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A crônica de Guto Piccinini: Freud explica

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Freud explica, por Guto Piccinini

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Em minhas andanças pelo mundo pós formação em psicologia, não raro escuto a expressão chistosa “Freud explica”, mito em torno deste fenômeno judeu/austríaco/sexual chamado Sigmund Freud. Com o charuto em punho, o nariz nervoso e a genialidade de poucos, direciona especial atenção às relações produzidas na sociedade vitoriana, no caso das mulheres, sintoma de paralisias enigmáticas e gritos histéricos em suas fantasias incestuosas. Já no caso dos homens, do alto de sua soberba, o acúmulo de bens e as dificuldades de sustentação diante de um quadro levemente inclinado para a esquerda. Ousou-se a escuta (e já sabemos o quanto isso não será pouco). “Freud explica”. Chamam-me a atenção os sentidos deste dito. Como se pudesse existir algo a ser explicado! Pelo menos seria esta a esperança, não?

De Viena ao Brasil, tudo indica não haver nenhuma relação de necessidade entre os efeitos da produção teórica freudiana e as variadas áreas de conhecimento dentro, ou fora, da psicologia: haverá sempre algo por detrás e obscuro que poderá ser “descoberto”. Um desconhecido estranho. Um outro que nos habita. No caso de nós, profissionais da psicologia, sempre ganharemos um livrinho maroto sobre os feitos do velho lobo do mar, ou quem sabe uma biografia sobre a influência de sua carreira no estudo do inconsciente. O diploma não-pendurado na parede de meus aposentos confirma esta ironia: a psicologia é quase um sinônimo de Freud, e como ele explica, deve ter algo que eu explico também! Quem será este outro que me habita afinal de contas?!

Retomemos 1900. Freud publica o texto “A Interpretação dos Sonhos”, texto que futuramente seria considerado o texto inaugural da psicanálise. Em nosso olhar atual, presencia-se o advento de um outro modo de se entender o sujeito, fazendo frente ao cogito cartesiano, na medida em que a razão já não será o centro da subjetividade humana. “Penso, logo existo”, dará uma pequena porção ao “Sou onde não penso”, e a assunção do sujeito do inconsciente. Seremos um além desconhecido e com efeitos cotidianos, vide os casos de histeria estudados pelo autor, cuja sintomatologia biológica não encontra respaldo somente no corpo paralisado. Estranho e tão próximo. Nada mais justo a presença e a transcorrência de uma defesa chistosa que aponta para este desconhecido em nós. “Quem mexeu no meu queijo?!!”, indaga o defensor lógico do ordenamento ordenado e da razão precisa. Para todo o restante, Freud explica.

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Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

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1 Response to “A crônica de Guto Piccinini: Freud explica”


  1. 1 nandog
    13 de agosto de 2012 às 11:05

    delicioso exercício.


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