29
jun
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Cartas à Palavraria, por Reginaldo Pujol Filho: O diga xis da questão

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O diga xis da questão, por Reginaldo Pujol Filho

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Mesmo com 40 graus, com um livro que aparece no estoque, mas que a Carla pegou pra ler e não avisou e com dois clientes pagando café com uma nota de 100 (cada um deles), sempre que eu entrava na Palavraria e dizia “bom dia, Seu Carlos” – nos melhores dias, nem precisava eu dizer isso – o Carlos esticava a mão pra mim. Se não houvesse ninguém por ali e as coisas tivessem bem, já comentaria um livro de algum autor português ou moçambicano ou me avisaria que o pessoal já tinha subido pra aula. Lembrei disso porque fui duas vezes ao Porto e não deixei de visitar duas vezes uma das livrarias mais lindas do mundo, segundo rankings que pipocam de tempos em tempos na internet: a Lello. E a Lello não deixa por menos. Toda a equipe também tem um padrão pra receber os clientes. Não é o bom dia. Não é nenhum cumprimento típico do norte português. Basta pisar nesse templo livresco, não precisa nem abrir a boca, que tu já vai ser recebido com um No Photo!. Assim, em inglês, nível internacional. E, como um souvenir da casa, eles vão te distribuindo no photo, no photo, no photo, a cada, no photo, passo, no photo, que, no photo, tu, no photo, der. No photo.

A Lello que, pelo nome, eu imaginava ser de um velhinho simpático, ou de um velhinho rabugento (mas por isso simpático), o Seu Lello, acabou me fazendo pensar no Vinícius, “senão é como amar uma mulher só linda, e daí? Uma mulher tem que ter qualquer coisa além da beleza”. E uma livraria também. E daí que a Lello é a terceira, a segunda livraria mais bonita do mundo, rapaz? Inevitável comparar com outra livraria mega ponto-turístico, a Shakespeare and Company, que tem orgulho de quem frequenta a casa, tem orgulho dos livros que estão lá e, bem, te convida pra dormir. Ou mesmo a Ateneo de Buenos Aires, que é mais grandalhota e tem acervo de megastore, mas tem camarotes pra gente ler. Nos sentimos bem-vindos nesses espaços. Aliás, vivem reclamando que livro não vende e, quando a gente entra na livraria, em vez de dizer, opa, chega mais, se o sujeito para pra olhar uma lombada, é: no photo. A Lello parece uma daquelas mulheres tão bonitonas e tão entusiasmadas com tudo isso que só vão a motel porque tem espelho no teto. Agem como se fossem a Monalisa – embora todos os japoneses tenham uma foto dela. Fico me perguntando, o que eles pensam? Que, se eu tirar uma foto, vou reproduzir uma Lello em Porto Alegre? Em Capão da Canoa, é isso? E se eu copiar a linda escada deles, que é linda mesmo, o que acontece? Acaba a Lello? Bom, lembrem do Vinícius, uma livraria tem que ter qualquer coisa além da beleza. Livros, por exemplo. Gente que goste de livros também. Isso faz muitas livrarias no mundo parecerem lindas pra frequentadores fieis. E a Lello, a impressão que fica, é que, de tanto se preocupar com No photo, no photo, não se preocupa com livros. Os livros meio jogados. Perguntei a uma vendedora onde ficava a sessão de literatura portuguesa e ela disse Nós não (No Photo, pra uma senhora) separamos assim (no photo, pra um grupo), estão (no photo pra mim que olhei pro lado) por ordem alfabética (no photo, prum nenê num carrinho). Achei esquisito, dei toda a volta na livraria, pra descobrir, sim, uma sessão de literatura portuguesa quase do lado do balcão onde a moça continuava roboticamente bipando no photo, no photo, no photo. No understand qualé o negócio deles. Porque eu fiquei sem vontade de olhar mais livros, de comprar livro, de ficar por ali. Querem ser monumento turístico, botem uma catraca, cobrem ingresso e vendam os livros na lojinha de souvenir na saída. E aí acho que eles vão conseguir o que querem: só turistas e não leitores visitando a casa. Porque é a impressão que dá, de que, reforçando a cada olhar esse mítico no photo, eles reforçam o tesão fotográfico do cara que só quer photo. E as pessoas continuam indo lá só pela beleza e pela photo. E daí?

E daí, lembro que, se eu botar Lello no Google, já tem photos lá. Lembro que na Palavraria a Carla tira photos da gente. E lembro que eu quero ir mais uma vez na Lello. Pra ir na sessão dos livros de arte, abrir um livro do Cartier-Bresson, do Robert Capa, do Sebastião Salgado e, quando me disserem  No photo, vou mostrar o livro e rá: Yes photo. A lot.

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Reginaldo Pujol Filho, escritor portoalegrense, é um dos primeiros autores da Não Editora. Tem dois livros de contos publicados, Azar do Personagem e Quero ser Reginaldo Pujol Filho e é o organizador da antologia Desacordo ortográfico. Publicou contos em antologias como 101 Que Contam e Histórias de Quinta (organizadas por Charles Kiefer), 24 Letras Por Segundo (org. Rodrigo Rosp), no Janelas (projeto de cartazes literários dele com o amigo e poeta Everton Behenck) e no youtube. Mantem o blog Por causa dos elefantes.

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