Arquivo para 22 de dezembro de 2011

22
dez
11

A crônica de Ademir Furtado: Realidade fictícia

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Realidade fictícia, por Ademir Furtado

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Um assunto que tem me fascinado bastante há alguns anos é a relação entre história e literatura. Há muita coisa escrita sobre o tema.

Por um lado temos a realidade histórica como matéria prima para a ficção. Aqui está implícito uma concepção de arte como representação da realidade. A maioria dos seres viventes se contenta com as manifestações imediatas do mundo. Mas alguns indivíduos, privilegiados por uma sensibilidade mais aguçada, são tocados também pelas nuances mais sutis do vivido. Como habitantes da caverna platônica que conseguiram chegar ao lado de fora, eles recriam essa experiência através de narrativas fictícias, a fim de mostrar aos seus semelhantes a complexidade da vida e denunciar a falsidade das aparências projetadas nas sombras. É a história como fio condutor da ficção

Por outro lado, o historiador sempre recorre a um pouco de ficção para preencher o espaço entre os dados colhidos na pesquisa, por mais séria que ela seja. Um texto historiográfico também precisa de um ponto de vista, um recorte no tempo e no espaço, e isso não deixa de ser uma construção a priori do conteúdo descrito. Em outras palavras, um recurso às técnicas de ficção, usada como instrumento para contar a história real.

Lembro de uma biografia de Dostoievski em que o autor relata o deslumbramento de Ana Grigorievna ao ser pedida em casamento por aquele que ela admirava como escritor e já amava como homem. É verossímil que a então estenógrafa tenha se sentido feliz, pois, afinal de contas, ela aceitou o pedido sem vacilar, e, ao que consta, foi a grande companheira do escritor até o final da vida. Mas a descrição do estado de espírito da futura esposa, ainda que tenha se baseado em diários da própria Ana, faz parte do propósito do autor de mostrar que Dostoievski teve uma vida menos atribulada na velhice do que na juventude. A imaginação preencheu, com certa dose de honestidade, o vazio entre os registros concretos, e isso não diminui em nada o aspecto de verdade histórica.

Um livro no qual essas duas dimensões da narrativa, a real e a fictícia, se entrelaçam numa teia de significados é Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar. A autora se empenhou por vários anos num imenso trabalho de pesquisa para recriar com fidelidade os meandros do então mais influente centro de poder do planeta.  Mas não se limitou a uma descrição realista da biografia de um homem poderoso. Ela vasculhou os labirintos de uma cultura prestes a desaparecer e com o mesmo assombro de quem viu as legiões de bárbaros diante dos muros de Roma, ela sentiu os temores da decadência iminente. Não por acaso, o Adriano de Marguerite Yourcenar ocupa seus últimos dias de vida para relatar suas aventuras a um jovem Marco Aurélio, futuro herdeiro, de alma e de trono.

Segundo declarações da própria autora, ela se beneficiou das liberdades de ficcionista para a construção do seu personagem, sobretudo ao atribuir a ele certo poder de clarividência, ou concepções de mundo que só viriam a ser desenvolvidas nos séculos seguintes. Mas essas características estariam de acordo com a personalidade do imperador, vislumbrada através de reformas que ele patrocinou no campo da economia e do direito, transformando o império romano naquilo que para Marguerite seria um exemplo ideal de civilização clássica.

Mesmo assim, não se pode classificar essa obra como romance histórico, naquele sentido tradicional em que o escritor apenas se transforma num historiador liberado da rigidez das regras acadêmicas. Aqui a escritora se apropriou de um personagem real, cuja biografia continha os elementos que ela procurava para compor sua própria visão de mundo. A história real já estava pronta, ela só precisava selecionar os acontecimentos vividos pelo personagem, para construir uma unidade de sentido ficcional. E com isso, ela antecipou o que Paul Veyne diria algumas décadas mais tarde: a história é um romance verdadeiro.

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Ademir Furtado é autor do romance Se eu olhar para trás (Dublinense, 2011). Escreve no blog http://prosaredo.blogspot.com

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22
dez
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Vai rolar na Palavraria, nesta quinta, 22/12: Lançamento da revista de cinema Teorema 19

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22, quinta, 19h: Lançamento da revista Teorema 19.

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Contagiada pelos ares da Primavera Árabe, Teorema 19 apresenta uma edição que desde a capa, passando pela entrevista e dois dos artigos tratam de questões relacionadas à democracia no Oriente Médio. O Irã, vale frisar, não é árabe, é persa, mas deu a largada para as revoltas populares nesta parte do mundo.  E esta é a primeira vez que a revista coloca na capa não um ator, mas um diretor de cinema. Neste caso, Jafar Panahi é o intérprete de si mesmo em Isto Não É Um Filme, rodado em sua casa, já que se encontra em prisão domiciliar. O crítico Paulo Henrique Silva analisa Isto Não É Um Filme, dirigido por Mojtaba Mirtahmasb e Panahi.

 

Em situação não muito melhor está Mohsen Makhmalbaf, que em entrevista à Teorema fala sobre seus filmes e sua condição de exilado que já escapou de um atentado no Afeganistão. Para analisar a obra de Makhmalbaf, Ivonete Pinto assina um artigo que divide a trajetória do diretor em distintas fases.

 

Esta edição vem mais robusta: além da entrevista, são 14 artigos que fazem um balanço do ano. Somando-se aos artigos já citados, Enéas de Souza, em sua habitual profundidade de análise, dedica-se ao filme de  Terrence Malick, A Árvore da Vida. Na sequência, João Nunes enfrenta com determinação o enigmático Caminho para o Nada, do veterano Monte Hellman. Já Vicente Moreno nos traz a reflexão de um filme ainda inédito no Brasil, Drive, do dinamarquês Nicolas Winding Refn, premiado em Cannes.

 

Pulando o “bloco persa”, Alexandre Santos encara outro dinamarquês, o controverso Lars von Trier e o seu Melancolia. Marcus Mello, nosso especialista em cinema espanhol, descama A Pele que Habito, de Pedro Almodóvar. Carlos Eduardo Lourenço Jorge, por sua vez, impôs-se o desafio de analisar o gigante já no título, Notícias da Antiguidade Ideológica: Marx, Eisenstein, O Capital, de Alexander Kluge.

 

Para falar da estreia no longa-metragem de um dos editores da revista, fomos buscar um filósofo: Darwin Oliveira embarca na viagem de A Última Estrada da Praia, de Fabiano de Souza. Raul Arthuso aceitou a incumbência de escrever sobre Eduardo Coutinho e seu mais recente documentário, As Canções. E Fabiano de Souza entrega-se ao ritmo de Rock Brasília – Era de Ouro, de Vladimir Carvalho, ressaltando o papel da família no filme. O Palhaço, de Selton Mello, com suas gags e nonchalance, é o motivo do texto de Milton do Prado.

 

Para promover uma sintonia com a vida da personagem central, Teorema convidou a atriz Mirna Spritzer para refletir sobre Riscado, de Gustavo Pizzi.  Fechando a edição, Teorema escalou o diretor Carlos Gerbase para falar de João Miguel, um ator que depende, mais do que tudo, de seu talento. Quem ler o texto, entenderá porquê.

 

Por fim, Teorema dá as boas-vindas a um novo editor: Milton do Prado. Frequente colaborador da revista, ele é mestre em estudos cinematográficos pela Concordia University de Montreal, montador, professor universitário e agora, oficialmente, crítico de cinema.

 

Fonte: Papo de Cinema – http://www.papodecinema.com.br/

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