Arquivo para 5 de setembro de 2012

05
set
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A crônica de Guto Piccinini: Contrastes

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Contrastes, por Guto Piccinini

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O tempo é curto, e ele sabe. Talvez não teria outra oportunidade: segundos antes do disparo, olha para o animal que, tomado pelo pré golpe, sussurra nele o âmago do inevitável. “Todo homem terá talvez sentido essa espécie de pesar, se não terror, ao ver como o mundo e sua história se mostram enredados num inelutável movimento que se amplia sempre mais e que parece modificar, para fins cada vez mais grosseiros, apenas suas manifestações visíveis. Esse mundo visível é o que é, e nossa ação sobre ele não poderá nunca transformá-lo em outro”¹. Ele  escuta atentamente. Ele dispara. Pelas 17h de um inverno rigoroso, ele segue pela primeira vez ao banheiro da rodoviária de sua cidade. Um senhor de idade avançada, aparentemente o zelador do local, conversa animadamente com outro senhor que acabara de fazer suas necessidades. Ele escuta a conversa de ambos atentamente, surpreendido com a vivacidade do encontro, ao mesmo tempo em que alivia sua angústia biológica. Fecha as calças, lava as mãos e segue para a saída. Ao passo dos passos lhe irrompe um comentário maroto e jovial, inspirado pelo momento cênico que lhe afeta. Na pausa do instante, o senhor, lacônico, responde no olhar intrigado de um pequeno sorriso amarelo “ou um real, ou cai fora”. Sentado de frente para os pais, com os braços cruzados, ele escuta. Pouco atento às palavras a ele dirigidas, mas preso ao ar afoito dos pais por passarem a nobreza do trabalho e da superação em um passado distante. Impaciente, ele aguarda a saída e o desfrute que lhe proporcionará a mesada, religiosamente repassada, em lanches e pequenos objetos de plástico colorido. Todos os dias ele andarilha pelo campo e pela rede de ruelas de chão batido que compõe a geografia da região. Vagar sereno e descompromissado. De viagem à capital, engolido pelo diferente relevo, por pouco não é atravessado pela manada de carros ao supor a gentileza da passagem corriqueira em seu universo simbólico. Na Buenos Aires do século XIX, ele dança com outro homem, ambos vestidos ao rigor do momento e embalados por um clima de perfume melancólico que paira e permanece. Os olhares se esforçam para um não encontro, mesmo que sorrateiro, enquanto a plateia observa sem nenhuma reação aparente. Ele, encorpado em sua farda militar, olha do alto do palácio real a cidade em seu comando. Toda a ordem e o respeito solene conquistados preenchendo avenidas e vielas, cujas mãos alcançam até os pequenos cantos inimagináveis. Retorna ao interior do palácio, e já em seu quarto beija sua mulher carinhosamente, que lhe sorri. Apagam as luzes e deitam-se na cama com os lençóis manchados de sangue. Frente à imagem especular, ele inveja os grandes peitos que chamam sua atenção na passarela da vida. Após os anos e as dores da operação, sente o peso em suas costas e da conclusão: “desejamos um estranho próximo”. Ele se olha maravilhado com a beleza de seus braços e peitorais definidos, as linhas que desenham os contornos e sutilezas do corpo. Do outro lado da cidade, ele lê um livro e toma um café, maravilhado com as definições abstratas do conceito e os contornos e sutilezas da cena. Deitado no divã, ele fala ininterruptamente a preencher o espaço que cobre o espelho. Sentado na poltrona ao lado, ele se olha, respira sonolento e pede misericórdia a Cronos. Ele se dirige ao sagrado mestre e pergunta sobre o grande segredo da revelação e sentido da vida. Imediatamente o mestre lhe responde, desferindo em um movimento ágil com sua bengala uma porrada na boca do discípulo curioso. Com a boca vermelha do sangue que escorre, ele compreende. Ele escreve. A palavra sutilmente se destaca do grafite incrustado no papel, na performance que toma conta do cenário e da performance. Ele em si se desdobra invaginante. Ele em si. Eu.

1. Do livro “O ateliê de Giacometti”, de Jean Genet

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Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

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05
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Vai rolar na Palavraria, nesta quinta, 06/09: Lançamento da revista Teorema 20

program sem

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06, quinta, 19h: Lançamento da revista Teorema 20.

Teorema 10 anos: 20ª edição

A Teorema chega à sua vigésima edição, comemorando 10 anos de existência.   A revista dedicada à crítica de cinema, impressa e independente, é uma das raras publicações do gênero existentes no País.   A periodicidade ininterrupta deve-se ao empenho e engajamento dos cinco editores fundadores, Fabiano de Souza, Fernando Mascarello, Flávio Guirland, Ivonete Pinto e Marcus Mello, que investiram esforços e recursos financeiros próprios para viabilizar o projeto. Em 2006, Fernando Mascarello deixou a revista, para dedicar-se a outras atividades profissionais. Seu posto logo seria ocupado por Enéas de Souza e, mais tarde, a partir da edição número 19, o time de editores foi reforçado por Milton do Prado.

