19
mar
13

A crônica de Guto Piccinini: Trilogia da violência II

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Trilogia da violência II, por Guto Piccinini

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Minha querida

Fico feliz em finalmente tomar um papel e lápis e escrever-te estas palavras. Foram longos os anos que nos separam deste dia, e peço que não repare esta letra que mal se insinua por estas linhas tortas. Carrego ainda comigo estas mãos trêmulas que, como vês (e se escrevo é porque espero que vejas), não me permitem esconder-me como gostaria. Tu muito sabes que o tempo raramente sossega as marcas. É uma mentira mal contada. O presente é um tempo acumulado, e o esquecimento é uma dádiva para poucos. O mesmo posso dizer do que me sobra de paciência (que continua escassa) para dedicar a palavra sobre isso, mas verás que já começo a soltar algumas amarras. Há muito que desacredito das palavras. Este é um dos motivos pelo qual te escrevo e minha esperança de que que receba esta carta com carinho. Não por conforto. Imagino que estejas cansada desta caminhada, ao mesmo tempo que nela nos sustentamos. Então não me delongo mais nas escusas, não mais do que uma frase: penso todo dia no que ainda deves passar, penso em ti ao longo de todos estes anos e culpo-me por não ter estado perto. Guardo em mim a última vez que nos vimos e sinto como se fosse ontem teu olhar pousado ao meu no dia em que nos despedimos.

Estes dias têm sido ainda mais duros do que nunca. Meu esforço em me manter afastado é tentador para este velho corpo que me carrega. Como nos conhecemos por quase toda uma vida, já antevejo seus movimentos furtivos e preparo-me para os primeiros movimentos involuntários, que nos tomam de assalto, sem pressa e, aos poucos, transformam a tênue paz que construímos sobre o indizível. É em torno deste indizível que meu corpo perece e persiste. Vivo como um estranho em mim. Nestes arrastados anos, posso dizer-te que o sofrimento é maior apenas quando esta sensação me invade como se estivéssemos lá, neste exato instante. Tomado de vertigem, sou arrastado de mim novamente, como se pudesse sentir o cheiro ocre e a minha própria pulsação a servir de deleite para o estranho que, hoje, invento. Dispositivos de permanência, que dobram este passado infame sobre o que nos resta. O barulho dos passos contundentes, a iminência presente na cegueira proposital e o medo. Não tenho como te explicar, pois careço de explicações para mim mesmo. Tento esquecer, mas já aprendi que para o apagamento é preciso que não deixemos de repetir a palavra. Quem sabe um dia ela possa se tornar outra.

Eu estava sozinho em minha cela quando ouvi levarem um dos nossos. Não recordo exatamente o motivo, mas lembro que durante um tempo o prédio se esvaziara quase por completo. Era possível ouvir mais do que eu gostaria, e é com pesar que este custo me permite escrever-te este testemunho.  Vi quando o levaram, lá para onde levaram todos. Todos. Depois de algum tempo nos tornamos apenas “mais um”. Foi lá que perdi meu nome, porque continha em mim o nome de todos os outros. Passados alguns minutos, após cerrarem a porta com o gozo em punho, pude então ouvir, em volume máximo, o velho rádio sempre presente na abertura destas sessões intermináveis. Ele estava lá, como eu e tantos outros. Não mais o vi.

Por aqui fico. A ti, espero que possas encontrá-lo.

Com carinho.

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Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

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