Arquivo para 14 de maio de 2012

14
maio
12

A crônica de Emir Ross: O maior escritor brasileiro sem obra de todos os tempos

.

.

.

O maior escritor brasileiro sem obra de todos os tempos, por Emir Ross

.

.

Um amigo me disse que não se faz literatura sem público, pois a literatura só é literatura quando dialoga com os leitores.

Eu sou o maior escritor brasileiro sem obra de todos os tempos. Depois explico.

Estive em Buenos Aires para a Feira do Livro. De Buenos Aires, no caso. Jurei que não iria para comprar livros e sim para freqüentar as mesas de debates. Enganei-me, comprei alguns. Mas participei das conversas. Em meio a tanta programação que brotava de salas e palcos e esquinas, parei no Diálogo de Escritores Latinoamericanos. Vários dias e várias mesas discutindo o que se fazia no continente de língua espanhola. Eles têm maior facilidade de diálogo e troca de experiências. Assim como troca de obras. A língua aproxima. Mas, para os autores brasileiros, é uma barreira. A mesma que surge entre eu e minhas publicações.

Os debates desse Diálogo giravam em torno dos novos. E a base para se saber quem são os novos eram os nomes que a Revista Granta publicava cada vez em quando. A Granta recebe inscrições e depois elege os vinte ou trinta futuros grandes escritores em cada língua. Também fizeram a versão portuguesa. A partir de então, a lista entra nos catálogos de mais procurados e por aí vai.

Não me inscrevi. É uma das razões pelas quais continuarei um escritor sem obra.

Meu primeiro prêmio literário veio em 1993. Eu tinha dezessete anos. De lá pra cá, recebi praticamente todos os importantes prêmios literários nacionais. Para escritores sem obra. Para aqueles que devem inscrever-se sob pseudônimo. Até 2009 eu contabilizava cerca de vinte prêmios. Parei de contar após esse número. Certamente hoje passa dos trinta. Repito, são prêmios importantes, reconhecidos e muito disputados.

Ao chegar da Feira de Buenos Aires, uma notícia no meu email.

Fui o primeiro colocado no Prêmio Cataratas de Contos, de Foz do Iguaçu. Era um dos poucos que eu não havia recebido ainda.

Mas não escrevo aqui para mostrar como sou foda. Escrevo para dizer que não me inscrevi na escolha da Revista Granta. Escrevo para dizer que editora alguma ainda aceitou me publicar. Embora eu tenha mandado originais para diversas. Embora os críticos tenham me conferido cerca de trinta importantes premiações. Claro, eu inscrevia-me sob pseudônimo. Eu sou um escritor sem leitores. Um escritor sem obra.

Daqui a cem anos serei motivo de estudo. Algum historiador descobrirá meus originais em arquivos perdidos e fará o que fizeram com Qorpo Santo.

O título: o maior escritor brasileiro sem obra de todos os tempos.

Serei eu.

Espero que editor algum leia este texto. Ele pode acabar com o meu futuro. Assim como acabaria com a grande descoberta de um anônimo e louco historiador do século XXII.

Emir Ross é publicitário e escritor e mora em Porto Alegre. Tem participação em 9 antologias de contos e recebeu mais de 20 prêmios literários. Entre eles, o Felippe d’Oliveira em Santa Maria (3 vezes), o Escriba de Piracicaba (2 vezes), o Luiz Vilela de Minas Gerais (2 vezes), o José Cândido de Carvalho do Rio de Janeiro (2 vezes), o Prêmio Araçatuba, entre outros. Escreve no blog milkyway.

.

Emir Ross publica quinzenalmente neste blog.

.

.

Anúncios



maio 2012
S T Q Q S S D
« abr   jun »
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031  

Categorias

Blog Stats

  • 708.860 hits
Follow Palavraria – Livros & Cafés on WordPress.com
Anúncios

%d blogueiros gostam disto: