Arquivo para 19 de abril de 2012

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Vai rolar na Palavraria, nesta sexta, 20/04: Lançamento do livro O mundo fora de prumo, de José Garcez Ghirardi

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20, sexta, 19h: Lançamento do livro O mundo fora de prumo – Transformação social e teoria política em Shakespeare, de José Garcez Ghirardi (Ed. Almedina)

Shakespeare absorve e revela, com sua genialidade, o embate entre estruturas simbólicas e desejo de expressão. Essa é uma angústia que se manifesta também em nosso tempo. Talvez por isso ele continue tão atual. Talvez também as pessoas estejam lutando por dizer os novos valores da era da informação utilizando o arcabouço simbólico que herdaram da era industrial. A sensação de insuficiência desse arcabouço, que Hobsbawn denuncia em Era dos extremos – o breve século XX (Companhia das Letras, 1996), se manifesta desde as pequenas práticas cotidianas – de que é bom exemplo o teatral de muitas cerimônias de casamento – até as formas mais amplas de organização do corpo político – conforme ilustram os debates sobre o papel do Estado. Neste livro, o autor busca perseguir essa hipótese central, porque acredita que discuti-la ajuda a sociedade a entender melhor algo daquilo a que já se chamou de angústia da condição pós-moderna.

José Garcez Ghirardi é doutor e mestre em Literatura Inglesa pela Faculdade de Filosofia, letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), pesquisa e leciona há mais de vinte anos sobre as conexões entre Shakespeare e a teoria política. Desenvolveu sua pesquisa de doutorando na Wayne State University, em Michigan, nos estados Unidos. Advogado formado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP), é responsável pelo curso de Artes e Direito da FGV, onde leciona desde 2004.

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A crônica de Ademir Furtado: A era do spam

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A era do spam, por Ademir Furtado

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No cruzamento da Borges de Medeiros com a Rua da Praia, em Porto Alegre, um homem enfiado numa roupa escura, com uma Bíblia na mão, proclama, veemente, o fim dos tempos, e a necessidade de remissão de todos os pecadores.  Os passantes, no entanto, prosseguem seus rumos, impassíveis frente à iminência apocalíptica.

Rivalizando com o pregador, um menino entrega prospectos anunciando empréstimo fácil, sem comprovação de renda, com juros baixos. Num espaço limitado pela torrente de pedestres aglomera-se uma turma de oferentes com notícias de boas novas, uma solução para algum problema. Uma mulher veste um cartaz indicando a compra de ouro; o cego com bilhetes da Mega Sena já preenchidos. É uma lista interminável de dádivas tentadoras, ofertas imperdíveis. Esses arautos da sorte cumprem como autômatos uma tarefa, indiferentes à indiferença dos outros. Não se preocupam muito que suas palavras ou folhetos sejam levados pelo vento, ou jogados na lixeira logo adiante.

A esquina é democrática, aceita, resignada, variadas manifestações e promessas de salvação, seja do espírito, ou da conta bancária.  Mas também permite que se passe insensível a tudo isso. Então, um fenômeno torna-se evidente: há um excesso de mensagens no ar e uma carência gritante de respostas. É provável que aqueles transeuntes da Rua da Praia tenham outros motivos de pressa, outros valores a serem resguardados, e por isso não se deixam cair nas tentações da esquina. Sim, eles também estão correndo em direção a um público, a quem vão fazer um comunicado surpreendente. Não importa que suas vozes também se percam na balbúrdia. Palavras berradas ao vento, em lugares públicos, no meio da multidão, hão de atingir ouvidos dispersos.

Os personagens da esquina ainda praticam a técnica rudimentar, quase abandonada hoje em dia, de enfrentar cara a cara seus alvos, talvez pela convicção de que o benefício que trazem é vital.  Mas a necessidade mais premente do indivíduo contemporâneo é mandar seu recado. E a tecnologia, que não é mais do que uma resposta às ansiedades humanas, evoluiu bastante para simplificar a vida e evitar esforços dispensáveis. Basta ter em casa um computador com acesso à internet para se economizar tempo e as cordas vocais, emitindo mensagens aos milhares, entupindo as caixas de entradas de correios eletrônicos, mundo afora.  E ainda se poupa do cansaço que o contato mais íntimo eventualmente exige. Desnecessário empenhar-se no sucesso das mensagens enviadas.  Sempre haverá um receptor ocioso. Resposta? Não carece. O importante é projetar-se, fazer barulho, registrar uma existência, ainda que ínfima. A conquista de um espaço no mundo passa pela manifestação de algo original, mesmo que a originalidade tenha virado uma obsessão coletiva, e se tornado um clichê. E mesmo que a excentricidade não chame mais a atenção de ninguém, afinal de contas, os outros também estão ocupados com sua própria singularidade. As conquistas na área de valores sociais proporcionaram a cada cidadão o direito de falar o que bem entende, mas também o de ouvir apenas o que interessa. Os canais de emissão se multiplicam, mas os de recepção estão bloqueados. Ou, no máximo, permitem comentários com moderação. O spam é o modelo da comunicação na sociedade atual. E o que mais caracteriza as vivências interpessoais é essa gritaria sem fim nas esquinas democráticas.

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Ademir Furtado é autor do romance Se eu olhar para trás (Dublinense, 2011). Escreve no blog http://prosaredo.blogspot.com

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