Arquivo para 7 de abril de 2012

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A crônica de Moacyr Godoy Moreira: Viagem à Bahia

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Viagem à Bahia, por Moacyr Godoy Moreira

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Recebi com certo entusiasmo a notícia de que teria um compromisso profissional em Salvador. Havia estado na cidade por duas vezes, a primeira com meus pais, aos 14 anos de idade, durante as férias, e a segunda num congresso acadêmico que levou à cidade mais de 6000 estudantes de medicina de todo o Brasil, evento do qual fiz parte da organização, fato do qual me recordo com indisfarçado orgulho.

Foi também quando descobrimos que nem tudo o que aparece na mídia condiz com a realidade: reuníamo-nos uma vez por dia num plenário respeitável, com capacidade sempre esgotada para 3000 pessoas, com presença de autoridades discutindo abertamente os destinos das políticas públicas de saúde, dentre outros temas. Justamente no dia de folga do congresso, quando não havia qualquer atividade programada, uma matéria do Jornal Nacional mostrou o tal plenário vazio e muitos dos estudantes na praia, provando para todo o país que tais eventos de política estudantil só serviam para os alunos fazerem turismo, muitos deles subsidiados por suas respectivas universidades.

A Bahia e o Rio de Janeiro devem ser, de longe, os lugares mais exaltados pelo nosso cancioneiro popular. Não são estranhos os nomes dos bairros e localidades de Salvador, nomes que surgem nas canções: Boca do Rio, Itapuã, Federação, Baixa do Sapateiro, a Praça Castro Alves (que é do povo, como o céu é do avião) e o Farol da Barra. Andar pelas ruas da cidade e se deparar com algumas placas indicativas de distâncias e caminhos, provoca uma sensação de reconhecimento de algo familiar: Igreja de Nosso Senhor do Bom Fim, Mercado Modelo, Pelourinho, Praia de Amaralina.

O hotel era no bairro do Rio Vermelho. Numa praça próxima podia-se experimentar o melhor acarajé da Bahia, feito com carinho pela Tia Cida. Não duvidei da recomendação, nem provei a iguaria. Mas imagino que, só em Salvador, deve existir pelo menos uns 20 incontestáveis melhores acarajés da Bahia. O dia chuvoso e o mar revolto que se via da janela do quarto não inspiravam visitas a qualquer um dos lugares que me acompanhavam mentalmente nos últimos dias, lembranças vindas de canções em homenagem à terra. Deitei-me para um breve descanso e quando acordei já escurecia.

Saí então para comer alguma coisa. Voltando ao hotel para dormir novamente, tentando recuperar o cansaço das últimas semanas, avistei, ao lado de um simpático restaurante, uma vitrine com livros. A princípio, pareceu-me um sebo. Entrei e não se tratava exatamente destes modestos estabelecimentos que comercializam livros usados.

Vendiam livros de toda sorte, mas o que me chamou a atenção foi uma generosa estante com livros sobre o candomblé e a cultura iorubá. Livros de arte, fotografia (espetaculares volumes com a obra de Pierre Verger), manuais, dicionários, uma vastidão de publicações muito bem encadernadas, de editoras de todo lugar do Brasil. Interessei-me especialmente por um livro sobre São Jorge. Para minha surpresa, era de uma historiadora de São Paulo, publicado por uma editora carioca, falando da história do santo, os mitos que o envolvem e o Orixá, que no candomblé corresponde a Oxossi e na umbanda a Ogum. Um trabalho de uma profundidade e seriedade impressionantes.

Como sou filho de Ogum – não sei como se descobre esta genealogia, mas já me disseram mais de uma vez – e São Jorge é padroeiro do meu alvinegro todo-poderoso -, fui obrigado a trazer o livro para casa. Observando meu interesse, o vendedor perguntou se eu conhecia o novo CD do Carlinhos Brown. Respondi que não, imaginei algo no ritmo da Timbalada, porém o rapaz se prontificou a colocar algumas músicas. Ouvi melodias bonitas, letras poéticas, uma preciosidade. Mas a grande descoberta, o grande achado naquele singelo lugar, foi uma cantora do Recôncavo Baiano, que o vendedor também fez questão de mostrar – visto que eu não tinha nada para fazer e nem ele, a loja estava praticamente vazia.

Voltei para São Paulo sem visitar nenhum ponto turístico, mas feliz com a descoberta da cantora Mariene de Castro, me deliciando com a história bem contada de São Jorge e pensando que, em terras distantes, mesmo que brasileiras, nada mais interessante do que descobrir, através das mãos dos que lá vivem, as pequena jóias escondidas, os verdadeiros tesouros que não estão escancarados nos cadernos de turismo dos jornais.

01.12.2010

Moacyr Godoy Moreira é escritor, redator de teatro, tradutor e médico. Publica semanalmente crônicas e resenhas na seção “Arte do Tempo” do site http://www.agenciacartamaior.com.br. Publicou, pela Ateliê Editorial, os livros de crônicas Lâmina do Tempo, República das Bicicletas e Ruídos Urbanos.

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