Arquivo para 20 de dezembro de 2011

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Um pouco mais do mesmo, a crônica de Roberto Medina: Ler nas estrelinhas

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Ler nas estrelinhas, por Roberto Medina

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Ainda existe uma preocupação muito séria de todas as pessoas em usar suas máscaras ou baixar o carnaval e serem elas mesmas. O processo é de decodificação – ler e ler-se. Entre os amantes é também assim. Quanto mais próximas ficam as criaturas, a focalização de suas objetivas deveria ser fotográfica e animicamente  atenuada. O contrário seria uma pancadaria em que não restaria ninguém. Sobre esse assunto de ler o outro, muitos já têm afirmado a respeito da dificuldade com que devemos nos mover. Terrenos movediços. Almas bailarinas. Pessoas de vidro. Tudo pode desmoronar em questão de segundos. Átimos e hiatos.

Os amantes inventam e se reinventam nos códigos em papiros perdidos em alguma velha caverna como tesouros que afloram da terra. Em plena existência, precisamos mergulhar no profundo do outro e tentar resgatar alguma centelha ou fagulha de um brilho, outrora chama, tantas vezes extinta.

Em conversas com diferentes tribos e idades, o descontentamento entre os vínculos formados pelos que se amam está em crise, sendo que a palavra “crise” significa, em grego, mudança, transformação.

Ok! Mas é todo mundo com pressa. Mundo moderno. Mulher tem de ser “femme fatale” e profissional. Homem, provedor e sexy; independendo de orientações sexuais. Meu Deus, por que nos abandonaste?

Se, de alguma forma, ainda procede questionar se o amor, de fato, existe ou é apenas um elemento para justificar a união de dois. Ficam no fio da navalha. Para que lado ficará a queda menos trágica? Ressaltar que o amor é divino, mas os amantes o estragam… Seria desonesto?

Lembro, com pesar, o conto “Apenas um saxofone”, de Lygia Fagundes Telles, em que a protagonista reata na lembrança a necessidade de descartar o amado. Vivia na saudade do seu grande amor, um saxofonista que se dedicara a ela completamente. Sobre o amor, a personagem afirma que todos o deixam para a última hora – in extremis –, sendo esse o grande mal. Tentam acabá-lo quando já está podre e cheira mal.

Quem é forte e honesto o suficiente para celebrar a chegada do desamor?

Dizem que, como tudo o que existe fixo ou movente, o desamor traz sinais e marcas. Às vezes põe-nos suas pesadas garras e fica como uma baga a nos vigiar com os olhos escuros. Andamos com esse ser dolorido e dilacerante, travestido de rancor e ressentimentos, por vários lugares, em sóis e luas.

Saber isso dói. Mas quem dá conta? Alto preço. Baixas esperanças.

Uma criança, chegando próxima da mãe, disse que quando se lê, é muito importante  ler nas estrelinhas. Entrelinhas num serzinho diminuto não há necessidade de aparecer. Sim. Junto-me ao pequeno:  vejamos as estrelinhas nesses oceanos de desejos, já que somos apenas gotas.

E o amor e desamor? Veja as estrelas! O resto se resolve. A natureza não altera as estações por nossa causa, ela segue implacável e benevolente. Assim vão e vêm os séculos. As estrelinhas –   que são vovozonas – riem de nós.

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Roberto Medina leciona português, inglês e francês em escolas, cursos preparatórios para concursos nacionais e internacionais. Foi professor de projetos literários na UDC –Faculdade Dinâmica Cataratas –, em Foz do Iguaçu. É editor e consultor de textos para editoras e autores independentes e ministra oficinas, cursos e palestras sobre temas literários e culturais em universidades e outras instituições no Rio Grande e no Paraná. Tem contos publicados na antologia 101 que contam e Brevíssimos (org. de Charles Kiefer), e lançou recentemente  o livro de poemas Pedrarias. É autor dos textos dramáticos Você precisa saber (peça teatral escrita para a Cia. Amadeus), Silêncio (peça teatral para o Teatro da Adega, SP), Até que (monólogo para a atriz Cláudia Ribeiro) e  Fernando Palavra (para a Cia G3).

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