Arquivo para 22 de junho de 2012

22
jun
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A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: Epinúmeno: primeiro artefato

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Epinúmeno: primeiro artefato, por Jaime Medeiros Júnior

A vista híbrida de descomeços cheia de esperança queria assentar-se sobre a coisa, mas não tinha paradeiro. Esperava descortinos, mas desconhecia outra sorte que não o vagar intermitente e brando sobre os fotogramas que guardara a muito custo de todo o impreciso que tudo o que havia sido se tornara.

A voz reticente nada sabia além de um desdizer constante. Imperfeito. Perenemente assombrada, desalmada, furiosamente tomada pelas potestades do desabrigo de si. Vitoriosas figuras embaladas no bêbado lavradio do esmaecer de si, agora, nada, senão adormecer.

Acorda. Olhos impolutos e tensos. Bebe da água sobre o escravo mudo. Veste-se da manhã. Sai para a vida. Só, consagra-se a descobrir a velocidade das coisas. No bolso busca a chave. Não esquecera nada?

Ele tinha de ir ao centro. Tudo ainda estava por se fazer. Máquina de despropósitos. Burlas a uma acidez intestina. Graças inverossímeis vindas como que num pespegar notícias em jornal alheio. Prazos. Horas de reclames trôpegas de anúncios a se derramarem sobre ele. Sim, ele contristezado e pronto, bem pronto, de querer ser feliz.

No centro do dia. Confluências de descuidos sós sobram ao trote dos cotovelos que brindam o inequívoco repetir. Repentes consequentes seguem a ordem ominosa da horda. Vejam, contudo, as pululantes vísceras frugais dos que se compartem sem-saberes. A hora é sempre hora da morte. Justa hora das justas de mercado. O que ainda funciona?

Funcionam gonzos gostos gordos de malmequeres bemquerentes carentes de luz.  E vivem não só nele. E despem-se da urdidura. E fundam o fim. Pois os vestígios presumíveis de todo o tolo tesouro, ainda cálido debruça-se sobre o horizonte. E tudo ficou ali, um pouco antes do mergulho. E agora? Somente adormecer.

Jaime Medeiros Jr (1964). Médico pediatra. Escritor portoalegrense. Publicou Na ante-sala (poemas, 2008) e Retrato de um tempo à meia-luz (crônicas, Modelo de Nuvem, 2012). Publica bissemanalmente no blog da Palavraria e no seu blog Simples Hermenáutica.

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