04
mar
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A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: Das sandices literárias

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Das sandices literárias, por Jaime Medeiros Jr.

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O interessante ao fazer a inspeção das coisas do mundo é quantas vezes acabamos por nos redescobrir. Estas coisas não nos chegam sem perdas. Podemos muitas vezes manusear algum pequeno artefato. Rugosidade, cheiro, cor e outros recortes sensíveis da realidade auferidos pelos sentidos se perdem em meio às palavras da descrição de quem se propõe a nos revelar sua materialidade. Bem, se tivermos agora um objeto um tanto mais taludo, uma mesa, por exemplo, e resolvermos entregá-la a um bom punhado de observadores, para que nos descrevam aquele único objeto, acabaremos por aumentar vertiginosamente o nosso espectro de incongruências. Agora o nosso problema não mais se reduz as incapacidades da linguagem dar conta daquele pedaço de mundo, mas também porque as diferentes experiências frente àquele único real ainda hão de acabar se acotovelando. Que mesa haveremos de escolher? A do pintor de paredes ou a do pintor? Ou, quem sabe, a do marceneiro?

Agora, queremos, isto sim, compreender uma obra literária e não mais um simples artefato material. O nível de incongruências que haveremos de enfrentar certamente há de aumentar. Tomando-a como um mar, poderemos nos servir de um barco para que, singrando-o em sua superfície, possamos reconhecer  o máximo de sua extensão. Também, segundo os nossos recursos, poderemos submergir nas águas, atingindo maior ou menor profundidade conforme acabarmos por utilizar: um submarino, um escafandro, ou simplesmente descermos até onde o nosso fôlego humano aguentar. A obra Platônica, por exemplo: alguns comentadores dirão que, se quisermos entender Platão, Platão basta. Todo o Platão está contido nos diálogos. Já outros comentadores dirão de modo diferente: se quisermos encontrar Platão em sua plenitude, teremos de obrigatoriamente consultar outras fontes também, dentre elas sobretudo Aristóteles [divergências entre as hermenêuticas que se fundam em Schleiermacher ou na escola de Tübingen]. O que nos revela o nível de incongruências que acabamos por ter quando frequentamos a incrível variabilidade de interpretações de uma mesma obra literária.

Bom, como sandice pouca é bobagem, agora fomos acometidos de um tipo especial de doença. Temerariamente resolvemos perscrutar não mais um artefato material, não mais um “artefato” literário, mas sim, o próprio real. Não satisfeitos resolvemos ainda fazer literatura de nossas interpretações. Essa doença se manifesta na eleição de uma cartilha pessoal de interpretação do mundo [e aqui desconfio que no mais das vezes não escolhemos a cartilha, mas, sim, ela se nos impõe]. Somos realistas: acreditamos na supremacia dos instintos sobre o espírito e que invariavelmente deveremos tentar explicar o mundo a partir de suas bases materiais. Ou somos não realistas: poremos nossas fichas em crenças advindas do espírito, procuraremos símbolos e imagens que possam referenciar nosso ideal.

Aqui cabe lembrar como certos tipos de realismo acabam por entender como escapismo tudo que não lhe obedeça a cartilha [lembrar, por exemplo, que certos intérpretes da literatura latino-americana entendem que a literatura de Borges ou de Sábato não podem ser compreendidas como literatura latino-americana]. Este tipo de realismo, quer me parecer, está a sofrer de sua própria esquizofrenia, acreditando que o seu simulacro de real é menos simulacro do que o daquele que foi acometido pela doença da cartilha não realista.

Parece que toda abordagem que fizermos do real sempre há de padecer de um mesmo nó górdio. Quem observa não está apartado do mundo. Ele também é realidade. Alfred Tarski propõe como solução do problema do cretense [um cretense em Tebas diz: todo cretense é mentiroso] que se quisermos banir de nossa linguagem todas essas cobras que mordem o seu próprio rabo, deveremos construir para nossa linguagem-objeto uma metalinguagem, onde deveremos colocar todas as regras de ordenação da linguagem-objeto. Analogamente poderíamos dizer que não somos esta metalinguagem para a linguagem-objeto mundo, mas, isto sim, estamos inseridos no mundo. Ou dito ainda de outro modo, sempre há de nos faltar o ponto de apoio para alavancarmos o mundo. Portanto se há algum escapismo a que devamos temer não é o não nos vincularmos a uma interpretação realista do mundo, mas sim o não nos mantermos coerentes com nossa própria sensibilidade.

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Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Mantém os blogs Tênues Considerações e O Arco da Lira

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