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A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: Da disjunção à conjunção

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Da disjunção à conjunção, por Jaime Medeiros Júnior

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Como iniciar este texto? Apenas um segundo atrás, tinha pensado começar mais ou menos assim: perguntas sempre haveremos de tê-las! Já no instante seguinte discordei de mim. O certo é que volta e meia acabamos por nos pôr nos mesmos bretes.

Umberto Eco, em recente entrevista à revista Época, diz que a internet só serve àquele que já é detentor de conhecimento, e, portanto, sabe onde quer ir. Quem tudo desconhece não sabe procurar, e, portanto, vai ter em qualquer parte.

Isso me faz lembrar Calvino, o reformador, para quem a salvação não tinha parte alguma com a fé, ou sequer com o amor e suas obras, mas unicamente com a vontade do senhor. Deus já escolheu os justos e estes hão de ser salvos.

A universidade, sugere Eco, talvez devesse se ocupar de desenhar os filtros necessários para que aquilo que se tenha apreendido da internet possa ser transformado em conhecimento. Aqui, creio, cabe outra pergunta: existe algum mecanismo de uso universal e de fácil manejo que seja capaz de dar forma ao informe?

Platão parece ter entendido que não temos nenhum método seguro para atingirmos o conhecimento, senão, talvez, através do confronto com a aporia. Primeira das armas a se usar para nos livrarmos daquelas certezas que são não mais do que falsos conhecimentos. Somente Eros, o filho de aporia, é filósofo, ou, dito de outro modo, a aporia é mãe da filosofia. Do que talvez pudéssemos depreender que só após termos caído em aporia,  e tendo assim nos posto no mesmo estado tenso das cordas do arco, é que conseguiremos produzir novo disparo de nossa seta em direção a um novo saber, ou, tensos como as cordas da lira, quando poderemos produzir uma nova harmonia.

Lutero, de modo diferente de Calvino, acreditava que as virtudes teologais – fé, amor e esperança – poderiam ser um bom meio de atingirmos a salvação. A salvação para um cristão se daria através de sua fé em Jesus Cristo. Entendia Jesus Cristo como um modelo a ser imitado ativamente. O mesmo modelo, Cristo, também foi entendido em um modo contemplativo, como por exemplo, na Imitação de Cristo, de Thomas Kempis.

Creio, por isso – já que em algum momento temos de chegar à parte interpretativa deste nosso texto –  não por acaso Eco reproduz a dança do homem no ocidente, dança constante, que se produz no espaço entre as duas colunas do templo. A coluna do rigor, que perenemente nos condena a nós mesmos, e a coluna da graça que perenemente nos liberta. A cruz de Cristo é a transfiguração da aporia em mistério, que entende que estamos ali naquele ponto central de suprema tensão, entre as forças que nos querem fiéis ao alto e aquelas que nos querem próximas do mundo, e que nos constrangem a tentar envolvê-lo num abraço amoroso. Aqui passamos da disjunção a conjunção dos contrários. Lutero, talvez no seu maior comentário ao evangelho, por medo de que incorrêssemos em idolatria, arrancou o Cristo a morrer da cruz, e colocou uma cruz preta, ali, no centro de uma rosa branca, outros comentadores vieram, e colocaram uma rosa vermelha, bem ali no ponto central da cruz, o de máxima tensão, como um signo da vida que está sempre a florescer em toda e qualquer parte. E aqui talvez valha ainda lembrar Diotima, uma mulher, que lá naquela Grécia que hoje subpomos empedernidamente masculina, já esclarecia Sócrates, o qual nos faz o seguinte relato: O que então lhe disse foi mais ou menos o que Agatão acabou de afirmar: Eros é um deus amante das coisas belas. Ela contestou minha proposição ponto por ponto, como fiz neste momento com a dele, para mostrar que, de acordo com o meu próprio argumento, ele não podia ser belo nem bom. Nesta altura, lhe falei: “Como assim, Diotima! Nesse caso, Eros é feio e mau?”

E ela: “Não blasfemes! Pensas, porventura, que o que não é belo terá de ser necessariamente feio?”

“Sem dúvida.”

“E quem não for sábio, será ignorante? Não percebeste que há algo intermediário entre a sabedoria e a ignorância!”

“Que poderá ser?”

Neste ponto, Platão parece afirmar Eros como a eterna presença de um terceiro na cena universal do embate dos opostos. Aqui invito, a quem interessar possa, deixar de ler as considerações desse cuidador de criancinhas, para tomar a grande nau que é o Banquete. Pois, já no parágrafo seguinte, Diotima há de esclarecer Sócrates. Sem mais, por hoje, e até a próxima.

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Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Mantém os blogs Tênues Considerações e O Arco da Lira

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3 Responses to “A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: Da disjunção à conjunção”


  1. 1 toni
    8 de fevereiro de 2012 às 20:45

    Jaime, precisarei reler!!! Abraço. (Antonio) toni

  2. 2 ROBERTO MEDINA
    3 de fevereiro de 2012 às 13:38

    QUERIDO JAIME,
    TEXTO SUSPEITOSAMENTE LEVE…
    GRANDE ABRAÇO, MEDINA.
    EXCELENTE TEXTO!

  3. 2 de fevereiro de 2012 às 09:11

    E salve Eco, salve Eros e , claro!, Diotima (rs)… e sempre muito bom estar aqui em tuas leituras Jaime, beijos e bom feriado.

    Carmen.


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