24
set
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A crônica de Emir Ross

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Aprendi a fazer asinhas nos calçados aos oito anos. Antes, para amarrar os cadarços, eu dava vários nós. Quando chegava em casa, não conseguia desfazê-los. Mamãe ajudava.

As mães sempre ajudam. Sempre estão presentes para amenizar os falhaços dos filhos. Acredito ser uma forma de punição por nos terem colocado no mundo. Elas merecem pagar pelo que fizeram.

Eu sempre arranjo formas de punir minha mãe. Não a perdoo. O mundo seria um lugar bem melhor sem mim.

No tempo em que vivia com ela, a punia no inverno. “Mãe, tá frio.”

Ela saía de seu quarto e arranjava outro cobertor para me tapar.

Hoje, puno-a com saudades. Cada tempo usa as armas que possui.

Sou bom. Em armas. Estão sempre engatilhadas. Atiram para todo lado. Por isso o mundo seria um lugar melhor sem mim. Por isso, minha mãe tem de sofrer.

Porque eu atiro. Coloco o dedo na ferida. Ninguém está a salvo. Miro nos melhores amigos. Faço piores inimigos. Pelo simples prazer do disparo. Para ouvir o estrondo.

Gosto dos estrondos.

Porque, depois deles, tudo é silêncio. Ouve-se os pássaros. Os sussurros. Não é preciso que as mulheres gritem durante o sexo. Um simples gemido e já está. Esta é minha sina, gosto dos estrondos.

Das enxurradas.

Da poeira.

Porque tudo passa.

Porque durante o caos todos lembram dos tempos em que eram felizes e não sabiam.

No ser humano, a memória é curta.

A razão dos estrondos serem cada vez mais necessários. Mais uma vez, culpa das mães. Que acordam no meio da noite para arranjar mais um cobertor. Madrugada após madrugada.

É por causa delas que os gatilhos são necessários.

Puna-se.

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Emir Ross é publicitário e escritor e mora em Porto Alegre. Tem participação em 9 antologias de contos e recebeu mais de 20 prêmios literários. Entre eles, o Felippe d’Oliveira em Santa Maria (3 vezes), o Escriba de Piracicaba (2 vezes), o Luiz Vilela de Minas Gerais (2 vezes), o José Cândido de Carvalho do Rio de Janeiro (2 vezes), o Prêmio Araçatuba, entre outros. Escreve no blog milkyway.

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Emir Ross publica quinzenalmente neste blog.

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