Neste lançamento, os editores fazem um agradecimento especial ao artista gráfico Flávio Wild, que desde a primeira hora é parceiro do projeto, criando o conceito das capas e trabalhando em todas elas nas 20 edições.

A 20ª ediçãotraz um conjunto de 12 artigos e é complementada por uma longa entrevista com o diretor Carlos Gerbase, que acaba de lançar seu sexto longa-metragem, Menos que Nada. O artigo de abertura é assinado por Enéas de Souza, que analisa Habemus Papam, o mais recente trabalho do italiano Nanni Moretti. A seguir, Marcelo Miranda, um constante colaborador, se debruça sobre Deus da Carnificina, a última exploração do polonês Roman Polanski sobre os atritos de personagens confinados entre quatro paredes. Flávio Guirland analisa Shame, de Steve McQueen, um dos filmes mais comentados da temporada. As diferentes possibilidades e resultados do 3D, encarado por muitos como o futuro do cinema, são focadas nos três artigos seguintes: Suzi Weber e Glênio Póvoas destrincham o documentário Pina, do alemão Wim Wenders; a adaptação de Steven Spielberg do universo do desenhista francês Hergé em As Aventuras de Tintim é objeto de memorialístico texto assinado pelo decano da crítica cinematográfica local Hiron Goidanich, o Goida, também um dos maiores conhecedores do País em quadrinhos; e Milton do Prado comenta a longamente aguardada e bem sucedida incursão de Martin Scorsese no formato em A Invenção de Hugo Cabret. Outro filme muito aguardado, Na Estrada, versão do brasileiro Walter Salles para o mítico romance de Jack Kerouac, é objeto do texto de Fabiano de Souza. A entrevista de Carlos Gerbase é complementada por artigo de Marcus Mello sobre Menos que Nada, abrindo o bloco dedicado ao cinema brasileiro. Neste bloco, o ambicioso Xingu, de Cao Hamburger, é escrutinado por Ivonete Pinto. O primeiro longa de ficção de Marcos Prado,  Paraísos Artificiais, ganha texto assinado por Daniel Feix. E estreando como colaborador, o baiano João Sampaio escreve sobre o oportuno retorno ao cinema de seu conterrâneo Edgard Navarro com O Homem que Não Dormia. Por fim,  a análise de Leonardo Bomfim sobre o legado do cineasta grego Theo Angelopoulos, morto no início deste ano.

A edição especial de Teorema é dedicada à memória de dois importantes diretores brasileiros recentemente falecidos: Carlos Reichenbach e Sérgio Silva. Ambos foram objeto de singulares entrevistas à publicação (Reichenbach na edição número 4, Silva na de número 3), constituindo parte fundamental da história de Teorema.

O que: Lançamento da Teorema edição 20
Quando: Dia 06 de setembro, quinta-feira, a partir das 19h
Onde: PALAVRARIA – R. Vasco da Gama, 165 – F : 51 32684260 – Porto Alegre

QUANTO: R$ 10,00

Editores: Enéas de Souza, Fabiano de Souza, Flávio Guirland, Ivonete Pinto, Marcus Mello e Milton do Prado
Capa: Flávio Wild, sobre imagem de Kate Winslet em Deus da Carnifica, de Roman Polanski
Projeto Gráfico e Editoração: Gustavo Demarchi
Pesquisa de imagens: Renato Cabral

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Aconteceu na Palavraria, nesta terça, 04, lançamento do livro Contos de solidão e silêncios, de Guilherme Cassel

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Aconteceu na Palavraria, nesta terça, 04, o lançamento do livro Contos de solidão e silêncios, de Guilherme Cassel (Editora Bestiário). Fotos do evento.

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A prosa ligeira de Jaime Medeiros Júnior: Do deslocamento [ou da ferida de Zênon],

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Do deslocamento [ou da ferida de Zênon], por Jaime Medeiros Júnior

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Parto de um sim imenso, um sim sem refúgio, um sim presente, um sim sem par. Antes de haver esperança e de se prender o feixe das coisas com este tênue fio de entendimento, ele já sofria de se ser, perene curso do meu e do teu desejo. Mas mesmo assim talvez possa haver algum deslocamento. Ou há alguma descoberta na solidão?

Não sei. Quero me aquietar diante dele. Sonho com outras terras. A flor no vaso. O prato de sopa. A cama no quarto de dormir. O sonho. E, no entanto, todo santo dia o sol inda fere a pele da noite. Será que já sei morrer?

Jerusalém inda está tão distante. Como não estar deslocado, não estar em outra parte? E a luz-menino ainda não se apagou no fim da história? E, contudo, agora já posso dizer, por desventuras de todo cavaleiro, que tudo vem sempre um pouco antes das coisas, nesse sim sem tamanho, que todo santo dia fere a natureza que percebe e que aqui nesse meu olhar te vê.

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Jaime Medeiros Jr (1964). Médico pediatra. Escritor portoalegrense. Publicou Na ante-sala (poemas, 2008) e Retrato de um tempo à meia-luz (crônicas, Modelo de Nuvem, 2012). Publica bissemanalmente no blog da Palavraria e no seu blog Simples Hermenáutica.

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