Arquivo para setembro \24\UTC 2012



24
set
12

Vai rolar na Palavraria, nesta terça, 25/08: Festipoa Revisitada

program sem

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25, terça, 19h: Festipoa revisitada e sampleada: Conto: espelhamentos e impossibilidades reincidentes, bate-papo com Leila de Souza Teixeira, Lu Thomé e Juarez Guedes Cruz.

Leila de Souza Teixeira, nascida em Passo Fundo (RS), em 1979, é formada em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O interesse por literatura a levou a cursar a Certificação Adicional em Escrita Criativa, na PUC/RS, bem como a participar das oficinas literárias de Charles Kiefer, Luiz Antonio de Assis Brasil e Léa Masina. Publicou contos nas antologias Inventário das delicadezas (2007) e Outras mulheres (2010) e na Revista VOX do IEL/RS (2011). É idealizadora e curadora da Vereda Literária. “Em que coincidentemente se reincide” (2012), seu primeiro livro individual, é um jogo de espelhos, onde, para cada história, há outra que complementa e dá novo significado à anterior. A morte, a doença, os relacionamentos, a guerra, a criação artística: tudo acontece em ciclos, que se repetem e se refletem, mas que não são idênticos.

Juarez Guedes Cruz nasceu e vive em Porto Alegre (RS). É médico, psiquiatra e psicanalista. Além da presença em antologias de contos ou de ensaios psicanalíticos, publicou dois livros de contos: A cronologia dos gestos (2003, vencedor do Prêmio Açorianos) e Alguns procedimentos para ocultar feridas (2007, finalista do Prêmio Açorianos). Também em 2007, foi o organizador da antologia de contos O paradoxo de Tchekov. “Antes que os espelhos se tornem opacos” (contos, Dublinense/2011) é seu livro mais recente.

Luciana Thomé nasceu em 1977 em Lajeado (RS). É jornalista, escritora e sócia da Não Editora (www.naoeditora.com.br). Freqüentou a Oficina de Criação Literária da PUCRS ministrada pelo Professor Luiz Antônio de Assis Brasil. Participou das antologias Contos de Oficina 35 (Editora Bestiário), Ficção de Polpa – Volumes 1, 2 e 3 (Não Editora). Atua profissionalmente como assessora de imprensa e webwriter em sua empresa, o Estúdio de Conteúdo.

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A FestiPoa Literária revisitada e sampleada é a retomada de parte da programação do evento, com a presença de alguns dos escritores que participaram de sua 5ª edição em abril deste ano, e a oportunidade que o público leitor terá de acompanhar a festa literária ao longo de todo o segundo semestre. Temas, reflexões, debates e livros, que estiveram na pauta da última edição, receberão novas abordagens dos convidados, e os escritores revisitarão assuntos e textos seus e de outros autores, contemporâneos ou clássicos.
Conheça a FestiPoa Literária: www.festipoaliteraria.com

E acompanhe as novidades no blog http://festipoaliteraria.blogspot.com/ no facebook/festipoa e no twitter

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Cabaré do Verbo: http://cabaredoverbo.blogspot.com
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24
set
12

A crônica de Emir Ross

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Aprendi a fazer asinhas nos calçados aos oito anos. Antes, para amarrar os cadarços, eu dava vários nós. Quando chegava em casa, não conseguia desfazê-los. Mamãe ajudava.

As mães sempre ajudam. Sempre estão presentes para amenizar os falhaços dos filhos. Acredito ser uma forma de punição por nos terem colocado no mundo. Elas merecem pagar pelo que fizeram.

Eu sempre arranjo formas de punir minha mãe. Não a perdoo. O mundo seria um lugar bem melhor sem mim.

No tempo em que vivia com ela, a punia no inverno. “Mãe, tá frio.”

Ela saía de seu quarto e arranjava outro cobertor para me tapar.

Hoje, puno-a com saudades. Cada tempo usa as armas que possui.

Sou bom. Em armas. Estão sempre engatilhadas. Atiram para todo lado. Por isso o mundo seria um lugar melhor sem mim. Por isso, minha mãe tem de sofrer.

