Arquivo para 7 de dezembro de 2011

07
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A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: Da pragmática 2 [em resposta a Leila], por Jaime Medeiros Jr

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Da pragmática 2 [em resposta a Leila], por Jaime Medeiros Jr


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Leila

a tua pergunta – não deveríamos voltar aos pais do pragmatismo, pragmatismo que era preocupado em promover o altruísmo, onde uma religião, por exemplo deveria ser avaliada por sua capacidade de nos fazer dispensar cuidados e atenções entre nós? – me dá a oportunidade de repensar o que estou a fazer.

Contudo comecei a pensar tudo isto a partir da leitura de Interpretação e superinterpretação [Eco, Rorty, Culler]. Seminário que me pareceu poder ser lido em pelo menos dois níveis. O primeiro, mais evidente, o do debate que discute todos os meandros da interpretação do texto literário. O segundo, onde ao falarmos da interpretação nessa nossa época que descrê da possibilidade de experimentarmos o mundo, senão como representação, senão como interpretação, poderíamos, talvez, também entendê-lo como um debate sobre as interpretações do real.

Deste modo me furtei de citar autores e de me responsabilizar pela exata reprodução de suas vozes, mas sim, acabei por os entender como tipos mais ou menos universais, aos quais denominei atitudes [atitude estética, atitude pragmática e uma atitude que crê na coerência interna do texto, a qual talvez pudéssemos denominar realista – em um determinado momento pensei denominar as duas primeiras atitudes como o artista e o político, mas creio que acabaríamos por reduzir o âmbito de ação das mesmas]. Portanto Leila, de certo modo, não estou a falar bem de pragmatismo, mas, isto sim, de pragmática.

Tentando por mais a claro, falamos de pragmatismo desde William James, talvez, mas de pragmática, que é a relação que possamos ter com uma prática [práxis], desde sempre. Aqui poderíamos, por exemplo, revisitar Maquiavel e o velho problema se os fins justificam os meios.

Em determinado ponto do debate a voz do pragmático fala, e nos diz que deveríamos deixar de pensar a nossa leitura como uma interpretação que busca se aproximar de uma intenção do texto. Pra ele o que vale não é a interpretação, mas sim o uso que dela faremos, esta interpretação está condicionada aos fins que tenciono dar a ela, de certa forma aqui interpretar é persuadir. O que me parece não ser mais que uma reedição de Trasímaco, que afirma, respondendo a Sócrates, que a Justiça não é outra coisa que não a conveniência do mais forte. Este tipo de atitude anti-essencialista, como a denomina o pragmático do nosso debate, parece, por fim, nos obrigar a disputa, ao enfrentamento. Estamos nos círculos do vale tudo, onde o princípio que devo seguir se pauta unicamente pela tentativa de atingir os meus objetivos.

Nisto abro Anne Cheng, quando fala na introdução de a História do pensamento chinês: a ausência de teorização à maneira grega e escolástica explica, sem dúvida, a tendência chinesa ao sincretismo. Não há verdade absoluta e eterna, mas dosagens. Daí a contradição não ser entendida como termos que se excluem, mas sim, como termos complementares … … … nesse  pensamento prevalece a reflexão menos sobre o conhecimento em si do que sobre sua relação com a ação. Isto nos afasta da guerra frontal, pois podemos entender que posições antagônicas se complementam.

Podemos observar que estes dois modos de conceber a pragmática se comportam também de modo diferente frente à tradição: de um lado estamos no campo da disputa, onde a minha tese se pretende exclusiva ela não se permite conviver com outras. Estamos sempre trabalhando no sentido de refundar o mundo, de reinventá-lo, apostamos todas as nossas fichas no novo, no ser original. Do outro lado não vivemos sob a óptica do conflito, mas sim nos inserimos no grande barco da tradição, atuando de modo complementar, aceitando as contradições que se refletem no pensamento de quem pensa uma realidade contraditória, aqui quem pensa é muito menos o eu e bem mais as relações entre os modos diferentes, mas complementares, de conceber a realidade. De um lado temos a ação corrosiva do lógos que nos leva ao nada. De outro temos o vazio que emerge da contradição, que compreende o caráter proteico da realidade e não pretende imobilizá-lo com uma qualquer trama teórica.

Após ter tentado me explicar um pouco melhor, tento agora responder mais objetivamente a tua pergunta. Sim creio que deveríamos viver de um modo mais altruísta; ter mais consideração pelo outro e fomentar o bem estar geral da humanidade. Por outro lado me parece que uma das principais dificuldades que temos para atingir este objetivo é fundarmos nossa prática sobre a matriz da disputa, do confronto, do partido e da guerra. Uma matriz de exclusão, que no mais das vezes aniquila qualquer outro possível a que pudéssemos demonstrarmos nosso altruísmo, nosso afeto. Portanto a questão me parece menos a de ser pragmáticos, que por fim, me parece todos somos, mas de qual pragmática adotaremos. Acho que seria bom juntarmos um coraçãozinho aos nossos arrazoados e experimentarmos um espaço de convívio.

