24
jan
13

A crônica de Guto Piccinini: A porta 53

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A porta 53, por Guto Piccinini

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Recostado entre dois grandes edifícios repousava o cansado prédio da, talvez, ainda mais cansada, rua Vigário Cruz. É lá que reside nosso insólito personagem, por detrás da porta 53. Os poucos vizinhos do prédio nunca o viram. Mesmo o mais antigo, já na casa dos 50 anos, pouco sabe sobre aquele senhor de idade avançada, bengala a tira colo e pele branca como um dos muitos nomes atribuíveis ao gelo. Ao restante dos moradores, um a um em seu movimento pendular, sobra este processo de fermentação, pelo qual a curiosidade atiçada pelo tempo vai crescendo a cada dia diante deste estranho ausente que permanece por detrás daquela porta de fundo de corredor. Frente a esses olhares atentos, era notória a escassez de visitas. Raras e, de modo geral, passageiras. Provável tempo para um abraço seco, um olhar condescendente e um ambiente pouco receptivo. Ninguém sabia ao certo o que ali fazia, qual sua procedência e porque aquela imponente porta pouco se movia.

Foi tornando-se um mito também para os mais antigos da rua, entre conversas à beira da calçada ou em encontros casuais nas feiras de sábado de manhã. Dizem que “quem tem boca vai a Roma”, mas ficaria mais simples dizer “quem tem boca fala”. E como falam! Algumas informações nos chegam vagas e desencontradas. Dizem que apareceu de modo furtivo em uma tarde de junho, nestes dias de calor pouco usual para a época do ano. Outros dizem que carregava uma pequena mala e um grande silêncio, esse mesmo que o acompanha desde então. Falatório grudento, pueril e pouco confiável. Recheado de insinuações persecutórias, no qual dou-me o direito de não exercer o relato: não são dignas de palavra. Fato é que este silêncio suscita o romance alheio. Não são poucos os que tentaram atravessar essa barreira erigida entre a porta e a imaginação da vizinhança. Como também não são poucos os que arriscaram um contato inocente, mas que também não estranham a ausência de resposta às batidas na porta. Ela completa a cena.

De dentro, mal sabem eles o ritmo provocado pelas esparsas batidas. No espaço entre uma e outra, ganham vida no peso desencontrado dos dedos, timbrosas mãos na velha madeira ao encontro de um único e persistente espectador. De dentro, os ouvidos pouco atentos ao vento, ao barulho dos carros, às intensas fofocas, ressoam estas vidas insossas a insistir de modo quase infantil neste encontro com o estranho. De dentro há silêncio. Para muitos este vazio de palavra esquece sua intensidade de sentidos, sua potência esmagadora. Este não é qualquer silêncio, podemos sair em defesa do personagem, pois de dentro muito se escuta. Uma imagem atrás da outra, como música em rádio popular, a se repetir irritantemente. Pelos sonhos, pelas frestas, pelo ranger do assoalho e pela pele já rugosa e fria. Do pó que se acumula, ao olhar parado em lugar nenhum, muitos lugares se remoem, violentos como são, crus como são. Já não poderiam ser diferentes, e é esse o lamento sincero do vazio que resta.

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Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

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