Porque eu atiro. Coloco o dedo na ferida. Ninguém está a salvo. Miro nos melhores amigos. Faço piores inimigos. Pelo simples prazer do disparo. Para ouvir o estrondo.

Gosto dos estrondos.

Porque, depois deles, tudo é silêncio. Ouve-se os pássaros. Os sussurros. Não é preciso que as mulheres gritem durante o sexo. Um simples gemido e já está. Esta é minha sina, gosto dos estrondos.

Das enxurradas.

Da poeira.

Porque tudo passa.

Porque durante o caos todos lembram dos tempos em que eram felizes e não sabiam.

No ser humano, a memória é curta.

A razão dos estrondos serem cada vez mais necessários. Mais uma vez, culpa das mães. Que acordam no meio da noite para arranjar mais um cobertor. Madrugada após madrugada.

É por causa delas que os gatilhos são necessários.

Puna-se.

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Emir Ross é publicitário e escritor e mora em Porto Alegre. Tem participação em 9 antologias de contos e recebeu mais de 20 prêmios literários. Entre eles, o Felippe d’Oliveira em Santa Maria (3 vezes), o Escriba de Piracicaba (2 vezes), o Luiz Vilela de Minas Gerais (2 vezes), o José Cândido de Carvalho do Rio de Janeiro (2 vezes), o Prêmio Araçatuba, entre outros. Escreve no blog milkyway.

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Emir Ross publica quinzenalmente neste blog.

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22
set
12

Programação de 24 a 29 de setembro de 2012

program sem

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25, terça, 19h: Festipoa revisitada e sampleada: Conto: espelhamentos e impossibilidades reincidentes, bate-papo com Leila Teixeira, Lu Thomé e Juarez Guedes Cruz.

Leila de Souza Teixeira, nascida em Passo Fundo (RS), em 1979, é formada em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O interesse por literatura a levou a cursar a Certificação Adicional em Escrita Criativa, na PUC/RS, bem como a participar das oficinas literárias de Charles Kiefer, Luiz Antonio de Assis Brasil e Léa Masina. Publicou contos nas antologias Inventário das delicadezas (2007) e Outras mulheres (2010) e na Revista VOX do IEL/RS (2011). É idealizadora e curadora da Vereda Literária. “Em que coincidentemente se reincide” (2012), seu primeiro livro individual, é um jogo de espelhos, onde, para cada história, há outra que complementa e dá novo significado à anterior. A morte, a doença, os relacionamentos, a guerra, a criação artística: tudo acontece em ciclos, que se repetem e se refletem, mas que não são idênticos.

Juarez Guedes Cruz nasceu e vive em Porto Alegre (RS). É médico, psiquiatra e psicanalista. Além da presença em antologias de contos ou de ensaios psicanalíticos, publicou dois livros de contos: A cronologia dos gestos (2003, vencedor do Prêmio Açorianos) e Alguns procedimentos para ocultar feridas (2007, finalista do Prêmio Açorianos). Também em 2007, foi o organizador da antologia de contos O paradoxo de Tchekov. “Antes que os espelhos se tornem opacos” (contos, Dublinense/2011) é seu livro mais recente.

Luciana Thomé nasceu em 1977 em Lajeado (RS). É jornalista, escritora e sócia da Não Editora (www.naoeditora.com.br). Freqüentou a Oficina de Criação Literária da PUCRS ministrada pelo Professor Luiz Antônio de Assis Brasil. Participou das antologias Contos de Oficina 35 (Editora Bestiário), Ficção de Polpa – Volumes 1, 2 e 3 (Não Editora). Atua profissionalmente como assessora de imprensa e webwriter em sua empresa, o Estúdio de Conteúdo.

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A FestiPoa Literária revisitada e sampleada é a retomada de parte da programação do evento, com a presença de alguns dos escritores que participaram de sua 5ª edição em abril deste ano, e a oportunidade que o público leitor terá de acompanhar a festa literária ao longo de todo o segundo semestre. Temas, reflexões, debates e livros, que estiveram na pauta da última edição, receberão novas abordagens dos convidados, e os escritores revisitarão assuntos e textos seus e de outros autores, contemporâneos ou clássicos.
Conheça a FestiPoa Literária: www.festipoaliteraria.com

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26, quarta, 19h: Lançamento do livro Introdução à Linguística, de Marco Antônio Bomfoco (Editora Brejo).

