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A crônica de Emir Ross: Sobre o nada

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Sobre o nada, por Emir Ross

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Nada tenho a falar sobre Machado de Assis. Mas sinto uma necessidade enorme de escrever algo. Sem importar o quê. Tem tanta gente falando nada sobre coisa alguma. Decidi falar nada sobre Machado.

Passado mais de um século, as pessoas ainda não perceberam o essencial no fundador da academia. Ainda discutem se Capitu deu ou não deu para Escobar. Acho que os discutidores do assunto não leram o livro. Ou ela fez inseminação artificial ou abriu as pernas para o amigo do marido. O fato do filho do casal ter o a cara e os trejeitos de Escobar não podem ser apenas obra de um narrador inconfiável.

Para mim, inconfiáveis são essas discussões. Machado não é uma discussão. É um estado de espírito. No fim, acho que ainda não aprendemos a ler. O que importa não é a traição. A importância está na necessidade que o autor nos provoca. A necessidade de falar sobre o assunto. Mesmo que nada haja a ser dito.

Em tempos de Big Brother (não falo do George Orwell, falo do Pedro Bial), o nada parece mesmo ser a tônica da cultura nacional. Parece que estamos meditando vinte e quatro horas por dia. Ou seja, com a mente vazia.

Nos anos dois mil, o que parecia impossível tornou-se lugar comum. Se antes precisava-se de anos para esvaziar a mente para conseguirmos meditar, agora faz-se num simples toque no power. Tudo bem que não se medita, mas com a mente vazia já é meio caminho andado.

Talvez esse seja o caminho para a paz em nosso país: a meditação. Nunca pensei que Pedro Bial tivesse esse poder.

Aposto que o próprio Bhuda está fascinado com essa descoberta. Assim como Machado de Assis está se revirando no caixão pelas notícias e repercussão sobre sua obra que os vermes lhe trazem.

O que os vermes não devem comunicar são as atividades da Academia Brasileira de Letras. Nem os nomes de seus integrantes. Se a importância que a fugidinha de Capitu alcançou o faz revirar-se no caixão, imaginem se ele soubesse que o José Sarney faz parte da casa que ele fundou para abrigar a nata dos escribas tupiniquins.

Acho que devo assistir mais o plim-plim. Estou começando a gostar dessa história de falar sobre o nada. Depois do meu aperfeiçoamento, talvez eu já consiga falar nada sobre futebol, sobre o aquecimento global e, chegarei ao auge, falando nada sobre a política.

Mas, antes, preciso acompanhar muito o programa do Bial. Ouvi dizer que até pay-per-view tem. Vinte e quatro horas por dia. Vou assinar.

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Emir Ross é publicitário e escritor e mora em Porto Alegre. Tem participação em 9 antologias de contos e recebeu mais de 20 prêmios literários. Entre eles, o Felippe d’Oliveira em Santa Maria (3 vezes), o Escriba de Piracicaba (2 vezes), o Luiz Vilela de Minas Gerais (2 vezes), o José Cândido de Carvalho do Rio de Janeiro (2 vezes), o Prêmio Araçatuba, entre outros. Escreve no blog milkyway.terra.com.br.

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Emir Roos publica neste blog na primeira e terceira segunda-feira do mês.

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2 Responses to “A crônica de Emir Ross: Sobre o nada”


  1. 1 luiza silva
    21 de março de 2013 às 13:48

    Emir, o Machado apareceu pra mim. Assim, vivinho da silva, como se estivesse bebendo na esquina e resolvesse tocar na porta do meu apartamento para um bate-papo ligeiro. Contou-me que leu o que escreveste na semana passada para o blog da Palavraria e que precisa debater alguma coisa, mesmo solidário contigo nos assuntos tratados. Tem tentado te encontrar, mas não o ouves ou não abres a porta. Então me faz de mulher de recados.
    Não está muito preocupado que já tenhas assumido o nada do Pedro Bial ou, quem sabe, introjetado o jeito big-brother de ser. Falou isso naturalmente comigo, sentado na cadeira da frente da minha escrivaninha, como se estivesse muito à vontade. No início da conversa achei estar sonhando, me dei dois ou três beliscões que doeram, acreditei. Repetiu estar muito preocupado, e tuas palavras vieram alertá-lo da séria ameaça que temos: o Sarney. Riu discretamente, um riso assim meio de lado, talvez desacreditando que consigamos resolver o que ele chamou de “o grande problema”, com essa ênfase mesmo. Contou-me que o Sarney morreu antes dele, uns bons quinze ou vinte anos, mas que se fez de desentendido com a morte e resolveu que não largaria o osso aqui da terra. Por isso, me afirmou, o Sarney anda cheio de vermes, está podre, envenenando tudo e todos que o rodeiam. O Machado pediu-me pra te falar a pouca boca, que desencanes com o nada, que desencanes com o bial, que desencanes com o vazio de toda a gente. Todas as ações, preocupações e temeridades devem estar concentradas no Sarney. Podes desencanar até com a Academia Brasileira de Letras. Nosso problema , nosso grande problema, o problema do Brasil como um todo, está resumido nessa múmia podre, que precisa ser re-avisada que já morreu.

    Ah, Emir, e te deixou um último recadinho: em relação à Capitu pede para que fiques tranquilo, sempre foi sabido que ela queria conquistar todos, ser coquete onde estivesse, endoidecer os homens. Ele ainda está a pensar se ela traiu ou não e, com o semblante sério demais, confessou: isso o mantém por aqui, também…

  2. 2 Carlos Grassioli
    21 de março de 2013 às 12:16

    Ainda prefiro teu “ falar sobre nada” que acaba dizendo muita coisa , do que, por exemplo, fazer a inevitável via crucis em bienais voltadas para a arte contemporânea , onde , também, inevitavelmente , a gente , (dale vírgula) antes de encontrar alguma obra que realmente nos diga alguma coisa, primeiro, temos que passar por muiiiitas coisas que se parecem com nada ou por muitos nadas que se parecem com alguma coisa.


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