Arquivo para 1 de dezembro de 2012

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A crônica de Clarice Müller: Simplesmente João

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Simplesmente João, por Clarice Müller

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Vidraceiro, fumageiro, jornalista, industrial, minerador, impressor, acadêmico, tabelião, comerciante, capitão da guarda, escritor. Não seria por falta de idéias que Netinho, como a ama o chamava, deixaria de fazer sucesso nas bandas de Pelotas, onde nasceu nos idos de março de 1865.  Terceiro na linhagem dos Lopes, desde piá o guri não sossegava, inventando de tudo pra não sair de perto da peonada, para desgosto da viscondessa, mais orgulhosa do título que do neto, para o qual, de resto, não via muito futuro.  Mesmo assim, mandou que caprichassem na bagagem que o acompanhou ao Rio de Janeiro quando a puberdade no meio da bicharada tornou-se mais incômoda do que educativa. A capital federal haveria de ensinar-lhe os modos que os meios exigiam. Ensinou-lhe muito mais do que isso. A começar pelo clima. O calor constante, que no início não o deixava dormir, com o tempo foi amansando-lhe o corpo, relaxando os nervos, desobstruindo caminhos que sequer sabia existirem. E que se intensificaram expressivamente quando conheceu Olavo, com quem viria a compartilhar os bancos na faculdade de medicina, poemas discutíveis e, segundo as más línguas, muito mais do que línguas. Presença constante nas soirées promovidas por Machado, presença infalível nos teatros e cabarés da Lapa, João não se fazia de rogado quando o entrudo tomava as ruas e poás e lantejoulas substituíam o pincenê que o deixava mais vesgo ainda. Nessas horas a descontração era total, com a dupla Joanita & Bilaquinha causando tanto furor que o velho visconde não teve outra saída a não ser trazê-lo de volta ao hospitaleiro ar das charqueadas sulistas. Com a desculpa de saúde frágil, ficou sob a asa materna até que o avô lhe arranjasse a esposa que assegurasse a honra e a progênie que nunca veio. João fez a sua parte. Deixou crescer o bigode, passou a usar óculos e, do antigo amor, preservou apenas o vício de comer negrinhos a qualquer hora do dia. E umas odes líricas muito bem guardadas no forro de um antigo chapéu, hoje no museu histórico franco-pelotense. No mais, austeridade total. A única foto que escapou da destruição movida por Francisca, ao suspeitar das longas viagens empreendidas por seu marido com o capataz Blau, mostra um homem sisudo, rosto afilado, olhar baço, idade indefinida, sem atrativos aparentes. A obra literária que legou a seus conterrâneos, porém, revela um homem de fina verve, irônico, astuto e observador como poucos. A construção de tipos como Romualdo, os ‘causos’ por ele narrados em linguagem popular, sem meias palavras, a imaginação brotando intensa em cada linha, a fantasia que se assenhora da narrativa sem preocupação formal, fluindo vívida aos olhos do leitor, tudo leva a crer que o escritor manteve viva a chama que conheceu em terras cariocas e que prematuramente teve que relegar ao abandono. Rompendo uma tradição europeizante voltada ao cultivo dos valores mais aristocráticos, e focando a narrativa em seres até então sem a menor expressão social, as histórias geradas em sua terra natal (publicadas postumamente) passam a ser entendidas como elegias ao bravo homem do campo, seus costumes e raízes. Uma nova vertente acadêmica sustenta, porém, com base em diários encontrados num prédio em demolição, que João criara tais tipos com intuito de ridicularizar a cultura grosseira em que fora criado e que era incapaz de reconhecer o valor de um homem como ele, constantemente escarnecido pelos gestos e voz delicados, pelo sotaque levemente afrancesado que fazia questão de cultivar e até mesmo pelo hábito de vestir a mais fina casimira inglesa quando em inspeção pelo campo. “La revanche de la ‘biche’” seria o título mais adequado à obra do escritor, segundo essa tese.  Louvação ou crítica, elogio ou deboche, o fato é que João Simões era um ser atormentado, que se envolvia em empreendimentos de todo tipo, sempre em busca do quê não se sabe, tamanha a diversidade de suas invectivas. Riqueza? Prestígio? Conhecimento? Poder? O vidraceiro, fumageiro, jornalista, industrial, minerador, impressor, acadêmico, tabelião, comerciante e capitão fracassaram em sua tentativa de resposta, conhecendo a morte aos 51 anos de idade, em completa pobreza, sem deixar semente. O escritor, porém, sobreviveu a todos. Pena que vingança seja prato que se come frio.

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Clarice Müller é natural de Porto Alegre, onde já trabalhou como atriz, bancária, servidora pública e escritora quando a inspiração permite. Participou das oficinas de criação literária de Charles Kiefer e Luis Augusto Fischer e publicou, em conjunto com o também escritor Cláudio Santana, o livro de narrativas curtas VEROVERBO. Atualmente auxilia o amigo Fernando Ramos na coordenação da FestiPoa Literária e outros projetos afins. Ocasionalmente escreve no blog http://verbovero.blogspot.com.br/

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