A linguística procura responder duas questões básicas: “o que é a linguagem?” e “como a linguagem funciona?”. Essas questões são tratadas de maneira diferente pelos linguistas. Há duas tendências principais na linguística moderna: o funcionalismo e o formalismo. Para os funcionalistas, a linguagem é um fenômeno primariamente social, existindo, portanto, conexão entre língua e cultura ou comunidade. Já para os formalistas, a linguagem é um fenômeno natural ou mental. Os formalistas acreditam que ainda que a linguagem tenha funções sociais, essas funções não afetam a organização interna da linguagem. São duas modalidades de conceber a linguagem que estão em constante conflito.

Marco Antônio Bomfoco nasceu em Passo Fundo, em 1966. Licenciado, mestre e doutor em Letras, colaborou em jornais e sítios eletrônicos no Brasil e Estados Unidos. Residiu em diversas cidades brasileiras e em Ancona, Itália. Fez oficina de produção de livros com Paulo Tedesco, escritor e editor gaúcho, e de escrita de trabalhos acadêmicos com Jurandir Malerba, professor e pesquisador da PUCRS. Já publicou capítulo em livro de linguística editado pela UFMG.

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27, quinta, 19h: Lançamento da Coleção Samurai, da Editora Aty, com livros de Marco Celso Viola, Diego Petrarca e Ana Laura.

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Os três livros possuem um design completamente diferenciado dos livros comuns: são feitos com costura japonesa confeccionada artesanalmente, serigrafia e processo de corte especial. Durante o lançamento será realizada uma apresentação de trabalhos visuais no diálogo poema/imagem feitos com os haikais pelos alunos do ensino básico das Escolas Nossa Senhora da Glória de Porto Alegre e Ninho, de Gramado. Além disso, haverá participação do grupo Hoburaco.

Ana Laura Kosby, médica, poeta e editora da revista Iberoamericana de literatura Alef – Editora Aty. Publicou o livro de poesias Surto Poético Delirante, pela editora Corpus, cidade do Porto, Portugal, em 2010.

O poeta gaúcho Marco Celso Huffell Viola começou a imprimir e a expor seus poemas em 1969, iniciando o que a crítica denominou, mais tarde, de geração mimeógrafo. É um dos idealizadores e executores do evento literário Porto Poesia. Publicou os livros Icosaedro, O feiticeiro e a taça, O mistérios da vida, O livro negro dos bardos e Poemas para ler em voz alta”.

Diego Petrarca nasceu em Porto Alegre em 20 de março de 1980. Mestre em Teoria Literária – Escrita Criativa. Publicou três livros independentes: Nova Música Nossa (crônicas) 1998, Mesmo (poesia) 2003, Via Cinemascope (poesia) 2004, e uma edição-xeróx, Banda (poesia) 2002. Premiado em concursos literários. Integrou mais de 11 antologias por editora convencional. Publicou textos e poemas em jornais e revistas. Trabalha em projetos literários: leitura em público, produção de eventos e jornalismo literário. É professor de literatura e ministra oficinas literárias em órgãos de cultura em Porto Alegre.

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28, sexta, 19h: Sarau italiano, com Priscila Meira. Aula experimental do curso Aprenda italiano cantando e recitando poesia.

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Priscila Meira, professora de línguas, compositora de música popular, cantora e atriz, é formada em letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Estudou teatro no Primostudio – Scuola di Attori, na Itália e no Teatro Escola Macunaíma, em São Paulo. Tem produzido e apresentado espetáculos poético-musicais no circuito musical da cidade e foi ganhadora do prêmio de Melhor Letra do Festival de Música de Porto Alegre em 2010. Em 2007, em Milão, gravou seu primeiro CD autoral, Priscila Popular Brasileira.

