28
nov
12

A crônica de Guto Piccinini: Sobre a morte (3)

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Sobre a morte III, por Guto Piccinini

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Estávamos a caminho. Falávamos pouco, como sutil estratégia para não perder o fino equilíbrio conquistado após as primeiras horas do baque. Não é preciso presenciar a cena para ouvirmos o corpo caindo. Ele cai nos olhos das pessoas queridas, ele cai na expressão de uma dor sem sentido, de uma dor sem destino certo. Permaneço na estratégia (mais seguro, penso). Algo em mim dói um pouco também, não autorizo a saída, permaneço na estratégia. Seguimos como se pode. Não é muito, mas por hora, o suficiente. Chegamos.

Na saída do carro, no caminho até o encontro inevitável, sou levado pelo assombro da curiosidade. Confesso, um pouco fora de hora, mas é engraçado como a memória persiste em momentos onde a palavra é puro desconforto. É preciso urgente procurar sentido, onde o sentir é um mar que nos invade sem escrúpulos. A ilusão do abraço é o conforto ambíguo, embora inevitável. Um leve carinho ao redor da ponta do dedo, um sorriso marejado. Fico surpreso com estes finos movimentos que encontram no corpo do outro um destino possível. Algo permanece nesta dança silenciosa, onde o acordo tácito é estar presente, por si e pelos outros. Alguns dias após este encontro inevitável, li uma frase de Freud que reavivou a memória sobre este dia. Dizia ele que a existência da alma poderia estar relacionada a permanência na memória das cenas, histórias e acontecimentos. Como falar da passagem, sem a permanência? A ausência é a marca de uma presença que falta.

Habitávamos as incongruências de mais um dia. Ela me olha e chora, sente um pouco de vergonha (eu sei: eu sinto, e ela me diz), e eu digo o que é preciso ser dito. Conta que todos os dias, por volta das seis horas da tarde, ele caminhava do centro até sua casa carregando consigo uma sacola recheada de caquis. Diz ela que, quando mais nova, comeu tantos que passou um bom tempo sem poder sentir o cheiro. Não deixo de pensar que a beleza desta caminhada não se encerra, ainda que nos demos conta, e vomitamos, que um caqui nunca mais será o mesmo.

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Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

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