Espero que possa ter respondido de algum modo a tua pergunta Leila. No mais te deixo um abraço e até a próxima

Jaime

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Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Mantém os blogs Tênues Considerações e O Arco da Lira.

A prosa ligeira de de Jaime Medeiros Jr. aparece neste blog quinzenalmente às quartas-feiras.

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07
dez
11

Um pouco mais do mesmo, a crônica de Roberto Medina

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Osman Lins revisited, por Roberto Medina

 


Hoje acordei com sede de rever quem me faz tanto bem aos olhos e à alma. Acho que sentimentalmente precisamos vasculhar nossas estantes e provocar reencontros com os autores prediletos – aqueles que, a cada nova leitura, invadem-nos como uma centelha, causando estrondo ou apenas silêncio bom. Assim é Osman Lins. Há alguns anos faço esforços para que todos o leiam,  que fiquem a ruminar seus contos, romances e peças de teatro.

Dizem que os livros nos encontram. Comigo não é diferente. Acredito haver muitos livros mal escritos, histórias carentes de uma estruturação narrativa decente, poesias que forçam uma lamúria piegas. Reafirmo que comigo não é diferente: no caso com Osman Lins, ocorreu de eu ter de resenhar dois livros de contos: Os gestos (1957) e Nove, novena (1966)… O que era para ser um trabalho hercúleo transformou-se em verdadeira paixão; quase devoção. Como amante literário, fui atrás de informações: era pernambucano; nasceu em 1924 e faleceu em 1978; escreveu de tudo. Era um expoente que peitava as qualidades de texto de uma Clarice Lispector ou um Guimarães Rosa. Por que os bons morrem cedo?

O escritor italiano Ítalo Calvino, em Por que ler os clássicos, elenca conceitos sobre o que indica um livro como clássico. Há várias definições; agradam-me estas: “Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira” e “Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”. Dessa forma, aproximo-me novamente de Osman Lins. A cada releitura, pressinto ter deixado algo escapar. Algo que, por vivência ou ignorância, não consegui apr(e)ender. Nos contos do escritor pernambucano, é possível notar o apuro e esmero com que tecia as histórias: o domínio da palavra exata e sua cosmovisão. Era incansável com a linguagem. Esse fazia Literatura!

Em Os gestos, o próprio autor afirma “quando escrevi os contos aqui reunidos, todos alusivos ao tema da impotência humana (ante os elementos, ante os olhos de um morto, ante a linguagem etc.), minha ambição centrava-se em dois itens: a) lograr uma frase tão límpida quanto possível; b) não alheio à voz de Aristóteles, fundir num instante único, privilegiado, os fios de cada breve composição, como se todo o passado ali se adensasse. A luta que, desde a adolescência, eu mantinha – sempre derrotado e às cegas – com a arte de narrar encontrava finalmente um rumo e, parece, uma resposta.”  Osman Lins é exemplar quanto ao ofício de escrever literariamente; por conta disso, seus textos possuem a beleza e profundidade dos maiores nomes da nossa literatura brasileira. Suas personagens se encontram em plena sondagem interior, interrogando-se, solitariamente, de forma histriônica, o seu lugar no mundo. Tal mundo que entendemos como vida – por mais prosaica que seja.

Em alguns momentos desta existência, devemos compilar com semblante grave as nossas preferências, lembrando que toda escolha carrega uma renúncia. Pois bem, do livro Nove, novena, penso ser algo próximo a um crime quem não leu “Retábulo de Santa Joana Carolina”. Como afirma Sandra Nitrini, estudiosa do autor, é uma perfeita transposição literária do retábulo plástico. A narrativa é composta por doze módulos, chamados de mistérios, numa referência clara ao gênero teatral religioso da Idade Média. A voz em “Retábulo…” é assumida por vários narradores, em primeira pessoa, que realçam o perfil exemplar dessa mulher nordestina (personagem inspirada na avó paterna do autor), concretizada no amor, na fidelidade, na lealdade, na solidariedade, na firmeza de caráter, na obstinação, na coragem, na resistência e enfrentamento aos poderes locais e na convivência com a natureza, a partir de acontecimentos específicos de sua vida.

Hoje foi um dia bom. Puxo os livros de Osman Lins para perto do peito, fecho os olhos, respiro modicamente e sinto um prazer com a grandeza dos fortes e bons. Experimente-o também.

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Roberto Medina leciona português, inglês e francês em escolas, cursos preparatórios para concursos nacionais e internacionais. Foi professor de projetos literários na UDC –Faculdade Dinâmica Cataratas –, em Foz do Iguaçu. É editor e consultor de textos para editoras e autores independentes e ministra oficinas, cursos e palestras sobre temas literários e culturais em universidades e outras instituições no Rio Grande e no Paraná. Tem contos publicados na antologia 101 que contam e Brevíssimos (org. de Charles Kiefer), e lançou recentemente  o livro de poemas Pedrarias. É autor dos textos dramáticos Você precisa saber (peça teatral escrita para a Cia. Amadeus), Silêncio (peça teatral para o Teatro da Adega, SP), Até que (monólogo para a atriz Cláudia Ribeiro) e  Fernando Palavra (para a Cia G3).

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