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A prosa ligeira de Jaime Medeiros Júnior: Breves considerações sobre uma leitura de Se um viajante numa noite de inverno de Ítalo Calvino

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Breves considerações sobre uma leitura

de Se um viajante numa noite de inverno de Ítalo Calvino

 

Por que escolhi ler este livro? Primeiramente porque Ítalo Calvino habitava o rol daqueles autores que são por mim mui admirados, e, contudo, pouco lidos. Explicando-me melhor, havia lido alguns ensaios de Por que ler os clássicos, algumas Cosmicômicas, e algum que outro dos seus contos. Guardei bons sentimentos. Depois, amigos, que tenho na conta de bons leitores, sempre faziam arrebatados elogios ao autor, e muitos especificamente a Se um viajante numa noite de inverno. Além disso, quando arguidos sobre o tema do livro, todos estes referidos amigos, calavam-se mantendo-se dentro dos limites de um sorriso sensível. Outro motivo, do qual me dou conta só agora no momento em que me ponho a escrever estas considerações, este foi um dos últimos livros que minha mãe leu com real contentamento.

Podemos agora começar a jornada de Se um viajante. E aqui a palavra jornada parece nos remeter direto ao clima mítico heroico em que se inscreve o livro. Talvez este tenha sido o motivo, de que mesmo sem planejar, vez ou outra me pegasse a lê-lo em voz alta. E, ao mesmo tempo, temos também um livro feito em matriz moderna, que não se esquiva de se utilizar de aparatos metalinguísticos para a construção do romance. Haveremos de descobrir por aqui, pois que a tudo permeia, uma verve irônica que não nos desmonta, mas que, de certo modo, até mesmo nos ergue, redime.

Mas se temos aqui a jornada de um herói, precisamos saber quem são os nossos protagonistas. O autor nos brinda com o casal Leitor e Leitora. E a narrativa se conduzirá na forma de uma fingida conversa entre o autor e o Leitor, fingida por que ouve-se só a voz do autor nesta conversa. Aqui estamos na bruma dos inícios e o autor escolhe um tom cinzento, incapaz de dar rosto ao nosso herói, e que nos leva, mesmo que sem sentir, a emprestar algo nossos próprios olhos, ouvidos, nariz e duas ou três lascas de nosso coração a este herói que passamos curiosamente a seguir.

Se a jornada de um herói se começa nas incertezas de um primeiro gesto, ela tem um percurso, e se destina à realização [a um fazer] da obra. Qual há de ser a obra de um leitor, senão ler? Mas todo herói há de travar algum embate para consecução de sua obra. Portanto nosso herói também terá de conhecer inimigos e que, neste caso, habitam o mais comezinho de nosso mundo.

Aqui haveremos de nos defrontar com todas as provas, peripécias, a que se sujeita passar um herói. O que nos conduz ao mundo mítico da repetição. Que nos obriga a entender que toda obra se faz de ritmo, marcação e tempo. Repetição que tem a ver com a experiência de estar condenado, de se viver uma sina. Há de se realizar os doze trabalhos. Mas o que será que está a se repetir por aqui? Já que as histórias porque passa o Leitor são sempre novas. O que aqui se repete é um mesmo mecanismo, que nos aprisiona neste movimento pendular entre a expectativa e a frustração, entre o prazer e a dor, entre a vida e a morte. Toda história em que se embrenha o leitor-herói se interrompe abruptamente, frustrando sempre e novamente suas expectativas. Este é o aspecto mítico da repetição.

De outro lado [e só agora, após o encontro do grupo de leitura, quando me ponho a escrever, é que me dou conta disso], poderíamos opor esta repetição que aprisiona àquela repetição que ensina, que nos redime, que nos liberta – Aqui é bom lembrar a pergunta que Calvino faz no apêndice de Se um viajante: Será mesmo que estas histórias não acabaram? Será que já não alcançaram seu fim? Elas não poderiam ser coligidas num volume de contos e serem aceitas em seu próprio metro? O que, talvez, nos levasse a concluir que o que nos frustra não é a história em si, mas a nossa expectativa de que não acabasse ali, mas sim um pouco mais adiante – Será esta a repetição que ainda nos levará a tentar saltar por sobre o abismo em direção ao outro, instaurando-se uma nova ordem, onde não há mais vítima para o sacrifício. Esta é a repetição de quem imita conscientemente seu mestre. Aqui o herói se entrega conscientemente a morte e dela há de tornar inda mais consciente [como todo herói que se preze, que sempre há de visitar o mundo inferior e dele tornar, veja-se os casos de Héracles, Odysseus, Orpheu, Teseu e Psiquê]. Aqui o herói se abandona ao fluxo da vida. E é, somente, esta experiência que há de nos conduzir a uma outra visão das coisas do mundo, pois se antes víamos apenas os pedaços, as partes, agora alcançamos ver o todo, inteiro. Por fim, tudo ganha outro sentido. E o Leitor, então, já pode pôr fim a jornada de Se um viajante numa noite de inverno de Ítalo Calvino repousando o livro sobre o criado-mudo.

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jaime medeiros júniorJaime Medeiros Jr (1964). Médico pediatra. Escritor portoalegrense. Publicou Na ante-sala (poemas, 2008) e Retrato de um tempo à meia-luz (crônicas, Modelo de Nuvem, 2012). Publica bissemanalmente no blog da Palavraria e no seu blog Simples Hermenáutica.

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