Arquivo para 16 de julho de 2012

16
jul
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A crônica de Emir Ross: Seu Jorge

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Seu Jorge, por Emir Ross

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Por que não leio mais jornais?

Porque dedico três minutos antes das dez para falar com Seu Jorge, o porteiro. Entre seis e oito da manhã, ele lê os quatro tablóides de Porto Alegre. Às sextas, também dá uma espiada na Folha, que um senhor do sexto andar assina. Mas Seu Jorge não gosta da Folha, é difícil de acomodar por trás do balcão.

Seu Jorge é o último plantão noticioso propriamente dito. Ele sabe de tudo. Da roupa que usamos a mais ao sair à assertividade dos planos para nosso final de semana. Também, só de olhar, sabe o que os candidatos a prefeito dirão antes das campanhas começarem.

Estou cada vez mais convencido sobre a eficácia da Sabedoria da Portaria. É o conhecimento e a informação mais sólida que vem se construindo nas areias do século XXI.

Nessas areias contemporâneas, tudo é desmentido. A verdade absoluta morreu. A ciência ou a amante sempre estão aí pra provar o contrário.

Tudo se desfaz no ar. Desde o melhor time de futebol de todos os tempos a tradicionais teorias sobre meio de vida e alimentação vegana.

No século XXI, nada é o que parece. Ou nada é o que é.

Menos a sabedoria do Seu Jorge.

O Seu Jorge é mais preciso que a previsão do tempo. Porque ele lê os quatro jornais e depois dá uma olhada no céu para ver a movimentação do vento e das nuvens.

O Seu Jorge faz melhores roteiros que a CVC. Pois ele sabe a temperatura em cada cidade da Serra ou Litoral, e dirá se as dicas de gastronomia estarão adequadas para a sexta, o sábado e o domingo.

O Seu Jorge cruza informações.

E depois dá seu parecer ajustado ao que aprendera lá no interior de Getúlio Vargas com seu avô.

Ele nunca erra.

Na minha doutrina de vida, estou a abolir gradativamente os jornais e a inserir cada vez mais a Sabedoria da Portaria. Os papelóides sempre repetem os assuntos. Nas férias, quando não posso levar o Seu Jorge, levo um jornal e leio-o todos os dias como se fosse a primeira vez. Após o ponto final, a sensação é a mesma.

Sensação era o motivo para se ler resenhas, críticas, até anúncios fúnebres. Mas a sensação não existe mais. A opinião escafedeu-se junto com o último jornalista. Depois da preguiça imposta pela instantaneidade, apenas sobreviveram as agências de notícias e as assessorias de imprensa que repassam idêntica informação para todos os veículos.

Por isso, invisto no Seu Jorge e na Sabedoria da Portaria. Ela tem suas vantagens, afinal, não vem pasteurizada, promove a interação social e é bem mais higiênica. Por acaso vocês sabem como é produzido o papel jornal e porque ele deixa aquela cor enegrecida nos nossos dedos depois de alguns minutos de leitura?

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Emir Ross é publicitário e escritor e mora em Porto Alegre. Tem participação em 9 antologias de contos e recebeu mais de 20 prêmios literários. Entre eles, o Felippe d’Oliveira em Santa Maria (3 vezes), o Escriba de Piracicaba (2 vezes), o Luiz Vilela de Minas Gerais (2 vezes), o José Cândido de Carvalho do Rio de Janeiro (2 vezes), o Prêmio Araçatuba, entre outros. Escreve no blog milkyway.

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Emir Ross publica quinzenalmente neste blog.

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