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A crônica de Moacyr Godoy Moreira: Furdunço aéreo

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Furdunço aéreo, por Moacyr Godoy Moreira

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Meu amigo Antonio Prata escreveu sobre isso outro dia. Já reparou que quando avisam, no avião, para que as pessoas permaneçam sentadas ‘até a parada total da aeronave’, fica todo mundo em pé, num afã desvairado por recuperar seus pertences de mão e sair correndo corredor afora? Pois é! O Antonio tem uma hipótese para o fenômeno: a incompetência do brasileiro em seguir regras. Ou seja, se há regra, sou contra. Se há lei, vamos burlar! Para o Pratinha (o Prata pai é o Mario), a impaciência vem da atitude diante da arbitrariedade dos comissários de bordo: quem é este sujeito para me dar ordens?, pensaria o ofendido passageiro. E sai todo mundo desembestado, abrindo compartimentos e derrubando bolsas, casacos e presentes já não tão bem embalados, desmiliguidos pelo sacolejar do trajeto.

Uma outra situação, para mim inexplicável, contraria um pouco a hipótese do Antonio: o embarque. Já vi pessoas esperarem de 20 a 30 minutos, em pé, numa fila em frente ao portão de embarque, aguardando anunciarem a saída do vôo. Pergunta estúpida: por que esperar meia hora em pé, com as pernas doendo sobre enormes saltos, por vezes, se os acentos dentro do avião são numerados? Não tenho muitas teorias para propor, apenas constato que se trata de uma ansiedade um tanto burra, desculpe a franqueza. Digo burra porque simplesmente não faz sentido, não tem propósito prático algum. Mas deve ter alguma explicação sócio-psico-antropológica, quiçá.

No desembarque, já vi gente se empurrando, batendo boca e até ameaças de agressão. Para que? Para ficar dez minutos em pé no corredor, sentindo-se como aquele pessoal que vai atrás do trio elétrico, gente trocando calor humano, mala embaixo do braço, filho embaixo do outro, pacotes de lembranças para a família equilibrados sobra a cabeça. Será que o desejo de sair correndo é para ir ao banheiro?, já cogitei esta possibilidade. Tem gente que não consegue fazer xixi com o remelexo aéreo, entende-se. Mas já prestei atenção no salão de desembarque e são poucos os que entram correndo no banheiro para se aliviar. Em vôos mais longos, chega a ser um pouco mais comum.

Já vi gente dormir em fila, com barraca de camping e tudo, para comprar ingresso pro show do Paul McCartney, para garantir vaga na escola para o filho ou por razões diversas que implicam diretamente na ordem de chegada. Não é o caso do avião, nem para sair, nem para entrar. Quem fica em pé primeiro não sai primeiro – a menos que o sujeito esteja viajando na primeira fileira. O pior é que mesmo que o sujeito saia logo do avião, ao chegar à esteira rolante vai ter que esperar como todo mundo: nunca as malas chegam antes das pessoas. Aliás, a retirada das malas é outro espetáculo digno de revolta, um empurra-empurra sem fim, um salve-se quem puder geral, uma falta de educação que dá pena de ver – e neste item os brasileiros não são os únicos privilegiados.

Deve haver uma explicação melhor para a ansiedade burra. Talvez, baixe no povo um desespero, um alívio pelo avião ter pousado e não ter morrido ninguém, vai saber? Dá um siricutico na moçada (termo da minha avó, nem sei se é assim que se escreve), que sai de baixo. Mesmo assim, ainda não explicaria o cidadão neurótico na frente do portão de embarque, xingando que está demorando, que é um absurdo ficar em pé na fila, que a aviação no Brasil é uma vergonha – sendo que o horário indicado na passagem ainda não chegou.

Um dia, chegando em São Paulo, aquele furdunço no corredor abarrotado esperando o Abre-te Sésamo das portas, ouvi um mineiro desabafar da maneira mais original e engraçada possível, que levou a maioria das pessoas ao redor a caírem na risada, talvez entendendo o papel ridículo que estavam fazendo – menos o sujeito mal-humorado que empurrava Deus e o mundo. Depois de levar mais um safanão, virou o rapaz pro agressor e ingadou:

– Ô fi, empurra não! Vai tirá o pai da forca?

 22.11.2010

 Moacyr Godoy Moreira é escritor, redator de teatro, tradutor e médico. Publica semanalmente crônicas e resenhas na seção “Arte do Tempo” do site http://www.agenciacartamaior.com.br. Publicou, pela Ateliê Editorial, os livros de crônicas Lâmina do Tempo, República das Bicicletas e Ruídos Urbanos.

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