Arquivo para 28 de novembro de 2012

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A crônica de Guto Piccinini: Sobre a morte (3)

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Sobre a morte III, por Guto Piccinini

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Estávamos a caminho. Falávamos pouco, como sutil estratégia para não perder o fino equilíbrio conquistado após as primeiras horas do baque. Não é preciso presenciar a cena para ouvirmos o corpo caindo. Ele cai nos olhos das pessoas queridas, ele cai na expressão de uma dor sem sentido, de uma dor sem destino certo. Permaneço na estratégia (mais seguro, penso). Algo em mim dói um pouco também, não autorizo a saída, permaneço na estratégia. Seguimos como se pode. Não é muito, mas por hora, o suficiente. Chegamos.

Na saída do carro, no caminho até o encontro inevitável, sou levado pelo assombro da curiosidade. Confesso, um pouco fora de hora, mas é engraçado como a memória persiste em momentos onde a palavra é puro desconforto. É preciso urgente procurar sentido, onde o sentir é um mar que nos invade sem escrúpulos. A ilusão do abraço é o conforto ambíguo, embora inevitável. Um leve carinho ao redor da ponta do dedo, um sorriso marejado. Fico surpreso com estes finos movimentos que encontram no corpo do outro um destino possível. Algo permanece nesta dança silenciosa, onde o acordo tácito é estar presente, por si e pelos outros. Alguns dias após este encontro inevitável, li uma frase de Freud que reavivou a memória sobre este dia. Dizia ele que a existência da alma poderia estar relacionada a permanência na memória das cenas, histórias e acontecimentos. Como falar da passagem, sem a permanência? A ausência é a marca de uma presença que falta.

Habitávamos as incongruências de mais um dia. Ela me olha e chora, sente um pouco de vergonha (eu sei: eu sinto, e ela me diz), e eu digo o que é preciso ser dito. Conta que todos os dias, por volta das seis horas da tarde, ele caminhava do centro até sua casa carregando consigo uma sacola recheada de caquis. Diz ela que, quando mais nova, comeu tantos que passou um bom tempo sem poder sentir o cheiro. Não deixo de pensar que a beleza desta caminhada não se encerra, ainda que nos demos conta, e vomitamos, que um caqui nunca mais será o mesmo.

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Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

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Vai rolar na Palavraria, nesta quinta, 29/11: Lançamento da revista Rabisco 2

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29, quinta, 19h: Lançamento da Rabisco 2 – Revista de Psicanálise.

Este volume 2 da Revista Rabisco é dedicada ao pensamento  de Anna Freud e André Green. A proposta é favorecer um campo de expressão onde suas contribuições possam ser pensadas e repensadas. Estes dois autores, com obras distintas, têm em comum o fato de terem sido profundamente marcados pela história institucional da psicanálise, sem que isto inibisse suas capacidades de contribuição para o desenvolvimento da psicanálise.

Anna nascida em Viena, em três de dezembro de 1895, contemporaneamente à psicanálise; talvez, simbolicamente, as duas “filhas gêmeas” de Sigmund Freud. A obra de Anna Freud expressa características de uma ciência que se transformava, mas que ainda precisava zelar por sua continuidade.

André Green nascido no Cairo, em 12 de março de 1927, faz parte de uma geração que, apesar dos embates políticos das diferentes correntes da psicanálise, já podia arriscar conceitualmente.

Ambos essenciais para que a psicanálise de hoje seja consistente e, na mesma medida, flexível, capaz de suportar as diferenças e somar contribuições.

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