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A crônica de Emir Ross: Rindo à toa

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Rindo à toa, por Emir Ross

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Os brasileiros estão rindo à toa. E isso não deveria ser novidade. É só mais uma coisa à toa que faz-se por aqui. Nos próximos anos bateremos nosso próprio recorde. Faremos duas coisas inéditas à toa. Copa do Mundo e Jogos Olímpicos. Que muitos ignorantemente andam a chamar Olimpíadas. Aqui sequer se aprendeu a diferença entre singular e plural e se quer organizar dois eventos desse porte. Brasileiro é tão apaixonado por esporte que quer organizar todas as Olimpíadas até o fim da existência. Não basta apenas organizar ‘a Olimpíada’ de 2016. Quere-se todas, no plural.

Basta se reparar nas ruas e percebe-se o sorriso nos lábios das pessoas. Sim, nos lábios, afinal os dentes foram dar uma volta à toa. E não retornaram. Aqui se ama incondicionalmente. Até se encontrar um amor mais forte. Então o antigo e incondicional vira uma história à toa. Aqui se trabalha imparcialmente, até o capataz dar as costas, que é a senha para ficar-se à toa. Elege-se políticos que irão mudar a história do país em três meses. Depois, se percebe que deixamo-nos levar à toa.

Tolice.

Há coisas tão à toa, mas tão à toa, que deixam de ser à toa.

Aqui, quando lotam os estacionamentos de festas ou espetáculos, os guardadores de carros invadem as ruas e cobram duas vezes mais que o estacionamento. É pagar ou correr o risco que gastar mais no dia seguinte. Em geral não é um risco. É uma certeza.

Aqui, o nosso programa de televisão favorito acontece nos domingos à tarde. Ele é tão à toa que o apresentador já pediu demissão inúmeras vezes por não aguentar mais fazer programa tão idiota. Não foi aceita. Então ele praticamente pedia para ser demitido no ar, ao vivo, com idiotices tão grandes quanto seu tamanho avantajado. Resultado: audiência aumentou.

Eu também gostaria de estar rindo à toa. Mas ainda não consigo. Ainda busco motivos para rir. E não os tenho encontrado. Talvez os esteja procurando em lugar errado. Talvez deva deixar-me levar pelas Olimpíadas que acontecerão aqui pelo resto da existência ou pelas piadas dos domingos à tarde. O problema é que sempre chega a segunda. E quando acordo cedo na segunda-feira para começar uma semana cheia de energia, escuto as reclamações típicas desse dia, vindas de todos os lados.

À toa, é claro.

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Emir Ross é publicitário e escritor e mora em Porto Alegre. Tem participação em 9 antologias de contos e recebeu mais de 20 prêmios literários. Entre eles, o Felippe d’Oliveira em Santa Maria (3 vezes), o Escriba de Piracicaba (2 vezes), o Luiz Vilela de Minas Gerais (2 vezes), o José Cândido de Carvalho do Rio de Janeiro (2 vezes), o Prêmio Araçatuba, entre outros. Escreve no blog milkyway.terra.com.br.

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Emir Roos publica neste blog na primeira e terceira segunda-feira do mês.

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