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21
set
12

Vem aí, na Palavraria, em outubro: Curso de língua Italiana, com Priscila Meira

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Cursos e Oficinas na Palavraria

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Curso Aprenda italiano cantando e recitando poesia

Com Priscila Meira

A partir de outubro de 2012, duas turmas:

Grupo de Adultos: segundas-feiras, das 19h às 21h
Grupo de crianças: quartas-feiras, das 15 às 17h

Aula experimental no dia 28 de setembro, sexta, às 19h
Entrada franca

Informações & inscrições: com Priscila Meira, 9346 9545 ou priscilameira@hotmail.it

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Priscila Meira, professora de línguas, compositora de música popular, cantora e atriz, é formada em letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Estudou teatro no Primostudio – Scuola di Attori, na Itália e no Teatro Escola Macunaíma, em São Paulo. Tem produzido e apresentado espetáculos poético-musicais no circuito musical da cidade e foi ganhadora do prêmio de Melhor Letra do Festival de Música de Porto Alegre em 2010. Em 2007, em Milão, gravou seu primeiro CD autoral, Priscila Popular Brasileira.

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19
set
12

Aconteceu na Palavraria, nesta quarta, 19/09: bate-papo com o escritor Marcel Citro

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Aconteceu na Palavraria, nesta quarta, 19: Vozes do sul profundo, bate-papo com o escritor Marcel Citro. Fotos do evento.

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19
set
12

A crônica de Guto Piccinini: Kevin

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Kevin, por Guto Piccinini

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A mulher marcada acorda. Olha em sua volta assustada com a confusão da sala. Levanta, um pouco incrédula do dia. Um corpo. Não há certeza se o instante habita campos oníricos, ou se estes já nos habitam desde sempre. Claros somente os esparsos fios que adentram rubros por entre as frestas. Não são muitos, mas mesmo os poucos que insistem seguem retumbantes e invasivos. Enquanto a busca pelos motivos segue, qual será o sentido de permanecer acordada? De resto, o óbvio: o olhar assustado abraça o movimento metódico (necessário) de um corpo imberbe. Abre-se a porta na sequência da surpresa estática: o vermelho recobre as entranhas e os sulcos mais recônditos. Não há sentido. A cena segue e a felicidade distante sela a conexão total e encobridora. Tudo leva a ele.

Veste-se no carro pelas ruas de normalidade. Veste-se no amarelo neutro rasgado pela guerra de Buñol. Veste-se nos olhos, no apelo e na frieza. É preciso. Enquanto segue, outros seguem. Um pouco atônito e embriagado, vejo de relance um black angel perseguido, referência Massive Attack e a ambivalência. Não há um qualquer movimento explícito ou mesmo um abalo sísmico em massa contra nossa personagem que cambaleia pelo espaço público. São silenciosas agressões, um ardente espinho persistente, um grito solitário, um ovo ridículo. Ali, ela sabe que viver é a punição mais veemente e crua. Como um sonho ruim (não sabemos ainda se acordara de fato), os olhares seguem até a borda e de lá as manchas, ruídos, lembranças. As distâncias lancinantes não chegam perto das sensações de asco das proximidades. Um verdadeiro tributo. Pela narrativa silenciosa, acompanhamos um pouco mais a fundo (esta é nossa possibilidade). Vagamos ao seu lado em silêncio. Tão longe, tão perto. Levemente  horrorizados com o traçado distinto, levantando contornos a cada passo permanente. Cada vez mais atônitos, nos perguntamos: de onde teriam surgido aqueles olhos? Um ato sincero é um ato de violência. O gozo é o uso. O objeto é mortificante.

Acorda. Mais um dia. No caminho pelos encontros esporádicos, um risco de luz permanece nesta ligação ilógica e, novamente, insistente. Um mesmo azul milimétrico no silêncio que precede o caos. O que ela poderia fazer frente às duas inversões: quando sua criança, num mal estar pede aconchego e ensaia um cessar-fogo; ao apagar das luzes, a mesma criança, já mutilada, veste um novo olhar (distinto, mas próximo como nunca o fora). Há dúvida (como em nós). Há dúvida como mãe. Entre o acordar e o permanecer cambaleante, pelas poucas brechas que permitem que a luz entre, como lidar com tanto sangue?

