Arquivo para 19 de setembro de 2012

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Aconteceu na Palavraria, nesta quarta, 19/09: bate-papo com o escritor Marcel Citro

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Aconteceu na Palavraria, nesta quarta, 19: Vozes do sul profundo, bate-papo com o escritor Marcel Citro. Fotos do evento.

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A crônica de Guto Piccinini: Kevin

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Kevin, por Guto Piccinini

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A mulher marcada acorda. Olha em sua volta assustada com a confusão da sala. Levanta, um pouco incrédula do dia. Um corpo. Não há certeza se o instante habita campos oníricos, ou se estes já nos habitam desde sempre. Claros somente os esparsos fios que adentram rubros por entre as frestas. Não são muitos, mas mesmo os poucos que insistem seguem retumbantes e invasivos. Enquanto a busca pelos motivos segue, qual será o sentido de permanecer acordada? De resto, o óbvio: o olhar assustado abraça o movimento metódico (necessário) de um corpo imberbe. Abre-se a porta na sequência da surpresa estática: o vermelho recobre as entranhas e os sulcos mais recônditos. Não há sentido. A cena segue e a felicidade distante sela a conexão total e encobridora. Tudo leva a ele.

Veste-se no carro pelas ruas de normalidade. Veste-se no amarelo neutro rasgado pela guerra de Buñol. Veste-se nos olhos, no apelo e na frieza. É preciso. Enquanto segue, outros seguem. Um pouco atônito e embriagado, vejo de relance um black angel perseguido, referência Massive Attack e a ambivalência. Não há um qualquer movimento explícito ou mesmo um abalo sísmico em massa contra nossa personagem que cambaleia pelo espaço público. São silenciosas agressões, um ardente espinho persistente, um grito solitário, um ovo ridículo. Ali, ela sabe que viver é a punição mais veemente e crua. Como um sonho ruim (não sabemos ainda se acordara de fato), os olhares seguem até a borda e de lá as manchas, ruídos, lembranças. As distâncias lancinantes não chegam perto das sensações de asco das proximidades. Um verdadeiro tributo. Pela narrativa silenciosa, acompanhamos um pouco mais a fundo (esta é nossa possibilidade). Vagamos ao seu lado em silêncio. Tão longe, tão perto. Levemente  horrorizados com o traçado distinto, levantando contornos a cada passo permanente. Cada vez mais atônitos, nos perguntamos: de onde teriam surgido aqueles olhos? Um ato sincero é um ato de violência. O gozo é o uso. O objeto é mortificante.

Acorda. Mais um dia. No caminho pelos encontros esporádicos, um risco de luz permanece nesta ligação ilógica e, novamente, insistente. Um mesmo azul milimétrico no silêncio que precede o caos. O que ela poderia fazer frente às duas inversões: quando sua criança, num mal estar pede aconchego e ensaia um cessar-fogo; ao apagar das luzes, a mesma criança, já mutilada, veste um novo olhar (distinto, mas próximo como nunca o fora). Há dúvida (como em nós). Há dúvida como mãe. Entre o acordar e o permanecer cambaleante, pelas poucas brechas que permitem que a luz entre, como lidar com tanto sangue?

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Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

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