, em síntese, o argumento central da autora: o de que Nietzsche foi, sem dúvida, um “pensador-de-problemas”, um provocador. Por esta razão, não podemos, ao acessar Nietzsche, imaginar que estamos diante de um autor que se propõe a arquitetar um sistema filosófico, para daí derivar soluções universais. Muito antes pelo contrário, Nietzsche é anti-sistemático e, portanto, julga que um “filósofo não pode ter opiniões categóricas”, sob pena de transformarmos a pretensão filosófica em um mero agir dogmático.

Muito embora estejamos em 2011, não cessamos de perceber o transbordamento moral com o qual as mais descomedidas “análises”, que tem habitado especialmente o mundo de nossa comunicação social, têm disparado suas bem-intencionadas sentenças. Não obstante os muitos problemas sociais ali sinalizados, temos a impressão de que o mundo anda habitado por um contingente cada vez mais numeroso de novos párocos, na maioria (pasmem!) céticos e ateus. Conhecer o autor de “Genealogia da moral”, pela mediação desta renomada pesquisadora do legado nietzscheano, pode favorecer o florescimento de olhares críticos e algo provocadores, estimulados a insistir na busca, na pesquisa e na criatividade, ou seja, dispostos a julgar que a reflexão filosófica deve estar aliada à experimentação, à vivência e à profanação. Um movimento que pode contribuir, como o autor de “Crepúsculo dos ídolos” afirma, para que evitemos um estágio de ignorância que tanto o julgamento moral como o religioso compartilham: a crença em realidades que não são realidades.

Cumpre destacar que o livro de Scarlett está articulado em uma linguagem que pretende aproximar um público bastante amplo do autor alemão e de seu exercício filosófico, e oferece, também, uma breve biografia intelectual de Nietzsche e indicações de leitura. Aliado ao trabalho que diagnostica algumas objeções, frequentemente utilizadas para pôr-se a salvo das provocações que a obra de Nietzsche nos desafia a enfrentar, a professora Scarlett Marton traz uma excelente introdução e, mais do que isso, um convite para acessarmos esse indispensável legado que, acima de tudo, marcou (e ainda influencia) profundamente o pensamento crítico de nosso tempo.

 


Tiago Cardoso
é frequentador da Palavraria, graduado em direito e mestre em filosofia pela UNISINOS.

 

.

.

Anúncios

2 Responses to “A crônica de Tiago Cardoso: Scarlett Marton e o homem que fazia filosofia com o martelo”


  1. 1 maria backes
    13 de dezembro de 2011 às 10:14

    Puxa, Tiago, estou quase me animando a encarar o Nietzche again… Às vezes penso, que ele fica melhor depois de digerido por ti e pelo Zé Celso… Beijim, Maria.

    • 2 Tiago Cardoso
      11 de janeiro de 2012 às 18:21

      Muito obrigado, Maria. Fico muito contente com a tua impressão – e por aproximar-nos de um artista genial como o Zé Celso – e com a vontade (a tão importante vontade) que expressas de (re)tomares os textos de Nietzsche.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s


dezembro 2011
S T Q Q S S D
« nov   jan »
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031  

Categorias

Blog Stats

  • 722.452 hits
Follow Palavraria – Livros & Cafés on WordPress.com
Anúncios

%d blogueiros gostam disto: