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A crônica de Ademir Furtado: Vinho e conhecimento

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Vinho e conhecimento, por Ademir Furtado

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vinhos de boutique
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Eu me embriaguei pelo mundo dos vinhos há pouco menos de vinte anos. Daí em diante, comecei, não apenas a beber com um pouco mais de método, mas também, estudar o assunto. E para a felicidade de um enófilo, o mercado editorial está inundado de publicações sobre enologia, para quem quiser tomar um pileque de conhecimentos.  Seja o enfoque: histórico, filosófico e até literário. E uma das curiosidades encontradas é que o primeiro crítico de vinhos se chamava George Saintsbury, que viveu em Londres no começo do século XX, e tinha por ofício a crítica literária. Imagina-se que ele acalentava as horas de trabalho com algumas taças de algum Borgonha, que parece ter sido a região de sua preferência.

E estudar vinho é uma atividade mais ampla do que apenas ler compêndios e manuais, relatórios de safras, dados ampelográficos, e mapas de regiões produtoras. É tudo isso, mas também degustar com certa convicção. Eu diria até, uma visão de mundo. Alguns filósofos e poetas, não sei se por reflexões objetivas ou por efeito da bebida, afirmam que o vinho serve como meio para se adquirir sabedoria. Assim como um texto impresso nos informa dados sobre a cultura de um povo, uma taça de vinho, através dos sabores e aromas, nos transporta para o solo onde a bebida foi produzida. Isso, é claro, para quem bebe vinhos genuínos, aqueles que nascem sob a orientação do conceito de terroir.

E ao chegar nesse ponto, uma triste descoberta quase me fez desistir da empreitada. A sensação de ter chegado atrasado na festa. Porque, se há uma opinião unânime entre os amantes dos vinhos nobres é que, sobre os vinhedos do mundo inteiro, se alastrou uma nova praga, tão devastadora quanto a filoxera do século XIX.  E não se trata de mero saudosismo, ou pose de pedantes. Como todos as esferas da sociedade nos últimos tempos, o vinho também foi contaminado pela inescrupulosa ideologia do mercado, que nivelou tudo ao gosto do grande público. Assim como no cinema, na música e na literatura, no mundo dos vinhos também existe os best sellers, aquele feito para satisfazer as expectativas do maior número possível de consumidores. E tal qual um romance recheado de clichês, imagens pobres e frases óbvias, esses vinhos são impregnados de aroma de madeira e frutas, alto teor alcoólico e, quase sempre, com um final meio adocicado, destinados a agradar papilas gustativas acostumadas com coca-cola, que são os analfabetos funcionais do paladar.

Mas nem tudo está perdido. Não é o caso de chorar, porque o vinho não foi todo derramado. Ainda existe gente para quem o momento de empunhar uma taça de vinho é um ato de celebração à Natureza.  E um desses sobreviventes da tragédia se chama Neal Rosenthal, um mercador de vinhos de Nova York. Apesar de ser um comerciante, Rosenthal entende o vinho como o resultado de uma relação espiritual do Homem com a Terra. Orientado por essa concepção, ele dedicou décadas de vida a garimpar vinhos autênticos, para oferecer a uma clientela restrita, mas fiel. E registrou toda a experiência no livro Reflections of a Wine Merchant, lançado no Brasil pela Larousse Publicações, com o título de Vinhos de Butique: artesanais, raros e tradicionais.

O relato das aventuras pelas vinícolas do mundo, os relacionamentos, amizades e decepções com os vinicultores, são enriquecidas com observações sobre as práticas de cada produtor, as qualidades específicas de cada vinho. Mas também uma descrição de como o mundo dos vinhos foi se transformando nos últimos trinta anos, ao ser invadido por empresários de outras áreas, que nunca tiveram relação com a terra, para quem uma garrafa de vinho é apenas mais um número numa caixa registradora.

Para quem gosta de se perder no universo das narrativas, reais ou ficcionais, acompanhado apenas de uma taça de um vinho nobre, é aconselhável ter à mão um exemplar dessa obra. Também é bom fazer uma lista dos vinhos indicados e, em alguma viagem pelo mundo, tentar a sorte em alguma adega. Conhecer a complexidade da enologia através do próprio vinho pode ser um processo mas difícil e mais oneroso, mas com certeza, um complemento indispensável para o conhecimento mais profundo da mais fascinante das bebidas.

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Ademir Furtado é autor do romance Se eu olhar para trás (Dublinense, 2011). Escreve no blog http://prosaredo.blogspot.com

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