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A crônica de Jeferson Tenório: Das vezes que parti sem dizer adeus

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Das vezes que parti sem dizer adeus, por Jeferson Tenório

 

Sempre achei que alguém deveria escrever a história dos pais separados que vão visitar seus filhos. Dos pais que convivem diariamente com a falta. Uma história dos pais fracos que enjoam nos ônibus e que tem medo de avião. Tenho um filho.  Nome dele é João. Não mora comigo.  Vive em Santa Catarina. Uma vez por mês viajo para vê-lo. Ele ainda não completou três anos. Nas primeiras viagens, cada vez que o ônibus fazia uma curva eu quase vomitava. Passados três anos e dezenas de idas e vindas na BR 101, construí uma fortaleza no estomago. Dostoiéviski tinha razão: A maior qualidade de homem é o de se habituar a tudo. Eu, no entanto, ainda não domei os aviões.

Antes de mais nada quero adiantar que não sou escritor. Um escritor escreve. Eu escrevo, mas não me sinto um profissional nisso. Por outro lado, creio que não preciso da chancela de um editor para continuar escrevendo. Não tenho idéia se o que escrevo é bom. Embora eu devesse saber disso, pois ensino literatura. Sou formado em Letras e isso parece me autorizar a criticar o texto dos outros. Já imitei muita gente antes de desistir de ser escritor. Agora eu tenho um diário e isso me basta. Este texto é um fragmento dele. Não vivo de escrever. faço rascunhos e observo as coisas. Estou bem assim. Com o tempo a gente aceita a possibilidade de não ser mais um vencedor e de querer dizer as verdades.

Como não sei se escrevo bem, criei uma espécie de máquina dentro de mim que chamo de “autocrítica”. Eu a treinei para captar as besteiras que ponho no papel. Mas às vezes a máquina falha e passo a ter menosprezo por algumas palavras que saem da minha cabeça e é isso que me dói. Antes me doía não ser bom como o Dostoiéviski, agora só me dói não ter o que dizer quando preciso dizer.

Meu filho está crescendo longe de mim. Não quero drama nem lamentações, por isso tenho este diário. É o meu modo de preencher a falta. Sei que o que escrevo não é nada perto de tudo que já se fez. O que não faz dessas palavras algo menos importante, pois este texto será lido por algumas pessoas, alguns amigos e talvez meu filho. Para mim, o João lendo, é o suficiente. Sinceramente, não sei se o que acontece na nossa vida é uma história que merece ser contada. Nem sei se tenho uma história para contar. Não sei se este diário vale apena. O que sei é já tive de voltar à Porto Alegre em silencio com um pranto amarrado nos olhos  ao sair escondido, porque não queria ver o João chorar na despedida.

Um dia eu pensei que pudesse escrever um romance para matar a ausência do meu pai, e depois me tornar um homem. Dizem por aí que a gente só cresce quando mata o pai. Acho besteira. Quando estou no ônibus e vejo a escuridão lá fora, sinto medo. Quando estou em um avião, tenho medo. Um medo infantil, idiota, como todos os medos. Portanto, acho que a gente pode matar o pai milhares de vezes, mas o fato é que a gente nunca cresce.

Eu nunca pensei em ser pai. Sempre achei que ter um filho era uma coisa para os outros. Eu tive um colega na escola, o André. Ele teve um filho quando estava no ensino médio. O André parou de estudar e eu fui no hospital ver a criança. Foi assustador. O André só tinha 16 anos. A mãe tinha 15. Todos diziam que eles tinham estragado o futuro deles. Ainda acompanhei o André por algum tempo. Ele trabalhou em um posto de gasolina da BR. Um ano depois eles se separam e o André começou a pagar uma pensão, mas nunca mais quis ver o filho. Agora ele tem outra família, tem mais dois filhos. E assim é.

Também nunca achei certo a gente obrigar alguém a nascer, vir para cá tomar bofetadas da vida o tempo todo. Mas somos teimosos e acreditamos que a vida é boa. Por outro lado, os filhos nos salvam. O João vai fazer três anos e não sabe, talvez demore a saber, mas ele me salvou da pior ciosa que uma pessoa pode carregar: o egoísmo. Acho que só consigo experimentar o que é alteridade quando tenho o João em meus braços. Com ele eu nunca sou “eu” sou sempre “ele”. Tenho um amigo de infância, o Jurandir, que tem uma filha de 5 anos. Quando ela nasceu eu perguntei ao Jura: Cara, como é isso de ser pai? Ele me olhou e sem muita explicação me disse: Sabe o que é amar alguém e nunca esperar nada em troca? Eu não sabia. Mas agora, Jura, eu sei. Te devo essa, meu amigo.

Uma coisa é certa: os pais sempre serão os culpados pela má formação dos filhos. Pais sempre erram. Com os filhos a gente nunca ensina nada direito. A gente só aprende. Quando se põe um filho no mundo a gente pensa que pode defendê-lo de tudo, chegamos a achar que somos eternos, que os filhos serão sempre pequenos e vão nos amar todo tempo. Às vezes os filhos, na vida adulta, nos perdoam pelas burradas que fizemos e então seguimos. Noutras, não há tempo para nada, nem para o perdão nem para o amor. Aí a vida vai passando, envelhecemos e depois temos de morrer para que os filhos sigam e conheçam a vida sozinhos.

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Jeferson TenórioJeferson Tenório. É feito de literatura. Professor e apaixonado por Dom Quixote. Premiado no concurso Paulo Leminski em 2009 com o conto “Cavalos não choram” e no concurso Palco Habitasul com o conto “A beleza e a tristeza”, adaptado para o teatro em 2007 e 2008, além de ter tido poemas selecionados no concurso Poemas no Ônibus em 2009. Faz mestrado em literaturas Luso-africanas pela UFRGS.

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Palavraria - livros a

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4 Responses to “A crônica de Jeferson Tenório: Das vezes que parti sem dizer adeus”


  1. 1 Marlene
    30 de janeiro de 2013 às 20:24

    Ao esquecimento, o desprezo, ao silêncio e a inércia, o passado vivo, de tempestades e bonanças. Nada parece de fato o que enxergamos. A vida flui de muitas maneiras, até mesmo na quietude da maturidade senil.

    • 2 Jeferson Tenório
      3 de abril de 2013 às 00:52

      Pessoal! Acreditem, depois de dois meses é que percebi que havia espaço para comentários. Mas nunca é tarde…belas palavras de vocês…e vamos pensando juntos…

  2. 4 Carlos Grassioli
    19 de janeiro de 2013 às 11:06

    Gostei do que escrevestes e embora eu não tenha filho nem nunca terei, me identifiquei com você em dois pontos: O de escrever sem ser escritor e a relação com o emocional, ( amadurecer, medos e que tais). Em relaçao ao segundo , embora eu já tenha passado dos sessenta, costumo dizer que tenho a idade que sempre tive.
    Valeu!


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