Arquivo para 15 de março de 2012

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A crônica de Ademir Furtado: Herrar é umano

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Herrar é umano, por Ademir Furtado

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Se a gente considerar que é o leitor que constrói o significado do texto, pode-se dizer que qualquer leitura vale a pena. Essa premissa, no entanto, pressupõe um leitor habilidoso, que estabelece uma relação de empatia e ao mesmo tempo desconfiança com o que lê. Esse preâmbulo é para contar que há poucos dias ocupei algumas horas com mais um capítulo da literatura gaúcha, uma dessas obras que a gente aprecia mais pelo valor histórico do que pelas qualidades estéticas.

Nessa nova empreitada, a narrativa conta a história de uma família, e em algum momento, perto do desfecho, todos os personagens importantes da trama se encontram, numa espécie de acerto de contas. A cena é muito tensa, dramas familiares, muita choradeira, fortes emoções. Até que o narrador assume o controle e estanca aquele fluxo de lágrimas com a seguinte frase:

‘HOUVERAM alguns momentos de silêncio”.

A primeira impressão foi de engano de leitura. Reli a frase e aquele HOUVERAM continuava lá, firme. Então voltei ao início do trecho para ver se havia alguma explicação. Não havia explicações. A data de publicação do livro poderia ser um álibi. Quem sabe naquele longínquo ano de 1851 algumas liberdades gramaticais não eram permitidas, sobretudo aos escritores, tão raros que eram na rústica província de São Pedro? Mas não tive ânimo para investigar essa hipótese.

Depois, cogitei na responsabilidade da editora, falha de revisão, e por fim, concluí que o melhor a fazer era saber logo se o velho e severo pai ia dar a mão da filha ao mocinho pobre mas inebriado dos mais altos valores morais, ou ao moço rico com passado nebuloso. E cheguei ao fim da leitura sem que aquele detalhe gramatical comprometesse o efeito geral do texto.

Mas a memória é uma trocista incansável e passou a me cutucar com outros exemplos semelhantes. Um deles, o de uma celebridade das letras nacionais, que numa colaboração para um jornal, numa quarta-feira de cinzas, escreveu que desde sua infância até os dias presentes “HOUVERAM muitos carnavais muito legais”.  E não satisfeita com isso, minha memória foi buscar outro caso da mesma natureza. Na descrição de uma festa de gente fina e elegante na casa da estilista Coco Chanel, alguns animadores ENTRETERAM muito bem os convidados. Esse, pelo menos, era uma tradução, o que isenta o escritor, mas deixa a editora na obrigação de voltar às aulas de português.

Quem costuma navegar pelos blogs e páginas na internet, sobretudo aquelas de crônicas do cotidiano com pretensões literárias, já deve andar anestesiado pelos efeitos de algumas liberdades gramaticais. Construções do tipo “há anos atrás“ e “a muito tempo” já adquiriram uma certa normalidade pela persistência, feito aquele zumbido no ouvido que, por não ter cura, deixou de  incomodar. Sem falar no rapaz que perdeu a namorada no primeiro parágrafo e saiu desesperado em busCA DELA. Parece que, quando está em jogo a genialidade e o poder de expressão, não há que se perder tempo com questões de regras e convenções. Muito menos com vagas questões de estilo. Vivemos a época da supervalorização da personalidade individual e o que conta é se manifestar, ter a existência reconhecida.

Não saberia dizer com certeza, até que ponto essas idiossincrasias são conseqüência direta da atuação de alguns pedagogos que, em décadas anteriores, houveram por bem sair a campo para defender a supremacia do conteúdo da mensagem, em detrimento de regras formais, tidas como discriminatórias. Sei é que houve alguns apressados que confundiram proficiência com opressão, e temo que a literatura hoje esteja sendo oprimida por tais pedagogias. Para os escritores de internet, o problema é de difícil solução, pois há muito improviso, e muita pose. Mas, para as obras impressas em editoras, eu penso em parodiar o Paulinho da Viola e dizer: tá legal, tá legal, eu aceito o argumento, mas não me altere a gramática tanto assim, olha que algumas dessas relíquias vão ser adotadas por escolas, ou cair nas mãos de algum leitor em formação, que ainda vê o livro como uma autoridade incontestável.

E talvez para amenizar a situação com o recurso do humor, lembrei de uma pichação de muro que li certa vez: HERRAR É UMANO. Assim mesmo, transcrita de maneira incorreta para justificar o conteúdo. Mas é possível divagar em outra direção: o autor da brincadeira recorreu a uma sentença popular para se redimir das dificuldades com a ortografia. De qualquer maneira, com a grafia certa ou errada, essa epígrafe pode servir muito bem de subterfúgio para algum colegial preguiçoso, com deficiência na gramática, mas não tem o poder da generalização. Pois creio que existe uma grande diferença entre o erro e o desprezo pelo acerto. É uma questão de escolha. Se os latinos tinham o seu errare humanum est há que se ter em mente o complemento: perseverare autem diabolicum.

Ademir Furtado é autor do romance Se eu olhar para trás (Dublinense, 2011). Escreve no blog http://prosaredo.blogspot.com

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