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Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

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16
set
12

A crônica de Gabriela Silva: Da última vez que perdi o sono

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Da última vez que perdi o sono, por Gabriela Silva

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Algumas noites atrás eu perdi o sono e fui pegar um livro na estante para me distrair. Peguei Hamlet, como se nunca o tivesse lido antes. Ele fica mesmo perto da minha cama, na prateleira sobre a mesa. Sempre esteve no mesmo lugar, desde os tempos em que eu morava na casa de minha mãe. Aliás, sou assim, as coisas para mim têm lugar, elas precisam de um lugar. E quando eu as troco, sem querer, me perco toda dentro de casa à procura delas. Bem, Hamlet, vamos a ele. Eu contava que peguei o livro na estante. É o mesmo desde a época da faculdade: coleção pocket da L&PM, tradução do Millôr Fernandes. Todo marcado, cheio de anotações da aula da Mara Jardim, que me apresentou o livro. Depois da leitura desse drama nunca mais fui a mesma pessoa. Ele me tomou de assalto, complicou minha vida e eu que era um coração simples me tornei muito desconfiada e crítica.

Gosto de pensar em todas as coisas que ali estão: dos solilóquios, das maquinações de Hamlet, do desencontro de realidade e desespero de Ofélia, do modo simplório como agem Guildenstern e Rosencrantz, da vulnerabilidade de Gertrudes, da vilania de Cláudio e da suscetibilidade de Polônio. “A invenção do humano está nos textos de Shakespeare”, disse certa vez crítico sobre a obra do dramaturgo inglês.  E está tudo lá mesmo nas linhas de suas peças.

E fiquei pensando, folheando esse livro que é uma edição pequena, antiga e que me apresentou o mundo. A partir dele não pude mais me distanciar da literatura, por que criei para mim mesma uma fome, demasiado grande e insaciável de querer entender o mundo através dos livros.

Com a memoria das aulas que dei sobre Hamlet, das muitas vezes que escrevi sobre ele, das aulas da faculdade que eu ansiava a cada semana para ouvir sobre Hamlet, veio uma lembrança em especial. Lembrei-me de minha melhor amiga, desde os tempos de escola. Por que pensei em Horácio, na sua fidelidade e na presença na vida do perturbado amigo. Minha amiga é minha versão de Horácio. Ela me ouve com total atenção, me pede calma para a vida e me ajuda com os fantasmas.

Amigos são diferentes uns dos outros: críticos, azedos, mal-humorados, engraçados, quietos, acolhedores e austeros. Não são poucas as amizades representadas na literatura, depois eu escrevo mais sobre isso. Mas eu gostava de contar um fato, que me fez pensar mais ainda nessa minha amiga Horácio. Contava-lhe eu de mal fadadas ações do mês de agosto, com detalhes, pois ela adora detalhes. Depois de um acesso de riso, que eu mesma não resisti e cai na gargalhada junto, ela me diz: “não sei o que te dizer Gabi.” E ficamos em silêncio, olhando para o chão. Depois de alguns minutos eu disse: “não há o que dizer.”

Elsinore já havia sido invadido mesmo, Fortimbrás já estava na sala principal do castelo. Mas eu me senti tão consolada por ela estar ali, por ela ser quem é. Ali, naquela tarde, tudo se encerrou, tudo virou ficção. Eu não precisava mais me perguntar o porquê, ou me sentir isso ou aquilo. E já que o resto é silêncio mesmo, aproveitamos e comemos mais um pedaço de bolo, demos mais umas risadas e eu prometi trazer histórias melhores da próxima vez.

Acabei dormindo com Hamlet nos braços (feliz trocadilho), na manhã seguinte, ao arrumar a cama e ir colocar o livro na estante eu pensei: que bom que muitas coisas não mudam e que eu posso encontrá-las sempre no mesmo lugar.

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Gabriela Silva tem literatura no seu dna. Desde a infância convive com homens e deuses e as histórias que lhe contam. É formada em Letras, estuda o mal e a morte na literatura e todas as teorias conspiratórias e literárias. É doutoranda em Teoria da Literatura na PUCRS, tendo como foco a construção da personagem. Entre outras atividades, coordena atualmente o grupo que organiza e apresenta mensalmente o Sarau das 6, programa de leituras e comentários literários, na Palavraria.

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setembro 2012
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