03
out
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A crônica de Guto Piccinini: A Balloon Maker

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A Balloon Maker, por Guto Piccinini

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A cena: sentado num destes sábado à tarde na palavraria lendo um artigo qualquer sobre qualquer outro destes assuntos importantes que alguém tenta provar por aí; um destes sábados que a gente reserva a culpa por não ter produzido ao longo da semana; um sábado. Ensolarado, aconchegante com um calor ameno e azul. Um belo azul, diga-se de passagem. Criei o costume de escutar música enquanto leio como uma forma de não escutar o que o povo conversa por aí. A única condição é que sejam cantadas em inglês, cujo pouco saber (ou atenção) me permite a ignorância de sentido e, portanto, um foco direcionado às outras palavras que correm soltas pelos olhos. Tal qual o estudo em qualquer espaço barulhento, cuja indefinição das conversas destitui a audição em um ruído que se assemelha ao silêncio. Um silêncio-ruído. Estranho este exercício de imersão. Já há um tempo que venho namorando com as palavras. A escrita tem me causado assombros de afeto, um despertar para algo que nem estava por lá. Um inexistente que dormia. “No fundo da casa havia um rio”. Havia um corpo todo meu. É um tipo de escrita. Uma diferença que marca o sensível à significância do símbolo. Uma experiência no mínimo singular, sem dúvidas. Detalhe que passei os últimos dois anos envolvido com uma escrita mais técnica (dentro do meu possível ao menos). Mas algo desta cena difere. Como um voo alçado sem destino. Evidentemente que podemos produzir academicamente de diversos modos, com o corpo inteiro envolvido afetivamente e não somente pela busca de uma racionalidade neutra, ou pretensamente neutra. Pela indiferença talvez? Enfim, um voo em experiência, uma busca de novos sentidos(res). Expressão. A cena: dançando com a poesia pela palavra solta maroteando em todos os cantos; olhando para os detalhes indecisos, ressoa a indiscrição dos rompantes; em meio o concreto, dobraduras. Em certa medida serve para calar a palavra séria. Uma distração para os momentos de atenção focada, um desvio ao uso do tempo, um erro pela errância. Ali onde as palavras se misturam e se conectam de formas desconcertantes. “He was a great Balloon Maker”. Sometimes. É pelo estranho próximo que a paixão reina. Porque seria diferente?

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Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

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