Arquivo para 19 de março de 2012

19
mar
12

Recado de Lisboa, por Gabriela Silva: Florbela, o filme

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Florbela, o filme, por Gabriela Silva

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Rasga esses versos que eu te fiz, amor!
Deita-os ao nada, ao pó, ao esquecimento,
Que a cinza os cubra, que os arraste o vento,
Que a tempestade os leve aonde for!

Florbela Espanca

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Então não posso me furtar, estando em Lisboa, de não pensar em Florbela Espanca (1894- 1930). Ainda que seus poemas não definam ruas com exatidão, nem descrevam épocas de Portugal, percebe-se a melancolia que habita o espírito português e que ecoa nos sonetos de Florbela.  Lembro do primeiro poema dela que li,  bem conhecido: “Eu”. E me identifiquei tanto, era como se corressem nas minhas veias, as palavras, como soro, rápidas. Cada verso do soneto parecia dizer o que eu sentia. Desse momento em diante não consegui mais deixar de ler a poetisa portuguesa.

E fiquei muito feliz ao saber da produção “Florbela” de Vicente Alves do Ó. O filme trata de uma parte exata da vida de Florbela Espanca: o casamento com Mário Lage e a morte do irmão Apeles.  Um filme esteticamente belo: a  década de 1920 retratada em seus modismos e cores, dando a impressão de vida que acreditamos que o cinema deve nos proporcionar.

A vida de Florbela, recortada para o filme, tinha muito mais dor do que alguns de seus poemas: a complicada questão de sua filiação, a ausência da mãe, dois casamentos fracassados e dois abortos.  Todos esses acontecimentos  lhe concederam a tristeza que até hoje é lida e percebida em seus versos.

Essa tristeza, essa permanente busca por alguém ou por um sentimento a ser preenchido associada à genialidade da poetisa é colocado de maneira excepcional no filme.  Alentejana de nascimento, Florbela era uma figura que frequentava os círculos literários de Lisboa, cafés, livrarias e era conhecida por sua simpatia e alegria, muito diferente do eu lírico identificado em seus sonetos.

Produzido pela Ukbar Filmes em 2012, escrito e dirigido por Vicente Alves do Ó e com 119 minutos de duração, Florbela é uma obra completamente portuguesa. Dalila Carmo interpreta Florbela, junto a um elenco de bons atores também portugueses.

O filme se encerra com Florbela escrevendo o livro que dedicou ao irmão falecido. Ela morreria três anos após o irmão, aos 36 anos. Ela que queria amar e amar somente.

Assisti ao filme no El Corte Inglés, num sábado, em que a tarde começara com chuva. Saí do cinema muda. Em casa peguei minha antologia da Florbela e precisei ler, ler…para poder encerrar e começar os sentimentos que me haviam tomado: melancolia e alegria.

Espero que o filme chegue ao Brasil, espero que ele chegue a Porto Alegre. Eu sei de muitos amigos e amigas que terão a mesma sensação que eu.

Sobre o filme:  http://www.florbela.pt/index.html

Sobre Florbela Espanca: http://www.vidaslusofonas.pt/florbela_espanca.htm

Gabriela Silva tem literatura no seu dna. Desde a infância convive com homens e deuses e as histórias que lhe contam. É formada em Letras, estuda o mal e a morte na literatura e todas as teorias conspiratórias e literárias. É doutoranda em Teoria da Literatura na PUCRS, tendo como foco a construção da personagem. Atualmente está em Lisboa, dizem que estudando.

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19
mar
12

A crônica de Emir Ross: Conversas com mamãe

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Conversas com mamãe, por Emir Ross

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Tenho evitado as conversas com minha mãe. Ultimamente temos exercitado essa comunicação basicamente em seus telefonemas. Antes de perguntar como estou, ela insiste em saber o que estou fazendo. Digo que estou escrevendo.

“E vai trabalhar quando, meu filho?”

Gosto de falar com minha mãe. Assim como gosto de falar com outras pessoas que avaliam a escrita como um não-trabalho. Tento entender as outras pessoas. Mas, com minha mãe, não sei se faço o mesmo esforço. Mamãe é uma mulher à moda antiga. Acha um absurdo, por exemplo, que eu cozinhe para minha namorada. Mas gosta quando ela lava a louça. Ambos gostamos.

Cozinhar me dá prazer. Principalmente quando faço para as namoradas, se é que me entendem. Por isso, fiz um curso rápido de culinária. Mamãe ligou. Disse-lhe que as aulas serviriam para eu ser chef.

“Ah, que bom meu filho, que bom.”

Possivelmente ela não entendeu que o tipo de chef que eu seria era um tipo de chef que mandava apenas nas panelas. Mas ela não precisa saber desses detalhes. Estudo há trinta anos para fazer um trabalho que não é trabalho e para dar ordens a um monte de panelas que queimam meus dedos.

O mundo insiste em não entender certas coisas. Eu mesmo ainda não entendo por que escolhi esse caminho. Tenho um trabalho que não dá dinheiro e subordinados que soltam vapor pelas ventas.

Talvez a explicação esteja mesmo nas ventas. Eu dificilmente esquento a cabeça. Afinal, as pessoas apenas se estressam por trabalho, dinheiro ou cônjuges. Como não tenho nenhum deles, vivo em paz.

Estou pensando, inclusive, em telefonar para minha mãe.

“Mãe, sou eu, estou feliz, na santa paz de Deus.”

Essa informação sobre estar feliz e em paz certamente ligará outro ponto na cabeça dela.

“Quem bom, arranjou um emprego, meu filho, que bom.”

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Emir Ross é publicitário e escritor e mora em Porto Alegre. Tem participação em 9 antologias de contos e recebeu mais de 20 prêmios literários. Entre eles, o Felippe d’Oliveira em Santa Maria (3 vezes), o Escriba de Piracicaba (2 vezes), o Luiz Vilela de Minas Gerais (2 vezes), o José Cândido de Carvalho do Rio de Janeiro (2 vezes), o Prêmio Araçatuba, entre outros. Escreve no blog milkyway.

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Emir Roos publica neste blog na primeira e terceira segunda-feira do mês.

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